São Paulo, 08 de setembro de 2003
Adivinha quem vem para jantar?
Diz a filosofia chinesa que as coisas não são isto OU aquilo, mas sim, isto E aquilo. Que entre o branco e o preto há diversas gradações de cinza. E que, somadas todas, todas se completam e se correspondem. Porque daqui a um minuto não seremos as(os) mesmas(os) e olharemos então as coisas - que serão outras, serão as coisas de daqui a um minuto - com outros olhos.
Observe que os chineses e os seus movimentos de vida, sua poesia, sua épica lunar, sua acupuntura, sua comida e suas predições, basearam-se, única e exclusivamente, nos movimentos da natureza, os quais observaram durante longo tempo. Daí seus aspectos análogos a faisões, raposas, lagos, luas, seu I Ching que é um longo discurso circular sobre o tempo, seu Feng Shui (pronuncia-se fon suei) que também marca o contorno do tempo através do corpo e das suas moradas, a antiga pintura amarelada retratando Li-Po de perfil. Observe o mandarim e o cantonês, o princípio dos seus caracteres. O equilíbrio dos seus prestidigitadores, seus malabaristas e espadachins. Seus riquixás e azulejos azuis de Macau. A baía de Hong Kong.
Observe como ficou rica e variada a sua cultura quando se apoiou no fim da neve e no florescer das acácias e cerejeiras. Observe também o quanto difere do Ocidente, esmagado pelos conceitos judaico-cristãos de mal e bem, mau e bom. Sempre a dualidade-motriz que impulsionou bárbaros cruzados e inquisidores.
Perdemos nós, perdeu o Ocidente e ganhou o reducionismo do Iluminismo ao reverenciar uma filosofia que existia sobre uma idéia arrogante, nem por isso nova, de que podemos dominar todas as coisas vivas. E o pobre Ocidente, por inércia talvez, entregou seu espírito, já bastante batido, ao jugo da Razão. Do que ele convencionou chamar Razão, bem entendido. O que vem a piorar muito o quadro.
Porque a Razão do Ocidente não teve o sopro alegre da anarquia que germina e multiplica, mas sim a confusão que ele absorveu com estoicismo e impiedade de si próprio.
Vai daí que riscou as zonas cinzas que os chineses tão bem mapearam. Se foram eles, chineses, antes de Mão et caterva, bem entendido, mais felizes ou melhores, eu não sei. Mas foram mais sábios. E isso talvez tenha lhes trazido o colorido das zonas brancas da neve sobre o sono e trajeto. Mesmo que seja apenas uma - e não é apenas uma - razão estética, esta já lhes vale a vida, que por si só tornou-se mais prazerosa.
E porque mesmo dei eu de falar sobre isso neste sábado gelado de São Paulo? Primeiro porque o frio trouxe-me de volta o conforto inesquecível da cidade em agosto, em todos os agostos, e segundo porque o fim de agosto trouxe uma serenidade chinesa ao meu jeito de andar pela praça da República debaixo da garoa do fim de tarde. Porque mesmo essas considerações orientais num sábado de café quente e cigarros úmidos no cinzeiro, ao lado do computador?
Porque eu gosto das coisas chinesas. Não mais que as japonesas, mas gosto muito. Desde vidas passadas a sonhos, passando por rolinhos primavera à jaquetas de náilon da 25 de março. Para não falar nos filmes de Zhang Yimou (pronuncia-se Xan Imu) e da doce suavidade de Gong Li, entremeados de concubinatos e senhores feudais. E mesmo aquelas outras coisas horrorosas, como sapatos para manter os pés pequenos, que eu deveria evocar com mais freqüência se quisesse ser mais realista e menos romântica. Fico com o lado romântico da coisa. O lado pictórico e misterioso. Fu-Manchu às margens do Tâmisa em mais uma fuga espetacular.
Então diziam os chineses, com seus rabichos, tranças, tintas e pincéis, as coisas são isto E aquilo. Porque também passam pelo processo das quatro estações da natureza. E transmudam-se, vergam, florescem, renascem. A alma, a nossa alma, também. E nesse curto caminho, destacando que o tempo é apenas uma invenção do homem que o domesticou, as coisas, materiais ou imateriais, visíveis ou invisíveis, ao cruzar com outras, já não serão as mesmas, e isso torna-as parte daquelas com as quais se encontraram. E isso permite fechar um pequeno ciclo cármico: o das transições. Das transições que se cruzam e nos mostram as várias e perplexas faces de uma mesma moeda, olhando-nos olhar para ela: a moeda e suas faces.
O tempo, mesmo domesticado, encarrega-se de nos mostrar uma mesma coisa sob a ótica do inverno e do verão e ela, deixa de ser a palavra que a nomeia para se tornar uma outra. Já passou pelas gradações do cinza dos chineses. Pelos gansos e pelos patos, pelas libélulas e mariposas. Mesmo que tenha ficado imóvel em algum canto da terra.
Cumpre-nos um movimento de quietude para que possamos aquiescer com serenidade à mudança que a paisagem da janela da sala ou mesmo a da janela do ônibus opera, gradualmente, em nós. A nossa irremediável prepotência julga que dominamos a natureza e sequer nos damos conta que ela continua ali, olhando indiferente os nossos destinos e seguindo o dela. Cumpre-nos registrar, nesse movimento, em redor de nós mesmos, que cooptamos algumas zonas, mas nem todas. Cumpre-nos também, ao olhar para os pequenos desejos, enxergá-los com a dimensão que eles possuem e cientes de que a sua posse nem sempre nos será benéfica.
Houve um tempo, e me assusta saber que existiu mesmo, em que a posse e o domínio do meu desejo de conhecimento, poderia não me ser boa. E a minha sábia e prudente encarnação oriental, suavemente, afastou-me dele.
Não nasci para dominar a mim mesma sequer. Embora eu relute e por várias vezes queira manipular e trapacear com o destino, acabo sempre num fim de tarde de agosto, na praça da República, embevecida, olhando a noite amarela que vai se formando nos antigos postes da Barão de Itapetininga e da avenida São Luís. Porque eu estou em São Paulo, porque isto aqui é a minha casa, porque esta cidade é a minha veia, eu entendo os faisões e perdizes do I Ching.
(Gong Li enganando o senhor feudal, cujo rosto Zhang Yimou não mostra, em Lanternas Vermelhas.)
Quando me dou conta que estou parada no Fran' S da Ipiranga e nem dei por isso, repito convincentemente que não sei dominar sequer a mim mesma. E que, talvez, por isso eu posso transitar com uma maior similitude junto aos meus sentidos. E dizendo isso, minha alma floresce um pouco e meu coração se aquieta. E eu sinto uma enorme e sustentável leveza, por me saber indócil e arisca às razões do pensamento.