São Paulo, 11 de setembro de 2002



Botecos


Mécia Rodrigues


Quando eu era adolescente, do lado esquerdo da minha casa, a meio quarteirão, havia uma padaria, e do lado direito, também a meio quarteirão, o bar do seu Joaquim, um português tão típico como o seu nome. Então me acostumei a uma e outro.

Fui crescendo e amadurecendo, entre uma lanchonete e um barzinho modernoso, no bairro e quadrilátero modernosos da época mas, tendo como pano de fundo, do dia-a-dia, a padaria e o boteco.

Noite dessas, em que a temperatura desceu pra valer, lá fomos, eu e o Zeco Psitacídeo, andar pelos botecos da cidade.

Botecos. Cafeteira antiga, café de coador, banquinhos de fórmica no balcão e mesas de plástico. Geladeira de bebidas e sorvetes, o aquário de vidro aonde paga-se contas, pendura-se contas, compra-se cigarros. Os banquinhos sempre são meio apertados mesmo e o espaço entre eles pequenos demais, projetados para acomodarem mais gente, e sem nenhum conforto. Mas quem vai a um boteco, sobretudo quando ele está fechando, não está procurando conforto. E nem se incomodando com isso.

Existe neles, entre a cachaça e o café de madrugadas frias, qualquer coisa de familiar. Conforto, não. Mas, aconchego. É o reverso dos bares badalados dos Jardins, Itaim e circunvizinhanças, aonde você entra, o garçom diz boa-noite, puxa a cadeira e estende o cardápio. Mas nesses lugares vai-se por outros motivos, raramente por afinidades eletivas ou afetivas.

Na rua Maria Antonia, lá está o bar do Zé, e lá está o seu Zé, sorrindo e apertando a mão dos fregueses que ele já conhece, perguntando dos ausentes, lamentando os que partiram, alegrando-se com as novidades, ouvindo histórias e contando tantas outras, porque histórias na rua Maria Antonia não faltam nunca.

Descendo a Frei Caneca, o bar do Adão, que igualmente, vem e estende a mão aos amigos, puxa a cadeira pra gente sentar, acende o nosso cigarro e pergunta pela família.

E ambos enchem-se de estudantes, pinguços, namorados, executivos, às vezes menininhas bregas. Ambos —tão diferentes na aparência— têm os seus respectivos engraxates com a caixa no ombro, garimpando alguém que use sapatos, nessa terra de tênis. E, claro, os seus freqüentadores habituais.

No Itaim, espremido entre os bares da moda e os prédios, está o Botequim do Hugo, que pertenceu ao pai dele. É um lugar que, com toda certeza, já foi um armazém. E que ainda hoje conserva as características físicas de um armazém, como o lugar aonde se colocavam os grãos. Ainda há o baleiro, ainda vende-se pentes, e para completar, o Hugo é um colecionador de tudo que se possa imaginar. Nas prateleiras, há toda sorte de coisas guardadas ao longo dos anos, ou compradas de um ferro-velho qualquer. Como por exemplo, a roda de orações tibetana. O pastel servido lá é delicioso, receita de nossos avós, com absoluta certeza. E não adianta querer que seja rápido. Demora mesmo. Os mais assíduos manejam o toca-disco e os bolachões, sem nenhum problema.

A iluminação é fosca, duas lâmpadas garantem uma semi-penumbra que, aliada ao som, às vezes cheio de chiados, que vem do toca-discos, dão um ar antigo ao lugar, uma fotografia amarelada dos anos 50, uma moldura de filme noir, conversas à meia-voz, gente debruçada nos balcões. E o tempo pára por completo, joga-se conversa fora, fala-se e abraça-se com camaradagem, os grandes amigos que se vêem todos os começos de noite.

Depois, ganha-se a rua de novo, e a cidade volta a ser cidade, com suas ciladas e armadilhas, suas desconfianças e rapidez. Mas, a grande ressalva é que a cidade acontece lenta e terna, também, dentro dos botecos. Engana-se quem pensa que cidades são recortes de natureza em cartões-postais, ou quem só vê beleza e prazer em mar e montanha. Cidades, pelo que contém, são a nossa extensão e natureza. Caso contrário, aqui não estaríamos.

Nem iríamos aos nossos botequins. Os lugares aonde o tempo, pela familiaridade, é mais complacente com nossas falhas e equívocos, e aonde parecemos os mesmos garotões e adolescentes que penduravam a coca-cola e o chocolate na conta do pai.

Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco