São Paulo, 19 de janeiro de 2004

 

A História e suas artimanhas

 

 

 

Mécia Rodrigues

 

Eu acho que às vezes, por descuido, por falta de verdadeira vocação para a pesquisa científica, alguns fatos escapam aos historiadores. Como, por exemplo, o porquê do nome da cidade e quem, de fato, fundou-a. Ao longo do tempo quiseram que seu fundador houvesse sido Anchieta, talvez pelo romantismo da sua vida, seus poemas na areia, sua cama de pedra. E a lenda se criou e foi solidificada. Mas não é assim a História da fundação da cidade. Não é assim que se faz História.

O nome atual da cidade de São Paulo, foi lhe dado por ter sido rezada uma primeira missa no Pátio do Colégio, no dia 25 de janeiro, data da conversão de Saulo ao cristianismo. Era o ano de 1554. Rezou-a o Padre Manoel de Paiva, por determinação do superior dos Jesuítas, Padre Manoel da Nóbrega. José de Anchieta, era, naquela data, noviço e tinha 19 anos, razão pela qual não poderia nem celebrar uma missa, quanto mais fundar uma cidade. Como escrevente da ordem, e também por determinação do Pe. Manoel da Nóbrega, quatro meses depois, mandou ao Rei de Portugal, uma carta onde consta o seguinte tópico:..."celebramos a primeira missa no dia da conversão do Apóstolo São Paulo"....Essa é toda documentação que se tem sobre a missa.

O fato de Anchieta usar o plural "celebramos" deve-se ao fato de, à época, usar-se o eu majestático, e não porque ele houvesse participado da missa, como sacerdote. Que, afinal, ele não era.

Os jesuítas que para cá vieram, tinham a específica obrigação de catequizar os índios, e para tal eram pagos pela Coroa Portuguesa, com dinheiro público, naturalmente. Prestigiados por Dom João III, o "pai dos jesuítas", epíteto que lhe foi dado pelos sacerdotes, estes quando aqui chegaram, exigiram que Tomé de Sousa lhes desse a Vila de Piratininga. Esse assim o fez, extinguindo a sua Câmara da República e transferindo-a para o Povoado de Santo André. E, em 8 de abril de 1553, Martim Afonso de Sousa, funda a Câmara da República de Santo André da Borda do Campo.

Se alguém tiver a paciência de ler toda documentação existente sobre o Estado de Direito Português, à época, vai ver que jesuíta nenhum tinha permissão para fundar o que quer que fosse. Só podiam fundar Vilas na então Província de Santa Cruz, depois Estado do Brasil, os representantes dos Reis de Portugal, isto é, da Monarquia do Reino de Portugal, cujas Leis constituíam o Estado de Direito. E que o único documento que existe sobre a "fundação de São Paulo" são essas doze palavras de Anchieta, um pequeno apêndice em uma longa carta.

Muito estranho que Martim Afonso, que também trouxe ao Brasil a primeira Santa Casa de Misericórdia, o primeiro que veio com a autorização real para fundar vilas e cidades, tenha fundado a Vila de São Vicente e a Vila de Piratininga, e uma "missa" determine a fundação de uma cidade. Há na história da fundação de São Paulo uma lacuna grave, evidente.




Catedral da Sé



Nestes primeiros 20 dias de janeiro de 2004, constatei que a cidade voltou a ser a cidade da minha infância. Quando as temperaturas de janeiro, raramente passavam dos 30 graus. Era assim a cidade da minha infância, que Inezita cantava: com garoa em janeiro, um mormaço ardido ao meio-dia e nenhum vento a não ser depois das 5 da tarde. E eu fiquei mais amena e paulistana andando por aí debaixo da garoa, do mormaço e do vazio das férias de janeiro. Mais próxima de mim mesma e dos meus semelhantes. Como se eu houvesse reconquistado a identidade real da cidade. Então que se comemore os seus 450 anos, independente dos erros históricos.

 

Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco