São Paulo, 03 de setembro de 2009
Janelas
No meio da avenida Paulista, viro a cabeça para o alto, e dou de cara com uma daquelas monstruosidades da arquitetura moderna, se é que pode-se aplicar a palavra arquitetura a isso, sem desrespeitar Luigi Pucci, Vilanova Artigas, Roberto Cerqueira César e, claro, Ramos de Azevedo. Que deu à esta cidade elegância, personalidade e garbo. Olho os prédios com janelas turquesas e cinzas e não me conformo. Janelas que não abrem quase nunca, porque não foram feitas para serem abertas. E caso abram, por mero descuido, é sempre uma pequena fresta.
Esses prédios, espalhados não só pela Paulista, como também por outras áreas da cidade, são uma espécie de versão brasileira da Nar Shaddah, de George Lucas, do game Jedi Knight. Não, eu não tenho filhos, comprei o jogo para mim mesma e consegui terminá-lo, mas fiquei meses ali, matando Dark Jedis, o que me levou a gravar mentalmente cada pedaço de Nar Shaddah e a observar agora, como ela é parecida com esses novos edifícios. O prédio do Banco Francês e Brasileiro me faz quase jurar que o gênio que desenhou aquilo teve acesso ao Jedi Knight bem antes que ele fosse lançado. Daí a obra-prima.
Alguns deles apontam para uma Quinta Avenida Tropical que a Paulista sonhou ser nos anos sessenta. Sonho que nunca chegou a realizar. Mas que deixou um banzo no ar, nessa imitação da verticalidade. E aonde mais se poderia tentar imitar a Quinta Avenida, senão na verticalidade? Tenho feito um considerável esforço para entender que porcaria é essa de janelas, (quando elas existem, bem entendido) que não abrem nunca e ar condicionado ligado permanentemente. Posso entender que a temperatura da terra aumentou, que os verões têm sido mais quentes, o que seria só mais um motivo para se construir aqueles janelões enormes, que deixam o ar entrar e enchem o ambiente de luz.
Diminuiu-se a passagem da luz e conseqüentemente, aumentou-se o número de lâmpadas acesas. Já não existe mais uma divisão interna de espaços aonde todos os ambientes possuam janelas, porque paredes de eucatex criaram uma falsa divisão, resultando em salas de sete lados, também parecidas com alguns labirintos do Jedi Knight, ou ainda outras, aonde você entra e é obrigado a andar de lado, único espaço disponível. O impressionante não é ver essas coisas serem erguidas todos os dias. O impressionante é ver pessoas, com um razoável estudo, comprarem isso, e aí instalarem seus consultórios médicos, dentários, etc. Imagino alguém que passa dez horas do seu dia trabalhando em um lugar assim: ela não sente falta de luz? Não sente.
Constroem-se e destroem-se cidades, de uma maneira aleatória. Em 1950, Nehru, por motivos políticos que prefiro nem lembrar, convocou Le Corbusier para que ele construísse, no estado do Punjab, ao norte da Índia, uma cidade moderna. É Chandigarth. Que é tudo, menos uma cidade indiana.Talvez eu esteja errada. Talvez o tempo precise dessas mudanças, por pior que possam parecer. Talvez eu seja a única pessoa, no meio da avenida, olhando para o alto, e resmungando baixo essas coisas. Dou as costas aos prédios de janelas turquesas e cinzentas e à falta de luz que deve existir neles, e sou obrigada a reconhecer que a humanidade aqui presente, andando ao meu lado, nessa cidade, talvez já tenha estabelecido um outro parâmetro de espaços e luzes, de claridade e penumbra, de descanso e cansaço visual. Entro em um bar, e tomo um café, preocupada com o que virá daqui pra frente: o que substituirá os prédios e as parcas e poucas luzes de hoje? e será que estou virando uma memorialista e não me dei conta?
Ai de nós, São Paulo.
Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco