São Paulo, 05 de abril de 2011

 



A rua das lanternas brancas e portais vermelhos



Mécia Rodrigues

 

Então eu mudei. Troquei um bairro que já foi aristocrático por um bem mais simples, porém mais cheio de memória, de história. Troquei as janelas do terceiro andar, que davam para a avenida, pelas do nono que mostram a cidade bem maior, mais cheia de luzes e talvez mais complexa.


O começo da história de São Paulo passa por aqui. Em 1640, aquela avenida lá em cima, se chamava Caminho do Carro — se referindo a carro de bois, obviamente — e aquela rua lá embaixo, paralela à avenida e também cheia de lanternas, se chamava Caminho do Mar, também conhecido como Estrada de Santos. E, ligando uma à outra, a rua dos Estudantes e nela uma pequena rua sem saída que se chama Beco dos Aflitos. Onde fica a capela dos Aflitos. Ali, um dia foi um cemitério. E no final dela, onde está a pequena capela, era a entrada dele. Esse cemitério foi criado para que nele ficassem os corpos dos pobres, dos escravos, dos criminosos e condenados. Pois ali perto, onde hoje é a Estação de Metrô, ficava a Forca. Querendo evitar qualquer comoção nos enforcamentos, que eram públicos, os corpos eram rapidamente levados para o Cemitério dos Aflitos. Ele existiu até meados do século 19, quando então foi construído o Cemitério da Consolação. Com a sua construção, o dos Aflitos foi fechado, e o terreno loteado. Creio que as ossadas nunca foram retiradas, porque na época da construção do metrô, achou-se muitas ali. A capela abriga também o culto ao soldado Chagas, enforcado no Largo da Forca. Que merece uma crônica à parte, uma vez que história e lenda estão entrelaçadas. E diz a lenda que nas manhãs de chuva, pode-se ouvir o barulho das suas botas andando pelas ruas.

Havia também, entre as ruas Humaitá e Pitangui, o Matadouro Municipal. E na rua dos Estudantes, várias repúblicas de estudantes, sobretudo quando se criou a Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Acho que para manter a tradição o bairro é cheio de faculdades e cursinhos pré-vestibulares. Os toriis foram levantados, as lanternas acesas, os templos consagrados, e o comércio, dando vida ao bairro, se multiplicou e tornou-o mais alegre.

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Eu me mudei para cá. Embalei livros e CDs, e agora estou desembalando-os. Cuidadosamente. Porque neles, em suas páginas, está a minha história. Minhas mudanças, minhas cidades, meus insucessos, minha adolescência. Eles são o meu mais confiável diário, porque sua escrita, sua pontuação, mudam conforme eu manuseio-os, limpo-os ou simplesmente arrumo-os nas estantes.Neles leio a minha história desconhecida, que estava soterrada e quase danificada pelo polônio assassino do meu cigarro, digamos. Eu a redescubro agora, com outras fontes, outras tintas, outras gramaturas de papel, outra respiração. E como história e lenda se misturam, eu me pergunto o que, de fato, já aconteceu, e o que é um relato do futuro?

E tenho certeza de que nas manhãs chuvosas de abril vou andar por aqui, ouvindo pelas calçadas o barulho das botas do soldado Chagas.




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