São Paulo, 03 de novembro de 2011
Hospital
quem olhar pro fundo do poço, vai ter
quem se olhar dos pés ao pescoço,
quem se olhar dos pés à cabeça, vai ver
que tudo é tão simples, tão claro, vai ver
quem passar por cima do muro, vai ter
quem passar por cima do mundo vai ver
que tudo é profundo, que tudo é tão simples, vai ver.Walter Franco - Hospital
Uma China feroz seguiu os vestígios dos pássaros, das rapinagens, do oscilar das serpentes, da perpetuidade das tartarugas e separou suas lendas em frascos de laca e despejou sobre eles gotas de ardósia e senhas vermelhas. Fragmentos de cervos e omoplatas, enchentes, rachaduras, e calor. Nasceu um cavalo negro de letras brancas que percorreu cálamos, estiletes e fez incisões sobre as águas dos rios, que uma chuva qualquer despiu de significados.
Desenhos de jade & postais da Caledônia & películas de filmes de Yimou. Umas tantas folhas de um outono vermelho perdido em uma gaveta do armário. longe de mim, omar destila pesadelos & guinéus cunhados em subterrâneos. Um certo tráfico de ternura & fendas escurecidas e às vezes incendiadas. Desejos misturados à açafrão & violetas.
Fotografei algumas coisas que me pareceram importantes: Hospital de Xangai, o sexto andar, a rua Wujiang e seus bolinhos de camarão, o parque Fuxing e até mesmo a folha amassada de um velho jornal que eu lia sentada num bancos, e também um inelutável adeus forrado de oleosas lágrimas agridoces.Pedi uma coca-cola, me sentia letal e diáfana. Similaridades medicinais, taninos, silícios, tinturas. Saudade do gato rajado na estante mais alta da minha sala, um pijama tirado às pressas, e aqui estou eu, esta sou eu: treze quilômetros de cais acostável, talvez um menino chinês escorregue pelas cordas sujas de algum navio e estenda sua mão para mim.
As noites escuras da província de Yunan, as cadeiras grisalhas de altos espaldares da Polinésia, os navios fantasmas, os olhos fortes de madrepérola, os sinais de atracação, sete pontos de açúcar a granel, a brasa do cigarro sobre a seda compacta da coragem. Um café, uma gaivota, um palíndromo. A argúcia dos corais trazidos do Pacífico, um esboço de paixão que se estenderia sobre guindastes rotatórios, os movimentos do desejo seriam sempre os movimentos de suas rebeliões. Naquele começo de manhã, creio ter descido dois degraus de um velho bar de madeira molhada e âncoras na parede e pedido um cálice vermelho de absinto, e depois uma coca-cola. A obsessão livresca das cordas dissonantes de uma guitarra: Lanny Gordin. Poeira de estrelas. E a minha casa, debruçada sobre o oceano de Platão. Minha casa, na verdade, balançando no nono andar, onde eu fico debaixo de uma luminária vermelha, de madrugada.
O menino chinês — que era eu mesma, deitada na cama do Hospital de Xangai, acho que o Hospital se chamava Xinhua — afastou-se sem fazer barulho. Antes ele/eu assim disse:
— Obrigada Dr. Vasco. Acho que o Sr. salvou a minha vida, não é verdade? Como é mesmo o seu nome inteiro?
— Vasco Moskovici da Cruz.