São Paulo, 23 de fevereiro de 2004
Da padaria ao papel
Quem nunca encostou em um balcão de padaria ou de boteco no final de uma tarde de calor e preguiça, e falou horas sobre qualquer coisa que não conhece, que atire a primeira coca-cola.
Nesses momentos, quando chega uma tempestade de verão e somos todos iguais embaixo do toldo e em cima de mesas e balcão, e que começamos a conversar uns com os outros, conhecidos e desconhecidos, é que a nossa loquacidade parece fervilhar com maior intensidade. Pelo menos a minha.
Tarde dessas, estava eu em uma das minhas padarias prediletas, quando começou um assunto sobre religião e eu comecei a dar meus palpites e fui parar no padre Molina, jesuíta espanhol que viveu no século XVI, e que, a meu ver, tinha posturas favoráveis ao livre-arbítrio. Não sei como, nem de onde, de quais trevas abissais me veio o Padre Molina à cabeça, porque eu não entendo nada, nada, nada, de religião. Mas ninguém ali o conhecia e eu, empolgada com o sucesso que o livre-arbítrio do sacerdote estava fazendo, falei um bom tempo. Divaguei. Criei doutrinas e filosofias que nunca existiram. Pedi um sorvete todo complicado, enquanto uma atenta, silenciosa e grande platéia esperava para ouvir brotar dos meus lábios, a essa altura já sujos de chantilly e sorvete, mais e maiores informações sobre a época em que a igreja espanhola derrapou e flertou escandalosamente com o budismo.
E, é claro que, fundei ali, naquele prosaico fim de tarde, uma nova corrente de pensamento, chamada "molinismo". Que veio acrescida de vários parágrafos de pensamentos meus, e não do padre Molina.
Um pouco embriagada pelo sucesso que o molinismo fez, quando cheguei em casa, cortei dúzias de cubos de melancia gelada, pus no prato e coloquei-o à escrivaninha e resolvi escrever o que eu havia dito, ou o que eu lembrava do que havia dito, que me pareceu muito sensato e sábio.
Entre o balcão da padaria, a tempestade e a página em branco há um longo e tortuoso caminho.
E por não tê-lo trilhado antes, pelo menos não com tanto brilhantismo, escrevi cinco páginas sobre o assunto a que me propus.
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Óbvio que eu precisava de um pretexto para falar do tema, e nada melhor do que o padre Quevedo, que eu acho uma besta, e que é, culturalmente, desimportante. E nem sei exatamente se ele ainda existe e aonde. Tal o meu interesse. Mas estava ali o pretexto e comecei.
Quando terminei, alta madrugada, reli as cinco páginas e fiquei muito contente com tudo que eu havia escrito. Para não dizer extasiada com tanta perspicácia e cultura. Os cubos de melancia não existiam mais, nem os caroços que devo ter engolido sem perceber. Constatei então, que o molinismo tomou proporções muito grandes, tornou-se uma corrente filosófica que digladiou com papas e mitras, balançou arquidioceses, estremeceu concílios, fez cardeais atirarem-se de despenhadeiros, varreu do mapa ordens inteiras e quase mudou o destino da igreja católica.
E no centro da minha crônica, lá estava ele, em pé, hirto, tenso, batinas ao vento, bradando o seu recém-adquirido tacape aimoré: o padre Quevedo.
Repito, agora absolutamente convencida, e que nenhuma duvida paire sobre isso: nada sei de religião. Nem ao menos observar os movimentos do clero no que toca à política do Brasil, embora intua que ele (o clero) lá está, razoavelmente gordo, lustroso e feliz, ao lado do Poder. Então, por Saturno!, porque mesmo eu tinha de escrever sobre isso? Falar tudo bem, sempre existe a possibilidade de desmentir no dia seguinte: "não foi bem isso que eu disse"...Mas, escrever? Porquê?
Porque é fevereiro, porque estava muito quente, porque meu estômago, tirando a melancia e o sorvete, estava vazio e porque eu delirei, é claro. Porque o sol do meio-dia derramou-se, inclemente e feroz, sobre a minha cabeça e derreteu a área do bom senso e da autocrítica. Não achei conveniente esperar 24 h para que ela se refizesse e escrevi aquilo.
Mas muito pior do que ter escrito aquilo é ter julgado que estava dizendo alguma coisa aproveitável. Porque caso houvesse escrito, achado uma porcaria e deletado, tudo bem. Mas, não. Escrevi e ainda, pasmem!, achei bom. Não digo razoável ou aproveitável. Achei a crônica com todos os seus erros, e achados molinisticos, boa. Devo até ter dado um sorriso de satisfação e bem-estar ao terminá-la. Devo, não. Dei, essa é a dura e cruel verdade.
Dois dias depois, quando a área do cérebro que se refere ao bom-senso estava refeita e pronta para mais 30 graus Celsius, caso eles chegassem com grande estardalhaço, achei que devia pedir a opinião do Janer sobre a crônica, porque o Janer tem uma cultura inigualável por estas plagas de cá do Atlântico. Isso também ocorreu em um começo de madrugada em que eu liguei pra ele e avisei: estou mandando pelo mail.
Claro que o Janer disse que havia um detalhezinho a ser revisto, e que conversaríamos pessoalmente sobre ele. Mas muito correto o páragrafo sobre Eliphas Levi. E achou boa a frase em que eu cito o dr. Ian Stevenson.
Mas...
Razão pela qual escrevo esta crônica.
Esta outra crônica. Após ter deletado aquela e trocado a HD do meu micro para que não fique nenhum vestígio daquilo. E me lembro de que a melhor coisa da padaria, de qualquer padaria, ainda é o pão quente das 18 h e o café expresso. Forte e sem açúcar. E um cigarro com gosto de baunilha depois. Tudo isso com um olhar vago para além do infinito e a boca fechada.