São Paulo, 09 de fevereiro de 2004

 



Boa-tarde às coisas aqui embaixo


Mécia Rodrigues


Abro o Caderno 2 do Estado de São Paulo, no dia 25 de janeiro, aniversário de São Paulo e de presente ganho uma foto dos olhos azuis de António Lobo Antunes, olhando para um ponto além daqui, além de nós, além das lentes de quem o fotografou. Essa sempre foi a sua melhor e mais clara identidade. E, de fato, ele está um pouco além.

O primeiro livro que li dele foi Os Cus de Judas, obra que ele nem acha lá essas coisas. Mas eu fiquei, digamos, petrificada. Um ano depois da primeira leitura, eu sabia trechos inteiros de cor. Durante dez anos ele esteve comigo, à minha mesa de cabeceira, ao lado da minha cama, onde quer que minha cama se situasse. Hotéis, ônibus noturnos para Brasília, uma casa no outono de Porto Alegre, um trem em Buenos Aires, um bangalô nas montanhas da Índia. E a cada releitura, havia alguma coisa a ser anotada, alguma coisa que conversava com um ponto distante de mim mesma, um ponto que hoje ainda não sei qual é. E se sei, escuso-me de nomeá-lo apenas para que na sua obscuridade ele permaneça tão receptivo, e alheio a mim, quanto sempre foi.

Nem sempre tudo deve vir à tona e estabelecer relações cordiais com a nossa má domesticada consciência.

Tive isso com outros escritores. Tchekhov, Burroughs, o teatro de Dürrenmatt que exerceu, e ainda excerce, sobre mim, um fascínio inacreditável, Osman Lins, Erico Veríssimo.

Quando a Marco Zero publicou aqui no Brasil Os Cus de Judas, Saramago começava a fazer um sucesso enorme no Brasil e Lobo Antunes ainda era pouco conhecido. Ainda é pouco conhecido e lido, melhor dizendo. Saramago sempre esteve mais alinhado ao pensamento e exigências literárias dos cadernos de culturas dos jornais, e às suas posições políticas avançadas: ou seja, de esquerda. E na Europa a coisa não é diferente daqui. Eles acham o comunismo o máximo, desde que em países da América Latina, do outro lado do oceano, como muito bem observou o Janer Cristaldo.

Além disso, o furor com que Saramago foi recebido em detrimento de Lobo Antunes, deve-se também ao seu chatíssimo texto, cheio de adjetivos e comentários do narrador, mais próximo ao academicismo que não consegue alçar vôo para além de Graciliano & Drummond & Machado. Muito de vez em quando, um desses senhores das universidades, lêem um livro, ou mesmo trechos, de Erico Veríssimo e Osman Lins. Campos de Carvalho nem pensar. Alcântara Machado? Ora, direis...

E a literatura para os acadêmicos, é alguma coisa compartimentada, com leis e regras imutáveis. Tanto que eles mesmo denominam algumas matérias das suas universidades de "ciências".

Se há um lugar capaz de destruir qualquer vocação literária é uma universidade de letras.

Não seria então Lobo Antunes, seu rebuscado e complexo texto, que iria entrar pela porta da frente do Brasil, sob o beneplácito dos segundos cadernos. Então falou-se mal dos seus livros. Não entres tão depressa nesta noite escura gerou alguns comentários levianos e irascíveis.

Literatura é texto. Conteúdo faz parte de ética, religião, filosofia, etc. Literatura é primeiramente o texto em si. O resto vem depois.

E Lobo Antunes sabe disso. Tanto que na entrevista do dia 25 diz:

"Assim, inventei uma Angola. O país certamente sofreu muitas modificações com a guerra civil, mas isso não me interessa e sim o trabalho com a escrita. Muito mais que a intriga. Em nenhum momento me preocupei com questões sociológicas ou antropológicas pois tinha de resolver os problemas técnicos provocados pela escrita"

Ele passa o dia inteiro escrevendo. Dia após dia. Da hora que acorda à hora que deita. Natural que houvesse atingido uma outra música, uma outra grafia de melodias, expressa por uma outra voz. Criar uma voz, é diferente de criar um estilo. Estilo até pode ser copiado, ou pode-se, ao menos, tentar copiá-lo. Vozes não.

A obra de António tem um fôlego só. A pontuação, ou a falta dela às vezes, empurra os nossos olhos para a frase e o parágrafo seguinte. Não é experimental. Nada nele é experimental. Aliás, tenho pavor desse termo. O mais básico texto chamado de experimentalismo pressupõe um longo estudo. Imagino que chegou uma hora em que ele começou a criar essa original pulsação, e isso deve ter demorado muito. Porque uma coisa é clara nos seus livros: nada foi feito ao acaso.

Essa devoção e amor à palavra, fizeram dele o escritor de língua portuguesa mais importante do século XX. Mas só o final do século XXI vai saber disso.


(Leitura recomendada: Conversas com Lobo Antunes. Maria Luísa Blanco, Edições Dom Quixote, Lisboa, 2002.

 

Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco