São Paulo, 22 de novembro de 2004

And what have you done?

 


Mécia Rodrigues


Another year over
And a new one just begun
—John Lennon —



O ano está no fim de novo. Outra vez. Mais uma vez. Eu havia imaginado-o com uma ininterrupta série de canalhices que, infelizmente, ficarão para o próximo. Detesto quando o ano está para terminar e constato que as minhas cafagestices foram pequenas e inócuas perto de como e quanto as imaginei, e por isso nem merecem ser contadas, pois poderiam depor contra a minha cuidadosa imagem de rebel without a cause. A bad girl, cronista de São Paulo, não conseguiu a mesma performance de 2003 e dos anos antecedentes.

Não briguei na rua, e não bati em ninguém. Houve, claro, algumas cusparadas ao léu e ofensas gritadas da janela do ônibus, mas nada que justificasse um verdadeiro pega-pra-capar com final de noite na ante-sala do delegado de plantão.

Joguei o lixo pela janela, na cabeça do síndico, apenas duas vezes. E em outra três, lati, de madrugada, para o cachorro do vizinho. Quando faço isso, começa uma balbúrdia incrível por aqui, que se estende por todos os canis do bairro.

Perdi uma enorme oportunidade de transformar o decente GazieaDio! na Vila Madalena num cortiço em fim de madrugada e me arrependo profundamente. O motivo, estava ali, bem à minha frente e era suficientemente rotundo para eu não deixar escapar. E eu fui bancar a fina na hora errada. Fiz minha melhor pose de Dama das Camélias, sentei-me num banquinho, era agosto!, e suspirei ao ver o tumulto verbal armado. Fiz pior, confesso: contemporizei. A contemporização, por Saturno!, essa mancha negra, indelével, no meu currículo....que o Universo me proteja de voltar a praticá-la!

Falei mal de um monte de gente, mas não o suficiente para atrair a sua ira e ódio. Todos souberam, mas fingiram que de nada sabiam. Em 2005 vou quintuplicar os insultos. Vou bradar aos quatro ventos coisas que fariam corar um monge de pedra.

E também desfiar o meu repertório de palavrões de dar inveja a qualquer marinheiro turco, bem bêbado, cujo navio está atracado no cais de Santos.

Lógico que fiz uns gestos obscenos pros skatistas do pedaço, que me responderam com outros, mas ficou por isso mesmo.

Se eu menti? Descaradamente. Para todos. Contei histórias fabulosas. Recriei e aumentei casos. Mas, faltou-me, talvez, um pouco mais de imaginação, para que os mesmos gerassem as confusões de sempre.

Andei pela Liberdade inteira no meio das madrugadas e ninguém se aproximou de mim com o intuito de me assaltar para que eu pudesse reagir e pegar o ladrão pelo pescoço, jogá-lo no chão e me atirar por cima dele e esmurrá-lo até minha mão doer.

Não perdi dinheiro no jogo o suficiente para amaldiçoar os céus e terras que passam por mim e que jamais me amparam no momento de embaralhar as cartas. Eu gosto mesmo é das grandes derrocadas, dos grandes desesperos do dia seguinte. Aqueles aros negros em torno aos olhos e a voz de dinossauro: — Por Plutão! Porque mesmo me sentei à uma mesa clandestina de jogo???

Fumei desbragadamente e assoprei a fumaça na cara de todo não-fumante que estivesse num raio de dois metros. Mas nenhum deles me olhou feio, esta é a verdade. Também acendi cigarros em locais proibidos e por uma misteriosa injunção de realinhamento de planetas ninguém chamou minha atenção. Na única vez que o segurança fez cara feia eu rosnei antes dele: — experimenta tirar da minha boca!!!

Comi absolutamente tudo que estava na mesa à minha frente. Pouco me importa colesteróis e afins. Participei de várias manifestações favoráveis ao fechamento das academias de ginástica, esse mal mundial. Pensem comigo: esses músculos todos só fazem ressaltar comportamentos belicosos e acentuar diferenças entre árabes e judeus, indianos e paquistaneses, colaborando assim para o acirramento do problema étnico.

Fui parar na delegacia apenas uma vez, e ainda por cima era a vítima.

Não quebrei nenhuma garrafa na cabeça de ninguém.

Fiz umas macumbinhas, é claro, que ninguém sobrevive a esses tempos difíceis sem deixar um charuto e um copinho de pinga numa encruzilhada, uma rosa com champagne em outra, e umas pimentas dedo-de-moça atrás da porta.

Enfim, pessoalmente, no que diz respeito ao meu espírito de porco, foi um ano perdido, digamos.

Mas teve os seus brilhantes e inesquecíveis momentos: eu e minha mochila cor de melancia na rodoviária, incontáveis vezes, em busca do céu de Sorocaba e de Curitiba. Onde eu passei momentos inesquecíveis, como dormir com portas e janelas abertas, padaria de madrugada, a Jô lendo meu tarô e torcendo para eu não acabar com a comida da geladeira, porque coca-cola e suco já tinha ido há muito. Voltei quinhentas vezes pela Rodovia do Oeste na primeira poltrona em frente ao janelão, no ônibus das 23h.

Ah, e beijei. Beijei muito e demoradamente um rapaz chamado Alexander. Na esquina da rua detrás de casa, na lanchonete, na padaria, no GrazieaDio!, nas festas de outubro, na casa da Bia, na chuva de novembro, no terraço da minha casa, no Cardoso de Almeida às sextas-feiras, no provador da loja de jeans da Barão de Itapetininga, no sexto andar de um prédio da Vila Mariana e em tantos outros lugares. Um beijo antigo e demorado, que como ele diz: “eu sempre trouxe dentro de mim”.

Que venha então 2005, porque the show must go on!

 

 



 

Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco