São Paulo, 07 de agosto de 2006
O caso Araceli
Isso foi na década de 70, que passou por três diferentes presidentes-ditadores: Médici, Geisel, e Figueiredo. Nos Tribunais, o caso atravessou a década de 80, chegou ao começo dos anos 90, e pegou os populares presidentes eleitos pelo povo.
No bem-feito e irretocável documentário de Tatiana Beling, há quem encha a boca para dizer: “era na época da Ditadura, a gente não podia fazer nada, era tudo censurado”.
Vale lembrar que no ano em que Araceli foi morta, também foi morta em Brasília, a adolescente Ana Lídia, em uma festa onde também rolou muita droga. Um dos participantes da festa, e principal suspeito do crime, era o filho do Ministro da Justiça, Armando Falcão. Poucos dias depois ele saiu do país, em direção aos Estados Unidos. Armando Falcão tirou o filho do Brasil, é claro. Qual a razão de Armando Falcão garantir impunidade total aos assassinos de Araceli e não ao próprio filho? Um outro dado é que o caso Ana Lídia não foi censurado.
Em 1977, o bilionário Michel Frank, drogou, espancou, estuprou e assassinou Cláudia Lessin Rodrigues, no seu apartamento no Rio de Janeiro. Como tinha dupla nacionalidade, refugiou-se na Suíça, logo após ter sua prisão preventiva decretada. Mas nada sobre o crime foi censurado.
No mesmo ano, Vladimir Herzog foi assassinado no DOI-CODI, em São Paulo. Disse a Ditadura que ele havia se suicidado, e a sua foto saiu em todos os jornais.
Quem seriam então os assassinos de Araceli, mais ricos do que a família de Michel Frank, mais poderosos do que o temível ministro Armando Falcão, ao ponto de impedirem as investigações?
As “viúvas da ditadura” responsabilizam-na — a ela, ditadura — por tudo que de errado possa ter havido na década de 70 e no começo dos anos 80. Desde a censura que “mutilou toda uma geração”, até a ocultação de provas de um crime comum. Isso quando ela mesma, Ditadura, não conseguiu ocultar um crime político, caso de Herzog.
O tempo passou e veio o caso da Escola de Base da capital paulista. O dono da escola foi acusado de abuso sexual por um aluno. O menino foi levado ao IML, e a perita que assinou o laudo disse que havia em seu ânus um corte de x milíímetros. O que não significa abuso sexual, claro. Significa apenas que havia um pequeno corte. O detalhe sórdido é que ele foi levado ao IML vinte dias após o suposto fato ter acontecido. A Imprensa caiu em cima da Escola de Base, o delegado indiciou os donos, a sede foi depredada, todos os alunos foram tirados do escola, que veio a falir, o dono e sua família tiveram de mudar rapidinho de casa. E era tudo mentira.
Para qualquer ser humano que consiga dar um nó no tênis, e girar uma chave na fechadura, parece bastante óbvio que uma criança estuprada, repito: c-r-i-a-n-ç-a, teria ficado muito machucada na hora, e não vinte dias depois. Se um simples supositório já poderia ter causado alguma dor, imagine um pênis.
Mas parece que ninguém parou para pensar nisso. Nem a família do menino, nem o primeiro delegado que atendeu o caso, — depois destituído — e nem a imprensa que fez o irresponsável estardalhaço de sempre.
Voltando à Araceli. No final dos anos 70 eu era correspondente da DPA (Agência Noticiosa Alemã) e vivia gravando entrevistas com o então cardeal de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns, sobre as torturas as quais eram submetidos os presos políticos. Entrevistas essas que, na sua grande maioria, não eram acompanhadas pela imprensa brasileira, até porque os jornais não publicariam. Só os correspondentes estrangeiros eram convidados. Eu era a única aqui nascida e, eventualmente, aparecia uma outra brasileira que trabalhava na BBC de Londres. A repercussão de tais entrevistas era tão grande e espetaculosa que na França dizia-se que os presos políticos, no Brasil, eram torturados em praça pública. Falar dos presos políticos, gritar pelos seus direitos, dava um prestígio enorme no exterior, sobretudo quando se pensava no espetáculo da "torturas públicas".. Até que um dia, eu perguntei ao então Cardeal o que fazia a Comissão de Direitos Humanos pelos presos comuns, pelos crimes comuns. O que fez a Comissão de Direitos Humanos no caso de Araceli? Um silêncio tumular pairou sobre a sala da Cúria Metropolitana de São Paulo e, meu então chefe, Horst Heinz Grimm, diretor da D.P.A na América Latina, me deu uma piscada, quando começou D. Paulo a tropeçar e balbuciar no seu magnífico alemão para justificar o que a referida Comissão jamais fez pelos presos comuns.
Araceli não interessava à imprensa estrangeira. Araceli não era um caso político. Caso fosse, a “turma dos Direitos Humanos”, não teria perdido a oportunidade de se promover lá fora.
Se por um lado a imprensa tem uma enorme responsabilidade na divulgação dos fatos, por outro lado quem a lê tem igual responsabilidade ao lhe dar crédito, sem parar para pensar, ou dela exigir uma melhor razoabilidade e coerência. Isso se chama bom-senso e, creio eu, é inato. Ou não.