São Paulo, 03 de maio de 2008
Ce soir...
Algumas pessoas sabem o que cantam. Outras fazem exibições malabarísticas dos seus dotes vocais. Então poderiam cantar quaisquer frases dentro de uma melodia que o resultado seria o mesmo. Não estou falando, evidentemente, do que anda vendendo por aí, estou falando de música. Salvo duas ou três estações de rádio, não é mais possível percorrer as FM. O lixo se alojou nelas e, claro, na cabeça dos seus patrocinadores. Certa vez, me ocorreu que o preço de um CD gravado por um desses "cantores" deve ter um custo mais barato. Imaginei o seguinte: entra-se num estúdio, com bateria, piano elétrico, guitarra e alguma coisa que faz tom tom lá atrás, que é o contrabaixo, pra ser tocada uma melodia absolutamente primária. Lógico que isso se faz em uma hora. Aí, sim, caberia na minha cabeça o porquê de se gravar tanto lixo. Estaria justificado. Gravadoras e produtores economizariam muito. Conversando com o Theo de Barros, comentei isso com ele. O Theo é uma pessoa que passou a vida dentro de um estúdio, e conhece bem esses dados. Sua resposta foi: “...eu entro em um estúdio com uma orquestra para gravar, e o cara do estúdio ao lado, que vai gravar isso aí, passa horas afinando a bateria. No final ele fica mais tempo no estúdio do que eu”. Eu ia continuar a conversa, mas deixei de lado o assunto. Tragédia é tragédia, não se pode fazer nada a esse respeito.O Brasil teve, e tem, grandes cantores/as e grandes (poucos) intérpretes. Márcia, para quem se lembra, é uma delas: intérprete e cantora. Márcia canta com todos os erres e esses no lugar certo, e quando ela diz que ronda a cidade, ela ronda mesmo. Você vai junto, pela avenida São João, às três da madrugada. Maria Bethânia é outra brilhante intérprete. Ela consegue colocar emoção na voz até quando faz uma pausa e parece que a voz se calou para a pausa, mas não é verdade, a voz ainda está no ar. A emissão ainda ficou na nossa pele e nos nossos nervos. Poderia se dizer que Bethânia começou no teatro, daí a sua maneira de interpretar ter essa influência: a da dramaticidade do teatro. Mas não é assim que funciona. Marília Medalha foi atriz antes de ser cantora.
Não existe exatamente algo que delimite quais as fronteiras da arte que podem ser ultrapassadas. Mas elas podem. Borodin era um médico, já de renome internacional, e um estudioso de química, quando escreveu O Príncipe Igor e, diga-se de passagem, dedicava-se à música apenas nos finais de semana. Levou 18 anos compondo essa ópera que, com a sua morte, ficou inacabada, sendo depois terminada por Rimsky-Korsakov. Uma parte do Príncipe Igor ganhou imensa popularidade depois, e provavelmente Borodin jamais imaginou isso. O que eu quero dizer, é que mesmo aquilo que parece ser destinado à uma elite, não é. Porque é bom separar elite cultural de elite social. E a elite cultural está, cada vez mais, diminuída.
Interpretar uma canção é criar uma canção. Não é repetir vocalmente um amontoado de notas. Não, cantar não é recriar uma composição, mas sim criar uma forma de condução dessa canção. Por isso eu dei o exemplo de Borodin, cujo destino do Príncipe Igor, que ele jamais viu encenada, escapou-lhe.Todas essas coisas: arte, vida, etc, que às vezes pensamos compartimentadas, e que às vezes estão mesmo, não obedecem às regras simples que pretendemos, com a imprescindível ajuda do domínio da linguagem, impor-lhes.
Se o Brasil teve, e tem, cantoras que se esmeram em interpretar o que cantam, não tem o equivalente em vozes masculinas. Temos grandes cantores, e poucos intérpretes. Um deles é Cauby.
E nessa lacuna apareceu, numa noite diáfana de abril, — porque o adjetivo diáfana me parece apropriado para designar as noites de abril — o Fábio. Mais precisamente: Fábio Jorge.
Foi um único show no Teatro Crowne Plaza, anteriormente apresentado em um dos teatros da Praça Roosevelt, numa terça-feira. Chamou minha atenção o título: Sob o Céu de Paris. Porque alguém cantaria em francês e, sobretudo, manteria um repertório de canções francesas, não tão conhecidas atualmente? — Primeiro porque eu sou filho de franceses, e ficava com meu avô, ouvindo os discos que ele ouvia na hora do almoço, ele me disse depois do show, que eu tive o cuidado de fotografar. E o motivo número dois se perdeu no ar, porque não tem importância a razão pela qual as pessoas fazem as coisas, uma vez que estão sendo bem feitas. Além disso há músicas brasileiras no show, cantadas em francês. Uma delas, A noite do meu bem, composição de Dolores Duran, foi gravada em francês, pela Elis Regina.
Não sei se ele gravará um CD que vai vender, ou tocar no rádio, se ele irá para Paris cantar, ou se vai apenas continuar com seu seleto público. Isso nem é relevante. Borodin não sabia que O Príncipe Igor se tornaria Stranger in Paradise.
Por isso, não vou escrever uma crônica inteira falando sobre a voz desse homem que interpreta como poucos. Eu teria de ficar indefinidamente elogiando a maneira como ele sente todas as sílabas que canta, e elogios são eternas repetições da mesma coisa. Basta dizer aqui que seu nome é Fábio Jorge, que ele nasceu brilhando, mas com um brilho diferente do que aquele que o seu tempo conhece, e isso o faz incomum. Então basta frisar que ele sabe que um palco é um lugar onde se sobe para se deixar alguma coisa a mais do que uma canção. Que tem de ser impresso, em nós, expectadores, uma parte da sua alma, da sua teatralidade, que ficará cantando dentro de nós, quando nos movimentarmos pela rua, quando tomarmos um café quente pela manhã, quando a cidade rugir e suas metralhadoras dispararem, quando os temíveis amores se despedaçarem nas nossas madrugadas: e aí será nela, na canção, que nós vamos buscar um pouco do nosso sonho.
..elle s’en va à son tour chercher un peu de rêve dans un bal du faubourg...
(ela vai buscar um pouco de sonho em um baile do subúrbio - O Acordeonista)
Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco