São Paulo, 25 de julho de 2008

 


 

Julho



Mécia Rodrigues

 

 

Quinta-feira, a cidade está um pouco vazia, com aquele jeito característico de férias. Uma relativa quietude nas ruas, menos trânsito de carros e pessoas, os passarinhos acordando e cantando mais tarde do que o habitual, o cara que conserta cadeiras de palhinha na esquina da farmácia mais espia as moças que passam do que conserta, a primeira fornada de pão sai fora de hora e os cães arrastam seus bocejantes donos pelas coleiras. Falar a verdade, até o inverno aproveitou e tirou férias, deixando um sol forte e luminoso pelas calçadas.

Jornais e revistas chegam às bancas com atraso e notícias velhas. Pelo mundo, as guerras parecem, também, estar em férias. Ontem algumas barracas da feira deixaram vazios seus lugares, e havia só dois tipos de pastéis. A moça da zona azul passa pelos carros com indolência, sem muita disposição de conferir os cartões. Uma lagartixa se arrasta pelo parapeito da minha janela e pára um instante, e ao parar resolve ficar ali mesmo até..quem sabe?

Olho para as árvores da avenida e percebo que apenas uma delas está trocando as folhas. As outras nem se incomodaram com isso. Fizeram um ar distraído para a estação e deixaram a folhagem no lugar.

Não parece julho, no entanto é julho, vinte e quatro de julho, quase agosto. O ar está denso e pesado, carregado de eletricidade, apesar do dia luminoso. Só que a metereologia diz que não vai chover.

Saio de casa à caminho da padaria, e um vulto, na outra calçada, pouco atrás de mim, se esgueirando pelas árvores, sem que eu possa vê-lo direito, chama a minha atenção. Assim de relance, parece um antepassado italiano, o bigode meio grisalho, o cabelo volumoso, o chapéu pendendo para a direita, o suspensório que as suas mãos insistem em puxar, a boca pronta para cantar Catari. Quem sabe ele não estaria me seguindo de verdade, para me entregar um recado? Um bilhete meio amassado? Retardo o passo, que já era lento, pelas dois quarteirões.

Entro e peço um café enorme, a xícara vem fervendo, sento no banquinho, olho e cobiço todos os pães das cestas. Enquanto isso, ele pára do outro lado da rua, um jeito absorto e tranqüilo, olhando para a frente, talvez para o infinito, talvez para as copas das árvores, talvez esperando que eu olhe para ele e dê um meio-sorriso, uma aquiescência, um sinal de que pode se aproximar e tomar café comigo. Bocejo, divertida, e espero.

Espero que a xícara esfrie um pouco, que o pão venha morno e lambuzado de manteiga, que o poodle toy, do lado de fora, pare de latir e, principalmente, que o meu antepassado italiano atravesse a rua e fale comigo. Mas ele continua lá, no mesmo lugar, aparentemente alheio a tudo, ao tempo que escorre através da fumaça da cafeteira, alheio à rua em que estamos, e até mesmo à mim, perdida dentro de uma enorme calça cáqui, cheia de bolsos, e um camisão xadrez, de capuz, o cabelo molhado ainda acordando, a boca cheirando a café, mamão, menta e tabaco.

Giro o corpo no banco e meu olhar passa por uma pomba que bica o chão em frente à padaria. Esfarelo o fim do pão lambuzado e jogo para ela, esticando o braço através da cerca lateral de madeira, que separa a padaria da calçada.

Nesse exato momento, para meu grande espanto, ouço um click vindo do outro lado da rua e paro. Levanto a cabeça, e dou de cara com o meu antepassado, antes alheio e agora sorridente, que tira uma foto minha e da pomba. Estou sentada na cerca de madeira, com a mão estendida, os farelos caem, parece que um vento sopra sobre eles, mas não há vento algum.

O homem tira o chapéu, faz uma reverência alegre com a cabeça, depois ergue a máquina, que havia tirado do rosto e deixado pendurada no pescoço, e click! me pega de novo, agora com o corpo meio pra dentro e antes que eu faça alguma coisa, ele click! bate uma terceira foto, com o rabo dos olhos me vejo no espelho, e click! a quarta foto, dou a volta correndo, ouvindo o quinto click, saio para a calçada e ele click! tira mais uma.

Vou atravessar a rua correndo, quando ouço a buzina do caminhão da coca-cola. Paro próxima ao meio-fio, faço menção de recuar, o caminhão vem descendo a rua tão lentamente, passa por mim mais lentamente ainda, tão preguiçoso quanto o mês de julho que faz tudo e todos desacelerarem. Ele passa por mim e se afasta, olho para o outro lado e meu antepassado desapareceu.

Será que entrou na papelaria? Na lavanderia? Será que desceu a rua transversal?

Enveredo por todas as ruas do bairro e não o vejo mais. Entro em todas as lojas e ele não esteve em nenhuma. Pergunto a todos os porteiros de todos os edifícios, e ninguém o conhece. Finalmente me conformo e volto para casa.

Acho que ele tirou aquelas fotografias apenas para levar consigo para a eternidade, e quando for contar como foram suas férias, para uma platéia com perfume de dama-da-noite, vai sacar as fotos do bolso do sobretudo e mostrá-las, orgulhoso.

 

 

 



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