São Paulo, 13 de setembro de 2004
Calcutá
Há uns dez anos, um editorial do jornal O Estado de São Paulo, ao comentar a sujeira da cidade, terminava assim “São Paulo tinha tudo para ser uma outra Nova York, mas vai virar uma segunda Calcutá”. Claro que há um enorme exagero nisso, se considerarmos que Calcutá não possui esgoto, que a lepra é o seu principal flagelo, que as pessoas dormem, comem, fazem suas necessidades e morrem no meio da rua. Não, não é como aqui. Em Calcutá, pouco antes de amanhecer, passa um caminhão da prefeitura, e em cima dele um funcionário vai cutucando quem está dormindo, para ver se está vivo ou não.Avenida Paulista, começo de inverno, onze e meia da manhã, Conjunto Nacional: dois atores, impecavelmente maquiados, estão parados depois do ponto do ônibus, como se fossem duas estátuas. E um cartaz ao lado deles: “com uma pequena contribuição as estátuas se movem”. Lá se vão 25 centavos.
Avenida Paulista, fim de expediente e começo de noite de inverno: uma fumaça branca no ar, além das já conhecidas fumaças negras dos escapamentos dos ônibus e carros. São os carrinhos de comida coreana, a míseros três reais, misturados a todos os outros, disponíveis ao longo da avenida. Me ocorre então que o coração financeiro do continente passa a ter um cheiro característico, coisa antes restrita a bairros menores e mais modestos.Não há como evitar o odor de peixe e legumes da rua José Paulino e das ruas da Liberdade. Com a diferença que na José Paulino, esse cheiro mistura-se ao lixo que está na rua, invariavelmente grande, uma vez que por ali também estão as confecções, além das lojas. Diferente da Liberdade, onde o cheiro de peixe vem com uma certa discrição assegurada pelo próprio local. E, na maioria das vezes, embelezado pelo pequeno jardim à frente do restaurante. Ou pela lanterna suspensa, ou pela lanterna de pedra.
A rua 25 de março e adjacências têm o cheiro do mundo em movimento. Um mundo que começa às 3 da madrugada e que às 16 horas já começa a se sentir cansado e com vontade de abaixar suas portas de aço. E o mundo em movimento possui odores, vozes, suores, lembranças. Mas ali, naquela região próxima ao centro velho, a cada dois passos há uma barraquinha vendendo água, refrigerantes e sucos, em um espaço duramente disputado com outras espécies de ambulantes.
Desnecessário dizer que o chão de todas essas ruas e também das que não citei, é um pequeno depósito de lixo a céu aberto. As populações flutuante e fixa da cidade, responsáveis pela sua alma multíplice e colorida, e pela sua profusão de ruídos, se por um lado reclamam, por outro são a parte mais central e ativa da movimentação gastronômica das ruas.
Não me passa pela cabeça olhar com desdém, porque tudo isso faz parte da minha cidade e da minha paisagem. Não adianta eu querer ser mais civilizada, com a falsa idéia de que civilização se mede pela aparência das cidades, que a digna e impecável Europa, com toda sua assepsia e bons modos comportamentais, produziu duas guerras mundiais. Para não falar, é claro, nas suas bósnias e sarajevos, e em seus milhões de colônias e protetorados espalhados pelo mundo, ainda no século 20. É só uma questão de conceituar civilização.
Então, o cheiro de peixe, o lixo amontoado em sacos pretos de papel, com resíduos espalhados à sua volta, faz parte da minha vida e do meu caminho. Quer eu esteja lá pelos lados da 25 de março, quer eu esteja na Paulista às seis da tarde.
Provavelmente não era isso que a pretensa Manhattan, ilhada no ponto mais alto da cidade desejava para si mesmo. Mas foi o que houve com ela. E as ruas e avenidas próximas, como a Brigadeiro, já davam sinais disso há muito.
Parece-me importante deixar que esse movimento continue, seja pela Paulista ou pela 25 de Março, porque o fluxo da vida se estende às cidades, às coisas, aos objetos, e é bom que eles tenham a nossa cara. Afinal, moralmente, estamos mais perto da pacífica Índia do que da belicosa Europa.