São Paulo, 01 de dezembro de 2006
Dezembros
Jece Valadão fazia parte da minha vida. Aquela música: I started a joke também. Quero dizer: continuam ambos fazendo parte. Os cafajestes é infinitamente superior a Jules et Jim e foi feito antes, eu disse em uma das últimas aulas daquele ano. O ônibus aeroporto-perdizes também fazia parte da minha vida.
Sábado à tarde no cinema. Doris Day. Steeve Mcqueen. Paul Newman. Dezembros de anos respingados de dourado.
Estudando matemática na Ministro de Godoy no inverno. Verbos franceses. Declinações russas. Bangue-bangue. Rua Augusta e às quartas-feiras sessão maldita do Marachá. Máscara do mal secreto. Gal gravando à todo vapor: pérola negra, te amo, te amo. Stardust na praça Roosevelt. O cais do porto de Santos. John Lee Hooker. Ravi Shankar. Incenso de sândalo. Délhi adormecida nas fotos dos meus sonhos. Lisboa e a rua da Prata. David Mourão-Ferreira: és a ave chamada Todavia. Desta janela sozinha. William Seaward Burroughs. Hans Christian Andersen. Maria Bonomi. Os números das minhas casas: 717, 860, 347, etc. Cabala. Coalas desenhados nas calças jeans. Renata Sorrah em Os convalescentes. Lourival Pariz no primeiro banco do ônibus numa madrugada da Dutra. Encostei a cabeça no seu ombro e quase dormi. Assobiei. Dina Sfat no Arena. Plínio Marcos à luz de um abajur lilás. Beto Rockfeller. Mas, claro: Jece Valadão. E Norma Benguel. E Walter Hugo. Os lugares da cidade: a estação da Luz, o Theatro Municipal, o Iguatemi. Os namorados de dezembro, os desenhos, os desejos. Os existencialistas franceses: o segundo sexo. Os sexos. Os sóis. As bermudas xadrezes. Nunca mais foram tão xadrezes assim. Litoral sul, trilha beirando a Anhanguera. Londrina, Porto Alegre. O assalto ao trem pagador. Lanny Gordin. Janis Joplin. Summertime. A morte e a donzela. Hawai 5-0. A primavera de Praga, a revolução de veludo. Nikita Kruschev. Jacqueline Kennedy. O Teatro Paiol na rua Amaral Gurgel. Os concretistas. Os poema-práxis. Lívio Abramo. Um outro Lívio que me amava. As escadas de Santana, a casa perdida na praia. Somos todos iguais, braços dados ou não. Jack Nicholson lobotomizado. Jack Kerouack e sua escrita quase automática. O sol da meia-noite se chamava Jan Garbarek nos meus discos de vinil. Cartões da Unicef, morangos silvestres, a ilha de Molokai. Al Paccino. Creedence. I like the way you walk. I like the way you talk. Satisfaction. Se um dia você for embora, me leva contigo. A primeira vez foi a cidade, a segunda o mar, a eternidade.
As cerejas de dezembro. As maças. Dürremmatt no em nova encenação. Pasquins, poços de petróleo, pequenos pesadelos. Dois perdidos numa noite suja, bonitinha, mas ordinária. Torquato caindo pela janela. E vivo tranqüilamente todas as horas do fim. Num doce balanço, caminho do mar.
Um carro azul, uma estrada azul, um céu de chumbo e metileno. As chuvas de dezembro, os pisca-piscas. David Carradine. Tchekhov. Eric Clapton. Os hospícios, os sabonetes, as demências longas, as notas breves, as semifusas. Os gatos rajados. As orquídeas. Billie Holliday. O guarani. O trenzinho caipira. As violas, as cítaras, as sitars. Manhãs de São Paulo. Romãs. Uvas. Juó Bananére. Bixiga, Bela Vista, João Antônio, Santa Cecília. Osman Lins. A rainha dos cárceres da Grécia. Perfume, persuasão. A contracultura, o underground, o Teatro do Absurdo, Ziembinski, Emerson, Lake&Palmer. A misteriosa ronda noturna de Rembrandt. As batas indianas, as bolsas de cacos redondos de espelhos. Patchouli. A trilha de Ho Chi Min. Tenzi Giatzu. The Doors, Castañeda, Huxley. Frank Sinatra cantando Jingle Bell. Tarde demais para esquecer. À meia-noite encarnarei no teu cadáver. O arquiteto e o imperador da Assíria. José Celso. Woodstock. Oh, Calcutta! I´m wondering round and round. Watergate, almanaque da lua, a lua na sétima casa. Aquarius.
Parece dezembro de um ano dourado. Mas é 2006. Veermer. Moça com brinco de pérola e cachorro castanho no meio do quarteirão.
Esta cidade, estas luzes, este amor dramático respingado de amianto.
![]()
Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco