São Paulo, 03 de junho de 2008


Ainda uma vez, com emoção



Mécia Rodrigues

 

 

Ralph era um siamês com enigmáticos e confiáveis olhos azuis. Ele não era meu exatamente, a não ser pelo fato de haver me escolhido como sua. Era de um amigo que morava numa casa antiga, de portão baixo, como se não existissem assaltos nem crimes, numa rua só de casas, próxima ao metrô da Saúde. Era só seguir pela rua Bosque da Saúde, andar mais uns dois quarteirões que eu estava na casa dele. A casa era grande, tinha três quartos, três salas, duas garagens, e no banheiro do andar de cima havia um terraço. A sala da frente era toda envidraçada, com grades, onde havia uma biblioteca, e era ali que eu adorava dormir, porque a luz da lua iluminava-a toda, misturada à luz amarelada dos postes. Deitada no chão, — literalmente — eu lia e fumava e, espaçadamente, ouvia o apito do vigia que passava de bicicleta.

Ali, com a cabeça apoiada na mão, eu li vários livros sobre Damião de Veuster, aliás, eu redescobri a vida de Damião de Veuster numa madrugada quente de fevereiro para março. Era a última noite de fevereiro, lembro bem disso.

Nessas noites, Ralph dormia comigo — a porta ficava aberta caso ele precisasse ir ao banheiro. Ele chegava devagar e dava um jeito de se acomodar de uma tal maneira que ficasse embaixo do lençol e com a cabeça encostada no travesseiro. De vez em quando ele mudava de posição e nesse de vez em quando, abria os olhos, ficava me olhando e me dizendo coisas que eu não conseguia e não consigo traduzir. Fui o único ser humano com quem Ralph dormiu. Então ele passou a ser “meu”. Numa dessas madrugadas eu acordei com uma dor terrível no braço esquerdo — síndrome do túnel do carpo, eu saberia mais tarde — e levantei devagar, sem respirar direito, já decidida a ir para ao Pronto Socorro. E fui. E acabei ficando dois dias no hospital até que se estabelecesse um diagnóstico e, sobretudo, um tratamento que não envolvesse poderosos e ineficazes analgésicos. Enquanto eu estive fora, — fiquei sabendo depois — a cada movimento do portão Ralph corria para lá, subia no muro e esticava o pescoço olhando a rua. E à noite, deitava-se ali, na biblioteca, no lugar onde eu me deitaria se estivesse lá. Nada conseguia tirar ele de lá. Ainda convalescendo escrevi um longo texto para ele, um poema em prosa.

Cães são translúcidos, gatos não. Gatos são misteriosos. Você sabe que eles gostam de você, mas são ariscos e personalistas, têm seus momentos de recuo, quando parecem dormir, ou quando parecem nos dizer alguma coisa, e eu tinha certeza de que Ralph, naquelas madrugadas, me dizia muitas coisas.

Isso faz 18 anos, Ralph morreu, o dono da casa mudou, mas eu ainda, às vezes, pego o metrô, desço na estação da Saúde e circulo pelos arredores com a absoluta certeza de que Ralph também circula por ali e, dentro do seu mistério e silêncio, ainda fala comigo e ainda diz coisas que eu compreendo emocionalmente, mas que, volto a repetir, não sei traduzir.

Numa sexta-feira fria de Maio, deste ano, à meia-noite, minha perna começou a doer, e a dor foi ficando cada vez mais forte. E de mais forte, passou a insuportável e lá fui eu pro Pronto Socorro de Ortopedia da Santa Casa.

Estiramento muscular, disse o médico depois. Seqüela de um acidente no Rio. A dor me remeteu à treze anos atrás. Quando você sente dor, pouco importa onde seja, ou o que possa ser, é sempre a pior, a mais insuportável do mundo. A única coisa que se quer é que a dor passe. E eu me sentia dolorida e miseravelmente sozinha, andando com enorme dificuldade pelos prédios escuros da Santa Casa até chegar à Ortopedia.

Cheguei, fiz minha ficha e sentei na sala de espera. Lá dentro estava quente. Numa das cadeiras dormia um gatinho, todo enrolado. Porque a Santa Casa tem milhões de gatos que circulam por ali, pelos seus jardins e prédios, e uma enfermeira toma conta deles. Era um siamês de olhos azuis, semelhante ao Ralph quando jovem. Sentei ao lado dele e comecei a passar a mão na sua cabeça pensando: será que gatos reencarnam? Mal pensei isso ele se desenrolou, veio e se acomodou no meu colo. Depois bocejou, se esticou, pôs as patas no meu peito e ficou quase em pé olhando para mim. E a minha dor foi acalmando, foi ficando suportável e eu quase conseguia dobrar a perna. Isso durou muito tempo: os olhos dele nos meus. Iguaizinhos aos do Ralph.

E sempre que um gato me olha dessa maneira eu tenho um pouco de medo. Porque conversamos sobre coisas que não sabemos. Nosso inconsciente percorre áreas desconhecidas, dimensões que ainda não alcançamos – pelo menos, eu não. Dei-lhe o nome de Ralph naquela madrugada. Outro nome não lhe caberia. Disse-lhe que voltaria, eu sempre volto atrás das madrugadas de lua cheia e luzes antigas acesas em lampiões. E ele também. Somos seres da mesma espécie que habitamos parcialmente um pedaço de mundo que nem todos conseguem chegar. Somos vadios e nos comunicamos, bem ou mal, com outras dimensões. Somos de longos silêncios e quietudes estranhas. Somos desses lugares que a madrugada oculta e revela, às vezes com um rasgo de luz, uma luz projetada nos muros e nas paredes, às vezes balançando as folhas dos arbustos. Circulamos por São Paulo e nos revemos espaçadamente, mas com densidade. Então, não sei quanto tempo depois, o médico me chamou e ele se foi. Voltei a procurá-lo algumas noites depois, passei um bom tempo circulando pela Santa Casa, até encontrá-lo sentado no muro da rua Cesário Mota. Estava quente, eram 21h, peguei uma coca gelada numa máquina ali perto, e fiquei sentada esperando que ele viesse até onde eu estava, conversar comigo. Ele continuou lá, impassível, apenas me olhando. Como algumas vezes eu também fico impassível nos meus lugares preferidos e não quero ver ninguém, respeitei o jeito dele e não me aproximei. Sentei numa mureta e fiquei. E, de mais a mais, conversávamos de longe. Debaixo de todas as luzes. Fiquei ali até bem depois de acabar a coca e o cigarro e ele também. Disse ciao de longe, eu costumo dizer ciao, e Ralph piscou seus olhos. Eu disse que voltaria mais vezes. Ele disse que sempre estaria ali esperando por mim, e que tinha muitas coisas a me dizer. Acho que foi assim.

E neste momento, acabo de me dar conta de que, passados dezoito anos, eu estou de novo, deitada e fumando, no meu quarto, escrevendo para um siamês de olhos azuis. Deve haver nisso, nessa repetição de faces e de fatos, uma ilação que não percebo, uma linha fina que une a vida, solidifica-a e tranqüiliza-a, se necessário.


Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco