São Paulo, 06 de outubro de 2003

 

Saudade de Ana Cristina


Mécia Rodrigues


Dizia Ana Cristina César, em meio à sua ostensiva ternura e talento, que a sua poesia era extremamente trabalhosa. Uma prosa poética intimista, em forma de diários, cartas mandadas às amigas, que ela trabalhava à exaustão. Não parecia ser tão trabalhosa assim e nisso reside o segredo da sua magia e encanto. A explicação, ou melhor, a explanação que ela deu em um depoimento ao MIS, aqui em São Paulo, creio que em 1981, contando como concebeu, criou e deu vida aos seus diários e cartas, mais me pareceu uma das suas poesias, do que um documento oral para a posteridade. Nesse depoimento Ana C. conta como começou a escrever e o trabalho enorme que era escrever o que parecia - e poderia ser - uma simples carta. Uma simples página de diário.

Ana C. mexeu com a cabeça de todo mundo que começou a escrever no fim da década de 70 e no começo da década de 80. Rigorosa e límpida, enlouquecida de tanto se debruçar sobre os "cadernos terapêuticos", como ela os chamava, Ana criou o que tantos há tanto tempo tantos tentavam. Foi uma rasteira nos beats. Porque Ana C. escrevia e ponto. Visceralmente. Não estava apoiada em nenhuma transgressão social.

Já o movimento beat teve uma importância muito mais social do que literária. O seu significado literário foi mínimo, e reduzido a bem menos nomes do que os por aí decantados. Atrelou Burroghs, que eles insistiam em denominar beat. Burroughs negava enfaticamente. Ele era amigo dos caras, mas só isso. Gostava de Ginsberg e considerava Uivo um soco na cara da moral americana. Mas fez questão de dissociar a sua escrita da escrita de todos eles. Não adiantou nada: continuou com o nome vinculado a eles. E, ressalva a ser feita: o melhor deles todos, Gary Snider, acabou sendo o menos lido e conhecido por aqui. O que é uma injustiça. Cortázar fala da sua poesia em um dos textos do El Último Round, também não traduzido aqui. Creio que o único livro de Cortázar que não existe tradução no Brasil.

William Burroughs era denso, extremamente culto e nada panfletário. Passou pela contracultura americana como um personagem, pra fazer uma ruidosa visita, e não permaneceu mais do que o tempo de tomar um café e fumar um cigarro. E nem de longe filiava-se à ela. A contracultura pós-beats, continuou com seus herdeiros, os mais expressivos e conhecidos: John Fante e Bukowski, mas sempre com seu significado de contracultura mesmo, muito pouco valorada como literatura. Hakim Bey é uma outra coisa e merece uma crônica à parte.

Como a literatura beat ainda não passou pelas mãos de competentes taxiólogos, o que se tem dela é um amontoado de biografias de seus associados, sempre sob a ótica particular, que fazem absoluta questão de ter Burroughs entre os seus afiliados. Como por exemplo, Timothy Leary. Que era louco de carteirinha, mas que a chamada contracultura adotou-o como exemplo de transgressão. O "transgressivo" Timothy perdeu a sua licença de clinicar depois de haver ministrado a pacientes que cumpriam pena nos Estados Unidos doses de LSD, como experiência. Claro que as cobaias não sabiam o que estava se passando e menos ainda o que estavam tomando. Mas quem ia se incomodar com os fora-da-lei? E de mais a mais, como Timothy comprou a briga pela fabricação do LSD, foi visto como um contracultor, digamos.

A turma da música, sempre esteve ligada à literatura. Foi em homenagem a Dylan Thomas que Robert Zimermman adotou o nome de Bob Dylan. A turma das histórias em quadrinhos também sempre esteve ligada à literatura. Erik Larsen, o roteirista do Wolwerine, quando define o perfil de Smith, o homem que comanda um bando de sujeitos rudes e selvagens, no Canadá, coloca em suas mãos um livro de William Blake e o seu mais famoso poema: O Tigre.

As drogas foram um tremendo erro. Burroughs sabia disso, na pele, e saiu em busca de tratamento, fora dos USA. Quando conseguiu se livrar da heroína, vinte anos depois, no Marrocos, começou um dos mais veementes discursos contra elas, as drogas, e um discurso político aonde acusava todos os governos do mundo de ganhar dinheiro com os viciados. O que não é nem de longe mentira. Paralelo a isso, sentou-se e desenvolveu a sua escrita, metódica e tenaz, muito pouco preocupado com o que se passava no distante mundo da contracultura. A fragmentação do pensamento, que foi transposta para a literatura, não veio do nada. Burroughs era um intelectual na acepção da palavra.

O que eu quero dizer e talvez esteja dando voltas demais, é que o cut-up de Burroughs, e mesmo a sua narrativa linear, e a poesia de Ana Cristina, não eram meras inspirações ao acaso, jogadas sobre o papel, em momentos esparsos das suas vidas. Ambos tinham método e incontáveis horas de trabalho sobre eles. Mesmo que as suas vidas tenham sido mais eletrizantes do que aquilo que escreveram, não justificariam o interesse pela sua escrita, caso essa não fosse de primeira qualidade.

E que na esteira da linguagem intimista de Ana C. há um enorme número de blogs por aí. Resta saber qual deles vai se tornar um bom livro.

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Bibliografia sobre William Burroughs: 1. Literary Outlaw: Life & Times of William S. Burroughs - Avon, 1987 autor: Ted Morgan. (esgotado) 2. The Job - autor: Daniel Odier (este é uma série de entrevistas de Burroughs que o seu autor fez com ele). Do The Job, publicado pela primeira vez na França em 1969, há varias edições em várias línguas.


 

Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco