São Paulo, 11 de março de 2008
A moça do sonho
"súbito me encantou a moça em contraluz/
arrisquei perguntar: quem és?"
Edu Lobo - Chico BuarqueO Rio é assim: a zona norte, os antigos bairros do centro, onde às vezes as ruas são estreitas e as copas das árvores, de um e do outro lado da calçada se encontram, projetando no chão as sombras das canções que vagueiam por ali.
E nessas ruas a gente vê, com maior sossego, a arquitetura das casas antigas, aquela que foi trazida de Lisboa com a família imperial, quando Napoleão já punha abaixo todo barroco na Europa, e aqui sobreviveu, misturada à outros estilos.
Por isso o Rio é sempre uma canção de Edu Lobo que diz: “há de haver algum lugar, um confuso casarão,...um lugar deve existir, uma espécie de bazar, onde os sonhos extraviados vão parar....entre escadas que fogem dos pés...” Porque mais que tudo, a zona norte é uma canção de Edu. E como nas canções do Edu, o andamento é lento e a letra é lírica. E vai ter um pé de pitanga em alguma casa, de uma vila, que termina em uma escadaria cheia de mistérios. Com os números das casas ainda em algarismos romanos.
Mas não se enganem: há a zona sul, do outro lado. A zona sul dos prédios da década de 50, e aí o Rio é Copacabana. O Rio da zona sul, sempre foi Copacabana. A feirinha da noite, os turistas andando no calçadão, os castelos de areia, as barracas de hot-dog, a brisa marinha colada à roupa, colada à roupa, colada à uma outra vida que inventamos para nós quando estamos ali.
E essa outra vida vai se eternizar, de repente, e se fixar, como um cartão-postal. E vai brilhar, porque Copacabana, a despeito de tudo que se diga dela, e dela muito mal se fala, ainda brilha, e muito.
E o Rio também é Santa Tereza, de tantos perigos e bondinhos, as escadarias que vão-e-vem, os sussurros, as curvas e os mistérios que os faróis dos carros iluminam, a estação do Curvelo e suas luzes amarelas. Lenta, como a canção de Edu: “...e relógios que rodam pra trás....”. O seu Getúlio, que faz réplicas em lata do bondinho, e que já exporta seus trabalhos para São Paulo, para a Vila Madalena.
Lá em cima, em uma determinada curva, existe uma das paisagens mais lindas que eu registrei: é onde se vê o prédio da Central do Brasil todo iluminado, lá embaixo. O Rio é isso, não se enganem: o morro está ali ao lado, a praça ali embaixo, e por isso, do morro vêm as abelhas que esvoaçam em torno das latas de refrigerante que a gente esquece no banco da praça, porque é preciso esquecer e olhar para o alto.
O Rio é um restaurante do século passado que tem o melhor risoto de camarão da cidade, onde os garçons circulam solícitos, e do outro lado do vidro da janela está a praia. Os velhos barcos com os cascos pintados de azul adormecidos sobre garrafas de náufragos.
O Rio é a imponência da Candelária, a avenida Oswaldo Cruz no Flamengo, as Linhas que cortam a cidade, os túneis e, claro, o risco de se estar ali e não se estar mais no minuto seguinte. Mas isso não faz sentido quando se está lá. A violência parece de papel, e parece que só existe nas notícias de todos os dias, quando nos dão conta de que a cidade é outra. Mas isso nós sempre nos recusamos a ver. Afinal, estamos ali, eu estou, eu estava ali, naquela casa daquela vila, onde eu sentava na varanda e, nas tardes de muito calor, ligava a mangueira em cima de mim e, molhada, acendia um cigarro e tinha absoluta certeza: estava no Rio mesmo.
O Rio de João do Rio, de Lima Barreto, do Cosme Velho, do Jardim Botânico, de Machado, de João Antônio e de Villa Lobos. o Rio de Edu, de todas as canções de Edu. Do mar que se agiganta numa incompreensível grafia, numa língua arcaica de taifeiros bêbados e cansados, onde os sonhos extraviados vão parar.
(Esta crônica foi escrita para a Fátima e o César que tiveram o inenarrável prazer de me hospedar no Rio e hoje morrem de saudade da minha estadia por lá. )