São Paulo, 01 de janeiro de 2009

 


 

A moça ruiva de Ilhabela



Mécia Rodrigues

 

 

A moça ruiva e magra, tomando um café no banco ao lado do meu, me conta que agora Ilhabela cobra dos turistas uma taxa de preservação ambiental, e é nisso que ela trabalha. Não estou fazendo turismo e nem gosto da Ilhabela. Enquanto fala, ela olha, com a cabeça meio torta, meu caderno de anotações e os jornais espalhados na mesa. Fica visivelmente impressionada com a foto de um deles. Penso que ela é uma pessoa que nunca viu essas coisas, que deve trabalhar para completar o orçamento, e que quando terminar o seu dia de trabalho, vai tomar um longo banho de mar. Mais tarde vou encontrá-la de novo, na Vila, que é como chamam o centro da Ilhabela, e vou saber que não é bem assim. Antes de eu ir embora ela ainda me pede para que eu traduza a legenda da foto. Conto a ela, resumidamente, a história da reportagem.

Em junho de 2008 o jornal Washintgon Times publicou uma matéria sobre mulheres paquistanesas, vítimas da honra. A história de Naeema Bibi, bem como sua foto, é aterradora. Quando ela pediu o divórcio, seu marido jogou-lhe ácido sulfúrico no rosto, desfigurando-a e cegando-a. Depois fugiu e nunca foi preso. Isso se passou em um país muçulmano, onde as mulheres são tratadas como cidadãs de segunda classe e onde raras leis as protegem. Sobretudo aquelas, que como Naeema, vêem de uma zona rural e de uma classe social mais baixa. Enquanto escrevo esta crônica o Paquistão relembra um ano da morte da premier Benazir Bhutto, única mulher a comandar um estado islâmico. Mas, Benazir vinha de uma família de políticos, e entre ela e Naeeme havia um enorme abismo, profundo, desconhecido e intransponível.

(estudiosos do Islã afirmam que o que vigora no Paquistão são os costumes e não a religião, e que a religião pouco tem a ver com esse tipo de brutalidade. Por outro lado pode-se observar, que o que vigora politicamente — parece que em boa parte do mundo — também são os clãs familiares. É o caso da Índia, onde Indira sucedeu ao pai, Nehru, e depois seus filhos a ela, dois deles assassinados e, finalmente, a mulher de um deles, uma italiana, tornou-se a primeira-ministra indiana. Ou seja: aquilo que rege, exterior ou interiormente, uma sociedade, veio dos hábitos do seu clã. Que por sua vez, formou-se através do culto aos seus deuses.)

Se a história de Naeema ocorresse aqui no Brasil, o que teria acontecido? Provavelmente nada. Até porque ela já aconteceu. Com outro nome, cidade e circunstância. Aconteceu em Minas Gerais, no meio dos anos 80, quando Paulo Brossard era ministro da Justiça. Ao romper um namoro, uma moça, ouviu o seguinte do seu namorado: eu vou queimar você. Ato contínuo, ele jogou-lhe álcool pelo corpo e pôs fogo. Os jornais do Brasil inteiro fizeram um barulhão, e o caso foi parar nas páginas da imprensa estrangeira. Mas o rapaz continuou solto. Ele era réu primário, tinha emprego, residência fixa e bons antecedentes. O tratamento dessa moça foi custeado pelo ex-piloto austríaco de fórmula 1, o campeão mundial Nikki Lauda, que leu sua história. Nikki, vítima de um acidente automobilístico que deixou-o muito queimado, compadeceu-se do caso. Quando a moça conseguiu levantar da cama, um ano depois do crime, foi pessoalmente falar com o então Ministro Paulo Brossard e dele cobrar uma explicação do porquê do seu ex-namorado continuar solto. Constrangido pela imprensa e pela repercussão internacional do fato, Brossard deve ter dado um telefonema para um juiz qualquer em Minas que manteve o rapaz preso por uns seis meses, se tanto. E nunca mais se falou no assunto.

Paquistão ou Brasil, islâmico ou católico, a diferença é nenhuma. A falta da justiça em todos esses casos, paquistaneses e brasileiros, conta, além do próprio criminoso, com uma legião de pessoas, que por má-vontade, omissão, inércia ou indolência, prefere placidamente observar um pacto social despedaçado e desfigurado, sem a menor representatividade. E, querem saber? Não somos cidadãos. Somos o delicado gado marcado a ferro e tangido a esquecimento. Juízes não lêem processos. Para quê mesmo eles leriam? Por qual motivo, iriam perder dez minutos do seu dia abrindo aquela pasta ali, em cima da sua mesa, uma vez que seu salário está garantido? Que se dane quem, por infelicidade, precisar dessa coisa diáfana e inidentificável chamada "justiça"....


A moça ruiva ouviu a história de Naeema atenta e desoladamente.

 

Ela acha que a dela não tem importância perto desse horror todo. E a dela é uma das tantas que nós, — eu nos acuso — esquecemos de ouvir e se, porventura ouvimos, calamo-nos. Ela tem quatro filhos. Uma delas, a menina Luara, tem 8 para nove anos. O pai da menina, de nome Claudemir, que só paga, quando paga, é claro, a pensão da menina, foi obrigado a isso. Não que ele queira. E desde junho de 2008 que não paga coisa nenhuma. Em outubro, a moça ruiva, que sustenta quatro filhos, entrou com um pedido de prisão, tendo como patrono um advogado gratuito da OAB.

Faz dois meses e meio isso.

A citação está em algum lugar misterioso da Ilhabela, por alguma misteriosa razão. Nas mãos do pai da menina, seguramente não foi parar. Ela me conta que a Oficial de Justiça de nome Eliane a tem em mãos.

Vamos fazer uma pausa e contar quantas pessoas estão envolvidas nessa história sórdida e ficam de braços cruzados. O juiz? O oficial de justiça? ? O advogado da OAB? O pai da menina? Alguém que, eventualmente, o proteja? Sim, porque cidadãos dessa categoria, sempre acabam encontrando quem os proteja dos suaves, e indolores braços da lei.

É possível que num vilarejo perdido no meio do mar, com menos de quinze mil habitantes, esse cidadão, com a prisão decretada, não seja encontrado? Qual é o motivo, desconhecido e impenetrável à razão de qualquer pessoa digna, que um conjunto de seres, à primeira vista , linearmente preparados para fazer com que a lei seja cumprida, possa encobrir uma situação infame dessas?

O país que elegeu, por duas vezes, um presidente, cuja primeira providência no primeiro mandato, foi mexer no salário dos aposentados e assim derrubar um dos pilares — o direito adquirido — que sustenta uma democracia, não poderia mesmo ter nenhum Rui Barbosa ou Joaquim Nabuco contemporâneo como juiz e/ou oficial de justiça.

Mesmo porque os atuais juízes sequer desconfiam quem foram Rui Barbosa e Joaquim Nabuco.

Nós somos mesmo o delicado gado tangido a ferro e marcado a esquecimento. É dessa maneira que começam as histórias de todas as Naeemas. Sejam elas paquistanesas ou brasileiras.


 



Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco