São Paulo, 08 de abril de 2007

As forças nem tão armadas




Mécia Rodrigues

 



Pondo os pés nos ares brasileiros, figurativamente falando, vindo da visita que fez a Bush, se contradizendo mais uma vez, o presidente deste país de cores em excesso, na definição poética de Cassiano Ricardo, disse: “não negocio com a faca no pescoço”. Já havia negociado e nem foi preciso uma faca tão afiada assim.

A crise dos aeroportos já tinha seus longos meses. Os controladores de vôo queriam aumento, é claro, pra começar, a desmilitarização da profissão para continuar, e uma outra meia dúzia de coisas. Acostumado a parar a Avenida Paulista prejudicando não o trânsito de burgueses, porque os atuais habitantes dos burgos estavam em casa tomando chá, mas sim o dos trabalhadores, e aí coloque-se ambulâncias paradas com doentes dentro e um óbito registrado, intimamente, o Presidente deve ter achado uma maravilha a “tomada de consciência” dos sargentos que desafiaram seus superiores, bateram o pé e disseram: “não fazemos mais nada. Quem está no céu desce, mas quem está na terra não sobe”.

E como ele cedeu rápido demais em tudo, talvez lembrando-se dos seus tempos de grevista profissional no ABC, quando demorava a chegar “uma pequena ajuda” da Volkswagen, que comemorava o fato da fábrica brasileira estar em greve porque as vendas da alemã aumentavam ao ponto de exportarem carros para a Argentina, imediatamente disse sim. Sim, sargentos, aquartelem-se. Eu, presidente do Brasil, vou desmilitarizar essa joça.

Acontece que a joça, na mão de militares ou civis, tanto faz, sempre terá uma hierarquia. Alguém vai dar ordens e um outro alguém vai ter de cumpri-las. Se o alguém que dá ordens estará ou não fardado e se seu nome será Major Roberto ou Sr. Moraes, pode parecer irrelevante no todo. Com uma sutil diferença: o Sr. Moraes nada deverá entender de estratégia militar, e já o Major Roberto...

Desmilitarizar a torre de comando do aeroporto do Galeão e de Guarulhos não é exatamente a mesma coisa que passar a indústria da química fina para a mão da iniciativa privada. E falando nela, a Associação Brasileira das Indústrias de Química Fina, Biotecnologia e suas Especialidades, a Abifina, projetou o ano de 2006 como péssimo, sobretudo em função da política de juros altos. Mas, voltando: uma rebelião de militares que colocou em xeque a autoridade do próprio comandante da Aeronáutica, Juniti Saito, poderá se transformar amanhã ou depois, em uma rebelião de petistas, ligados ou não ao governo, que colocará em xeque a maneira como se governa um país.

Como não há crise que se inicie do nada, sem sintomáticos antecedentes, há que se dizer que frente a elas Fernando Henrique foi extremamente benévolo — ele também com uma faca enferrujada no pescoço — com as invasões do Sem-Terra. E isso abriu um precedente e tanto na história. Então os sargentos, se não sabiam, imaginavam que Lula ficaria do lado deles. Já que estavam apenas repetindo o que fez o ex-metalúrgico-aposentado-por-invalidez durante décadas.

Enquanto isso Noam Chomsky, o celebre ícone vivo das esquerdas, professor de lingüística da Massachusetts Institute of Technology, de Boston, criticou duramente o governo Lula, dizendo que “tudo que ele fez foi pagar banqueiros”. As esquerdas brasileiras ligadas ao PT, vertentes do maoísmo, do stalinismo, do castrismo, fingiram que não leram nada. Admitir que a política monetária serve para pagar banqueiros, como fez Noam Chomsky, é admitir que suas vidas estiveram pautadas por um enorme engodo e que sua (deles) capacidade de discernimento é nenhuma. E isso ninguém suporta com tranquilidade.

 


 

Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco