São Paulo, 04 de janeiro de 2007

 

Declaração de Amor

 

Mécia Rodrigues

 

De noite eu rondo a cidade a te procurar"
(Ronda - Paulo Vanzolini)

 


Não faz mal que não seja bem entendida. Não faz mal que não seja lida até o fim. Ou que não seja lida nem até o fim do primeiro parágrafo. Importa que eu pude escrevê-la. Esta pequena declaração de amor. Que comecei a rascunhar em um caderno lilás espiralado, quando eu era um pouco menor do que sou hoje.

De lá para cá, do tempo em que eu usava uma camiseta branca com um M vermelho, muitas coisas me ensinaram, ou penso que ensinaram, a escrever declarações de amor. A primeira delas foi a intimidade, cada vez maior e mais estreita, que eu fui tendo através da vida com a minha língua. E aí eu aprendi que ama-se uma língua, por exemplo. O fato de me debruçar sobre ela, pareceu-me amor, é isso. E enquanto eu a estudava, à minha maneira, sem a metodologia do colégio, cujas aulas eu trocava por longos passeios pelo centro de São Paulo, aprendi que também ama-se uma cidade. E, apaixonadamente, amei as duas primeiras “coisas” na minha vida: a língua e a cidade. Evidente que eu não chamava de amor isso. Nem poderia. Naquela época, o Alexander me contou que ama-se a música, o Alain que ama-se o cinema, e o Kiko que ama-se o teatro. E misturado aos amores que escolhíamos, ou que éramos por eles escolhidos, como a língua, a música, o cinema e a cidade, também íamos amando pequenas coisas, que talvez não nos acompanhassem ao longo da vida, mas que, afinal, eram as nossas identidades pessoais. As nossas roupas, os nossos cabelos, o nosso jeito de andar e de falar. Essas cambiáveis identidades mudariam depois, ou nem mudariam. Quem sabe ainda hoje, usamos os mesmos jeans e camisetas, o mesmo corte de cabelo e fumamos do mesmo jeito que fumávamos aos quinze anos?

Então eu entrei na Faculdade. E continuei estudando, do mesmo modo desordenado com que vinha fazendo, sem obedecer ou sequer prestar atenção ao novo método, que me parecia chatíssimo e infindável, com aquela profusão de drummonds e gracilianos. Eu já amava outras resmas amareladas e outros colofões: Juó Bananère, Lindolf Bell, Lúcio Cardoso, Alcântara Machado. E para meu espanto e decepção ninguém na minha classe conhecia os versos de Álvares de Azevedo:

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti - as noites eu velei chorando,
Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo.

Como assim, essa gente não leu Álvares de Azevedo??? Não, não haviam lido. Estávamos na época da lingüística, da semântica aplicada, e da realidade brasileira. O que quer que isso signifique. E também das movimentações estudantis. De Marx e Engels. Eu lia Tocqueville. Olhei aquilo tudo com um impressionante desdém, e imediatamente aceitei o convite do Kiko Jaess para fazer parte do grupo de teatro. O que me fez virar as costas à vaga, porém vigorosa, a seu modo, política estudantil, que se dividia em várias correntes: maoístas, trotskistas, leninistas. Mas todas, em alma e essência, eram formadas por grandes stalinistas. Pouco me importava. Eu tinha ensaio no teatro da FAU depois da aula, e dois meses depois os ensaios mudaram-se para o Teatro Paiol.

Adeus política estudantil, maoístas e trotskistas, gracilianos e drummonds.

Claro, havia a censura. Por ela passava absolutamente tudo que tivesse relação com a arte. E os censores cortavam, riscavam, faziam apontamentos nos papéis. E o Kiko resolveu então que nada de Blanche Dubois, nada que corresse o risco de ser cortado. Não que Blanche Dubois fosse cortada, mas, sabe-se lá...Ele sentou e escreveu a sua primeira peça, que encenamos, e depois a segunda que também encenamos. Essa segunda chamava-se O Parque Depois do Meio-Dia. Era uma coisa totalmente surrealista, e alegórica. Eu a absorvi mal no início. Fazia o papel principal, o de uma prostituta de classe. Que pouco se importava com o Filósofo e os Guardas do Parque, que comigo contracenavam. Em todo o caso, acabamos criando um espetáculo bonito, que ganhou um prêmio no festival de Brasília e viajamos com ele boa parte do Brasil. Eu estava tão compenetrada no “meu papel”, que só fui relaxar em Londrina. Lá eu chamei o Kiko e disse assim: — Mas, Kiko, você sabe o que escreveu? E ele fez um longo discurso sobre o Teatro do Absurdo, sobre Artaud, sobre Beckett. Acho que nem ele havia se dado conta. Hoje, relendo-a, percebo que foi uma das mais contundentes peças de “resistência” à censura. E, imagine! partindo do alienado Kiko e cuja atriz principal era a alienada jovem que lia Tocqueville. Acabei deixando a peça dois anos depois, sendo substituída pela atriz Tamara Taxman, com muita competência e brilhantismo, que eu, uma amadora, evidentemente não poderia ter.

Flertavámos e casavámos com uma estética muito bem definida para que não se corresse o risco de gostar de La Chinoise meramente por razões políticas. Era necessário separar Godard de Godard. Então, escrevíamos sobre tudo. Sobre os ensaios da peça, sobre o texto do Kiko, sobre a nossa atuação, sobre os filmes. Sobre o nosso horror à tutela da censura que se estendia sobre nós.

Então acabou a farra. A faculdade estava no fim e eu não poderia me dar ao luxo de ficar com diletantismos em outras áreas, caso quisesse mesmo escrever. Passei anos escrevendo romances, contos, poesias, e peças de teatro que, invariavelmente, iam para o lixo. Sozinha, gastei uma floresta amazônica inteira, de papel, com todos as porcarias que consegui produzir. E continuava a rabiscar no caderno espiralado, já não tão lilás, algumas declarações de amor. Uma delas, nas costas das páginas do texto do Parque.

Talvez eu não tenha aprendido a escrever declarações de amor como eu queria, sombreadas pela pena romântica de Álvares de Azevedo. Talvez eu não tenha conseguido transmitir nada sobre o amor nas minhas palavras escritas. Talvez eu nem escreva tão bem assim. Não importa. Ficou gravado em algum lugar daqui os meus olhos fundos sobre São Paulo. E os dela sobre mim.

Ela foi (é) a minha interlocutora mais assídua e próxima. Onde quer que eu fosse, ou estivesse, na minha aparente transitoriedade e impermanência, havia sempre a voz desordenada da cidade de encontro à minha, suas modulações e emissões, como a minha segunda e secreta voz. Interna, entranhada. E ela é (foi), meu código genético, minha resistência, minha imunidade.

Ainda bem.

Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco