São Paulo, 20 de junho de 2005
Greta Garbo, quem diria? acabou no Irajá...
Quinta-feira, 16 de junho, cinco horas da tarde, casualmente estou lendo o Editorial da Folha de São Paulo. Casualmente, claro, porque eu não leio a Folha. E ao ler o seu editorial, percebo que está na hora de boa parte dos jornalistas começar a tentar salvar a área do cérebro onde se alojam os neurônios do bom-senso e do espírito crítico. Porque ela deve existir, é claro.Diz então o editorialista: “Eu não sou exatamente um ingênuo. Nunca esperei que aquele velho partido que a maioria de nós, mesmo discordando aqui e ali, aprendeu a respeitar por seu vigor ético e sua coerência...”.
Fiquei me perguntando o que quer dizer “vigor ético” e “coerência”, se aplicados à camarilha do partido dos trabalhadores. O excessivo apreço que a imprensa brasileira, em particular, tem pelos adjetivos, faz com que os mesmos ocupem quase dois terços dos textos diariamente escritos. Sem que o seu correto significado vincule-se a um nome ou substantivo imediatamente anterior. Eles apenas estão lá, queridos por todos: os adjetivos.
Evidente que a turma da Folha sempre primou pelo alinhamento ao PT. Não digo às idéias do PT, porque o mesmo nunca teve idéias. Teve sim, uma melodramática verborragia, uma vigorosa oratória e uma eficiente teatralização. O que não é vantagem alguma, visto que, no passado, Jânio Quadros também teve tudo isso. Quem achou a postura cênica do deputado Roberto Jefferson excessiva, seguramente jamais viu o Presidente da República, nos tempos que oficialmente não fazia nada, discursando em porta de fábrica.
E não só a turma da Folha esteve alinhada ao PT, como a turma da OAB, da USP, da PUC, da Igreja Católica, dos meios acadêmicos, dos detentores da cultura oficial do país. As, entre aspas, chamadas elites culturais.
A biografia dos membros da camarilha do planalto esteve aí, o tempo todo, para quem quisesse ver.
Nenhum deles, em momento algum, elogiou algum país democrático, embora a palavra “democracia” seja uma das mais proferidas pelas suas fileiras e escalões. Mas para a então Rússia, para a China, para a Albânia, jamais faltaram elogios. O que se quis mesmo, foi transformar isso aqui em uma enorme Cuba sul-americana. Tudo que a atual cúpula do PT fazia quando militava na esquerda, no fim dos anos 60, começo dos 70, está criteriosamente descrito — e criticado — no livro Combate nas Trevas, do Professor Jacob Gorender, ex-preso político e um dos fundadores do PCBR.
É possível se dizer absolutamente tudo sobre o PT, menos que teve ética ou coerência.
Mas boa parte da mídia, composta por velhos e saudosos comunistas que, neste momento, se diz “estarrecida”, estendeu tapetes de veludo para a corja passar, latir e cuspir. Não foi isso que fizeram quando mexeram no salário dos aposentados? Naquele exato momento ruiu o direito adquirido, um das bases de sustentação da sociedade democrática.
Enquanto isso, uma nova geração foi se formando. Em um primeiro exemplo, a matéria da Veja, da semana retrasada, ao falar da proibição do novo livro do decantado escritor de A Ilha, Fernando de Morais, grifa que se isso houvesse acontecido “em Cuba seria muito pior”. E não esquece de ressaltar que Fernando, —mais uma vez—, fez um mau jornalismo, publicando graves acusações a Ronaldo Caiado, sem ter ouvido a sua versão dos fatos. Não é a primeira vez que o mau jornalismo é flagrado em um livro de Fernando. Em Olga, há uma cena onde existe um diálogo entre a própria e sua companheira de cela. Como ambas estão mortas, e não houve testemunhas desse diálogo, evidentemente trata-se de ficção. Então, fica engraçado apresentar um livro de ficção como “jornalístico”. O segundo exemplo, é Daniel Pizza, em sua coluna do Estado, faz já uns seis meses, falando de Chico Buarque, elogiando seu talento musical “...apesar de suas posições políticas retrógradas”. Essa é a nova geração, entrando nos 30, que não quer nem ouvir falar em comunismo.
Mas voltando ao começo, ao editorial da Folha, onde são grifados “coerência” e “vigor ético”, —o imensurável apreço pelos adjetivos—, cumpre-me perguntar o que poderia ser esse “vigor ético”:
Vale relembrar que o presidente Lula pregou contra a unicidade e o imposto sindical, em porta de fábrica, a vida toda. Quando da Constituição, por um acordo fechado com o senador Albano Franco, segurou a bancada do PT na Câmara, e ninguém foi lá votar. Isso é ética?
Foi ética a maneira insana como o PT se comportou e ainda se comporta em relação ao assassinato, não esclarecido, do prefeito de Santo André, Celso Daniel? E, pior, ao pedir para o presidente do STJ, Nélson Jobim, que não aceitasse as acusações que pairavam sobre Dirceu e o seu envolvimento no esquema de corrupção da prefeitura de Santo André?
Foi ética a defesa às Farc colombianas? A extremada amizade com um criminoso do porte de Fidel Castro?
Nem vou mencionar acordos com a Rede Globo, bicheiros, rinhas de galo. Isso é o mais suave no currículo da camarilha.
Agora que o Planalto está ruindo, todo mundo sai correndo pra sua coluna do jornal, escrevendo: “não era bem assim”....A inerte, e sem brilho, vida intelectual brasileira, que nem se poupou a humilhação de ir ajoelhar-se aos pés do ministro da cultura, pedindo dinheiro e apadrinhamento do estado, numa coisa chamada Literatura Urgente, vai disparando as suas paupérrimas, lamentáveis, justificativas para ter em um recente passado “respeitado aquele velho partido”.
Ora, tenham paciência, senhores.
Era exatamente assim, e todos sabiam. Estava lá o ovo e a serpente dentro dele. Não viu quem não quis. Faço votos que as pessoas que deram seu voto a quem, um dia, participou de treino de guerrilhas em Cuba, e queria tomar o poder pela revolução armada, revisem a sua ótica de pensamento e procurem focá-la em uma coisa chamada: Lógica. Porque o feitiço, como diz o ditado...
E ingenuidade tem limite.
P.S. Com toda esse confusão, o Planalto e parte da imprensa que, convenientemente ou não, ajudou a sua eleição, até esqueceram de prestar a derradeira homenagem ao líder do Partido Comunista Português, Álvaro Cunhal, falecido esta semana, aos 91 anos.