São Paulo, 22 de setembro de 2003

 

O Hospital

Mécia Rodrigues



"essa é uma das muitas histórias que acontecem comigo. Primeiro foi Susie quando eu tinha lambreta. Depois comprei um carro e parei na contra-mão. Tudo isso sem contar o tremendo tapa que eu levei com a história do splish splash. Mas essa história também é interessante...".
— Roberto Carlos —

 

Três horas da tarde e estou parada na Pamplona com a Paulista, esperando uma amiga. Com a minha mochila verde-musgo e a jaqueta gelo: companheiras de vicissitudes, impermanências, e muitos quilômetros de cidades, ausências e transtornos. E dos intermináveis dias felizes com chantilly & canetas.

A minha amiga chega logo depois de mim e descemos a Pamplona em direção ao Bexiga, calmamente, como o fariam duas francesas ricas no quadrilátero mais caro de Paris. Digo isso porque ela é filha de franceses e fala "ça va" com a naturalidade de uma abelha que faz bzzzzzzzzzzzzz....

Olhamos a rua e suas esquinas e falamos algumas coisas metafísicas. Alguns pensamentos elaborados & rebuscados me vêm à tona, corporificam-se e expandem-se até atingir a copa das árvores. Nada importa muito, já estamos quase chegando, naquele trecho em que a Pamplona começa a descer de verdade.

Aí eu paro, respiro fundo, estufo o peito, faço uma enorme pausa olhando para o vazio e digo assim: Sabe, você é uma pessoa extraordinária...e vou começar a tecer umas sábias e rebuscadas conjecturas sobre a maneira dela encarar a vida. A cena é assim mesmo. Eu literalmente paro no meio da rua, respiro fundo, olho para lugar nenhum, e começo um pausado discurso, cujo final esqueço lá pelo meio. Porque o primeiro carro que buzina me faz perder o fio da meada. Eu sei e sei como ninguém, que sou mais de confidencias noturnas ao pé do fogo. Invejo as pessoas que conseguem entabular uma conversa, com nexo, andando pela rua.

Disfarço depois que o carro buzina. Todo mundo acha que é mais uma das minhas enigmáticas pausas e não é. Estou apenas colando os cacos do meu discurso que se perdeu no ar. Algumas vezes eu consigo, na maioria delas não. Quando estou na fase da maioria, simplesmente emendo uma outra coisa à primeira, com toda minha competente prolixidade e saio para um outro assunto, tão complexo quanto o primeiro, ou mais, se possível.

Para não arranhar a minha imagem.

Aí tudo fica tetricamente pior e a imagem, antes arranhada, despedaça-se e rola ladeira abaixo, na Pamplona, caindo diretamente na primeira boca-de-lobo não entupida que lhe dê passagem e guarida.

Mas a minha amiga, no seu delicado e perfumado ça va, não percebeu ainda as ramificações e bifurcações do que foi um pensamento completo em algum momento daquela tarde. Então o meu ego— (Ich, em alemão no original — cuja tradução deu nisso: ego) se recompõe e recomeça um outro discurso, diferente do primeiro. Discurso esse que a cotidiana e tediosa rotina, em que me meti, mais por necessidade do que por vontade, me faz perpetrar aos ouvidos menos desatentos e mais pacientes.

Já atravessamos mais duas ruas, carros buzinaram, cães latiram, pássaros fizeram piu-piu, crianças desagradáveis e com o nariz imundo passaram gritando por nós, e vamos começar o ponto critico da coisa: não da conversa, mas da rua. Ali termina a Pamplona e começa a rua Sílvia. O nosso destino. E ali vai haver uma curva com alguns degraus de cimento, que requer alguns cuidados e método para passar por eles sem provocar hecatombes e/ou quedas. Tenho prática em degraus. Falar a verdade, até gosto deles. Atraem-me. Absorvem-me. Por isso fotografo-as avidamente.

Houve um engano no parágrafo anterior. Ali não termina a Pamplona. Ali começa a Pamplona e termina a rua Silvia. É que estamos na contramão.

Depois da curva número um da rua Silvia, há a minha esquerda o Hospital. Para onde estamos indo.

Passamos pela enorme porta de vidro fumê com espelhos e censores. Que se abre, encantada, à nossa passagem. Estou felicíssima. Por dois motivos: 1. ainda não dei nenhuma das minhas habituais mancadas e 2. estou sem dinheiro, para variar, e não vou poder detonar todos os dunkin donuts da lanchonete. Isso porque quando eu como os referidos, sempre sobra um pouco de açúcar pela boca, calça, camiseta, e mochila. Para dizer o mínimo.

Paramos na recepção e eu pergunto à senhorita morena, do outro lado do balcão, se o Dr. Renato está no consultório. Ela pensa por alguns segundos e isso me deixa fascinada. Adoro pessoas que demonstram que o seu (delas) cérebro, trabalha. Aí ela pega o telefone, liga para o consultório, pergunta por ele, desliga o telefone e olha para minha cara, com o veredicto final: Não, ele já foi embora.

Minha amiga me olha desconsolada. Digo, então, a ela: não se aborreça, siga-me apenas! Ela nem pisca e me segue, desbravando aquele lugar cheio de recepções, recepcionistas, elevadores e placas suspensas nas alturas. Entramos e eu digo à ascensorista: Centro Cirúrgico. Muito espantada, minha amiga me pergunta: Mas ele não foi embora? Respondo: isso é o que pensa a recepcionista. Não fosse ela uma sofista menor e teria sabido o real paradeiro dele. Já eu, em cujas veias corre o sangue de Sherlock....

Descemos e como eu previa, ele estava lá, terminando uma cirurgia. Sentamo-nos placidamente naquelas poltronas de curvin, ligadas umas às outras, e ficamos em silêncio, que o local exige isso.

Eu estava satisfeitíssima com a minha compostura e compenetração, aliviada porque tudo corria muito bem, sem nenhum incidente daqueles que costumam me acontecer mal eu saio à rua. Aí, minha amiga, sabiamente, perguntou-me: O Renato sabe que você está aqui?

É. Ele não sabia ainda. Sabia que eu ia passar por lá ao cair do crepúsculo. Então era melhor eu avisar. À nossa frente havia uma enorme porta onde estava escrito: Recepção do Centro Cirúrgico. Ou algo assim. O Centro Cirúrgico propriamente dito fica à direita. E a porta, não só é grande, como também pesada. Atrás dessa porta, há uma mesa, umas cadeiras, enfermeiras, médicos, computadores, etc. Empurrei-a, porque aberta ela já estava, aliás, levemente encostada, e disse a todos: Boa tarde! Com um efusivo sorriso e simpatia que fez com que todos, eu disse todos, que lá dentro se encontravam, respondessem com um sorriso e simpatia semelhantes. Menos o Dr. Renato, que estava na sala de cirurgia. Continuei: vocês podem me fazer o favor de avisar o Dr. Renato, quando ele terminar a cirurgia, evidente, que estou lá fora, esperando? É claro, disseram as alegres vozes dos anjos, em coro. E uma disse assim: não feche a porta ao sair senão a gente fica presa aqui dentro porque a fechadura quebrou.Toma cuidado.

Mas as palavras não chegaram ao meu cérebro a tempo hábil e eu plaft! Virei as costas e fechei solenemente a porta. Ao que a minhas amiga, esqueceu os seus ça vas delicados e rá rá rá rá rá rá rá rá. Deu uma estrondosa gargalhada. Muito admirada, perguntei:

— Qual a graça?

— Você acaba de trancar meio hospital lá dentro. Rárárárárárárárá.

Três horas depois, já noite e garoa, meio hospital destrancado, estamos as duas sentadas nas escadas do metrô Trianon conversando. Alguma coisa faz com que eu recupere o comentário inteligente que perdi quando descíamos a Pamplona e o carro buzinou. Estufo o peito, olho para ela e...calo a boca.

Infinitas vezes eu gostaria de ser apenas caixa da Kopenhagen ou balconista da Marisa, paquerar o cobrador do Penha-Lapa e ir à igreja evangélica às sextas-feiras. Seria tudo muito menos complicado. Desde portas que se fecham à minha passagem a indignações inúteis. E intrincados processos judiciais que levam tempo, energia e saúde embora.

 

Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco