São Paulo, 01 de julho de 2007

A circunstância

- conto -


Mécia Rodrigues


Eu gosto do Poder, disse ele, pertíssimo da Esplanada dos Ministérios, numa noite quente de fevereiro. Uma linhagem de caprichos e a opacidade da fala. Tenho ódio do Poder e de tudo aquilo que o representa. Girei o dial, não consegui sintonizar nenhuma estação, olhei o que há poucas horas deveria ter sido um imenso céu vermelho e nada mais. Dei de ombros, entediada. Desvestidas as más intenções, fixei os olhos no escuro à minha frente e afundei a cabeça no encosto. Chão de amianto, de cádmio, gotejar denso de fatalidades, inquietações, milhas aéreas, aventuras. Continuei girando o dial, São Paulo às vezes distante mas litografada na minha epiderme, a fogo e paixão, pulsando veloz: sussurros e vaidades, acelerações e insubordinações. Passei o dedo no vidro, alheia ao planalto, ao seu xadrez abjeto, seu ócio e indiferença. A ciência da chuva me constrange. Anos com o nariz na vidraça e, pingo a pingo, cresci. Conseqüentemente, o mundo diminuiu.

Cresceu o cerrado, perdeu um pouco da sua área verde e virou capital do país. Flor dos tempos, das espécies submersas, o que você dizia, dizia a mim? toda a eletricidade da terra ativada, uma vez acionado um ponto, ele libera uma faísca e todas as coisas correlatas são também acionadas e postas em contacto. E se encaixam, resultando nisso que chamamos destino. Que supomos, erroneamente, poder comandar. Como as conspirações.

Chão de chuva, de cádmio, de amianto, poucos faróis na outra pista, o ploc da chuva e o ruído que vinha do rádio quando eu girava o dial. Nenhum outro som. Quando passamos em frente ao Palácio da Justiça, bem em frente, eu disse: não dá mais para continuar, Marcos. Cresceu o assobio do vento, atravessou e rasgou o cerrado.

O barulho da chuva na capota do carro parecia uma rajada de metralhadora, tive de aumentar a voz: não é mais possível, Marcos não dá mesmo. Acabou. Ele deu uma brecada, parou o carro no meio da pista, soltou o volante, segurou meu rosto com as mãos trêmulas, olhou firme nos meus olhos e disse: Não, Lu, não acabou. Nem pense em tentar me deixar. A chuva, pingo a pingo, cresceu.

2

Todas as vezes que um avião alinhar a asa vindo do planalto central, é possível ver, abaixo das nuvens, o tamanho da cidade: sua mansuetude e e empenho, sua ânsia e ambição,seu desembaraço e audácia. As longas filas de carros e caminhões nas Marginais, as chaminés do Brás, o jardim do Museu do Ipiranga, os toriis e lanternas brancas nas ruas e viadutos da Liberdade, a faculdade de medicina da USP, a assinatura de Ramos de Azevedo nos prédios mais antigos e imponentes, as árvores seculares de Higienópolis, o Pátio do Colégio, a Irmandade da Santa Casa de Misericórdia, os luminosos piscando, as bandeiras tricolores no Morumbi, as outras no Pacaembu, as xadrezes em Interlagos. São Paulo me consolidou o caráter, tornou-se a minha segunda voz, minha pele e referência, minha interlocutora mais próxima e atenta, mais severa e complacente.

As pontes e os dutos do Tietê, o verão em que eu ouvia, com certa preocupação, o boletim meteorológico no rádio. Soube que Guarapiranga estava com o nível baixo, quase vazia. Racionada a água, cheguei em casa no final da tarde, odiando as poucas chuvas, o meu rosto cheio de sardas, os meus cabelos compridos. Dei de cara com a resistência do chuveiro queimada e àquela hora não havia mais nenhum eletricista trabalhando. Só me restava comprar outra e tentar trocá-la.

3

Meu irmão estava estudando numa cidade do interior, pacata e quieta. Como ele. Havia me dito que ficaria por lá nas férias, mas chegou inesperadamente quando eu acabara de entrar. Pôs as malas no quarto, trocou de roupa, reclamou do trânsito e do calor.

— O seu mau-humor tem algum motivo específico ou é apenas o de sempre, João?

— É o de sempre, acrescido do fato de eu ter ficado de dependência em Resistência dos Materiais.

— De novo?

— Como assim, de novo? De Resistência dos Materiais é a primeira vez.

— Falar em resistência, a do chuveiro queimou. Você sabe trocar? Eu já comprei uma nova. É esta daqui.

— Sei. Se você me fizer um sanduíche eu troco.

Fiz. Com alface, queijo, rosbife, ovo cozido, orégano, maionese. Uma coisa muito parecida com um beirute, mas não era. Ficou enorme. Quando estava quase pronto, percebi que alguma coisa se mexia no fogão. Olhei. A coisa fez vupt! e sumiu por um dos bicos.

— Joãooooooooooooo...corre aqui! Ele entrou na cozinha pingando água:

— O que foi?

Apontei o fogão com cara de pavor:

— Tem um monstro lá dentro!!!

João examinou cuidadosamente o forno, a parte detrás, os bicos, limpou o óculos na camiseta imunda e olhou pra mim muito sério:

— Passa o sanduíche.

Nisso a coisa se moveu de novo.

— Olha lá João!!! É um rato gigante!!!

— Aquilo é um camundongo, não um rato gigante, ele disse. E saiu da cozinha, com o sanduíche e uma coca-cola, olhando para mim com ar de desprezo.

— É...foi isso que eu disse...um camund...

E o camundongo, outra vez, olhou pelo bico do fogão e desapareceu, saiu por baixo do forno e deu uma corrida pela cozinha até a geladeira.

4

Conheci Marcos na manhã em que voltava de Buenos Aires. Uma Buenos Aires que prossegue nas músicas de Suzana Rinaldi e Nacha Guevara, no gosto das medias lunas da Avenida de Mayo y Perú, nas fotos que tirei do porto e das calles elegantes, no pente colorido que carrego sempre na bolsa: hecho a mano. E, principalmente, nos poemas portenhos de Borges:

"Buenos Aires eu sigo caminhando,
por tuas ruas sem porquê nem quando"

Entrei no avião e meu corpo era um recorte de fuga, um astrolábio antigo e enferrujado, uma lentidão infinita de aranha, margeando tudo, feroz e indisciplinada, retendo espectros, engendrando rotas e bifurcações. Muitas ciladas me circundam e acuam, mas não caio em nenhuma delas. Marcos sentou na poltrona ao lado da minha, a voz modulada e grave, a postura das pausas, a respiração longa, a pontuação. A voz que no futuro não diria nada de muito significativo, a não ser que gostava do Poder, mas isso eu já supunha, só que verbalizado jogaria por terra minhas últimas esperanças de decência. Minha voz respondeu à altura, sedutora, insana e aventureira. Pedi um café forte.

Quando o avião pousou em São Paulo ele pôs a mão no meu braço:

— Você não quer vir comigo para Brasília?

— Um dia eu até vou.

Trovões e relâmpagos, turbulências, cintos apertados, tramas, fios invisíveis, acordos, rum com coca-cola e charutos adocicados, acenei para a janela do avião que já estava taxiando pela pista, uma interrupção na corrente elétrica conhecida para que uma outra, com maior potência e empenho, sobreponha-se à primeira. Fios mais grossos e mais bem encapados. São Paulo só é possível íntegra para quem nela nasceu e sempre viveu.

5

João pediu um monte de sorvete com uma tonelada de cobertura. Em um bar dos Jardins, na descida da Hadock Lobo, nem tão cheio nem tão chato quanto parecia do lado de fora. Com a boca lambuzada de chantilly, ele falou da faculdade, do tédio que é uma cidade pequena, da namorada que morava numa chácara e criava coelhos, da vida monótona, da resolução de voltar para São Paulo, e da saudade dos seus tempos de cinéfilo:

— Lembra quando nós fomos ver o Império da Paixão? Esse filme tem um lado psicológico muito bem sacado. Para se punir ela fica cega, e...

— Aquilo não tem nada de psicológico, João.

— Claro que tem! Era a consciência dela. Ela havia matado o marido, lembra?

— Consciência nada. No Japão alguns fantasmas costumavam, ou ainda costumam, não tenho certeza, cegar os criminosos com uma vareta de aço semelhante ao hashi.

— Uma casta de fantasmas, você quer dizer?

— Não quero dizer casta coisa nenhuma, quero dizer fantasmas apenas. Procure ser mais simples.

— Mas se eram só "alguns", como você disse, está na cara que era uma casta.

— Ai, ai, ai.

6

O quarto grande no meio da manhã, as cortinas brancas, o ruído do jornal sendo manuseado, Marcos cortou um pedaço de queijo e disse: preciso fazer regime. Olhei para a barriga dele e pensei: precisa mesmo. Mas não disse nada. Não era da minha conta. Afundei no travesseiro de pena de ganso, liguei a tevê, puxei o lençol e a caixa de chocolates. O prazer da aventura apenas. Marcos sentou na beirada da cama e segurou minha mão: Lu, quero que você mude pra cá.

Estremeci.

7

À noite peguei as cópias de contacto do filme que bati do meu irmão trocando a resistência do chuveiro, a lente, e estava sentada à mesa da sala, muito concentrada, quando tocaram a campainha. Nem me mexi.

— Quem será? Você pode atender, João?

Ele estava assistindo um filme de suspense, pôs na pausa a contragosto, foi até a porta e espiou pelo olho mágico.

— Não é ninguém, deve ser a molecada da rua que passa por aqui de bicicleta e de sacanagem mete o dedão na campainha.

— Estou com vontade de tomar uma coca gelada.

— Eu também, Lu. Pena que a geladeira está tão longe...

— Longe?

Tocaram de novo a campainha.

— Vai lá João, que eu estou cortando uma tira aqui.

— Já fui uma vez.

— Não pode ir de novo?

— Certo. Eu vou.

— Aproveita e me dá essa régua que está aí do lado do telefone.

— Esta daqui?

Tocaram outra vez.

— Atende, João.

— Ou eu atendo ou pego a régua.

— Os dois, mas primeiro me dá a régua.

Ele pegou e trouxe até a mesa.

— O que é isso aí nessa foto?

— Não respira em cima da lente que embaça, João.

— Legal essa lente, onde você comprou?

— Tem alguém aí dentro? gritou Marcos do lado de fora.

Mas das outras vezes não era ninguém.

8

El dia que me quieras tendrá más luz que junio, Marcos parado na soleira da porta com um ar cansado, a curva da narina que costumava inflar quando ele ficava tenso ou nervoso, os olhos temerosos e rápidos, a vegetação que a luz da rua recorta e contorce, as sombras caminhando sobre meus braços, olhei a chuva que começava a cair, como naquela noite, flor dos tempos, do planalto, verões e relâmpagos, bandeiras e carícias.

Ele entrou e pediu alguma coisa para beber, um suor imenso se alastrou pelo meu rosto, o movimento e a ciência da chuva me excitam, Marcos passou a mão na minha nuca:

— Lu, está muito difícil sem você.

No dia seguinte, quando um sol vermelho e ardido entrou pelas frestas da persiana, abri um único olho e bocejei:

— Marcos, foi a última vez. E levantei de mau-humor.

9

João pegou o jornal do chão, fechou a porta e sentou ao meu lado para tomar café:

— Não acho legal essa trepação a noite toda, no dia seguinte você acorda azeda e manda o cara embora.

— Não mandei ninguém embora, ele precisava ir. Sempre fui mau-humorada de manhã e nunca escondi isso.

— De qualquer forma você fica alimentando esse romance. Sabe o que eu acho, Lu? Que você é inconseqüente pra caramba. Termina de uma vez então.

— As coisas não são assim, João. Você não sabe de nada. Não dá para terminar de repente. Estou tentando já faz bem uns quatro meses. Todas as vezes que eu começo a falar sobre isso ele faz umas ameaças veladas, diz umas coisas dúbias. O Marcos é um cara violento, João.

— Violento? O Marcos? Você está brincando?

— Não estou, olha aqui.

Mostrei dois hematomas enormes: um na perna e outro no ombro.

— Ele fez isso???

— Calma, João..

— Lu, me responde...foi o Marcos quem fez isso?

— Não grita João, os vizinhos não precisam ficar sabendo.

— Ele que me aguarde...

el dia que me quieras será de plenilúnio.

10

A 100 km de São Paulo, mais ou menos, está o Observatório do Capricórnio, estação astronômica localizada no monte Urânia, a 1050m de altitude. Para chegar lá é preciso atravessar metade de Campinas, depois pegar uma vicinal, estreita e deserta, com um bom trecho de terra. Cuja iluminação é fraca, antiga e precária. Teoricamente, o Observatório está fechado ao público durante a semana e visitas noturnas nem pensar, mas João havia telefonado no fim da tarde e dito que éramos jornalistas e que precisávamos fechar a matéria sobre o cometa aquele dia.

— É a única maneira da gente ver o cometa à noite, justificou. Se ninguém pedir credenciais, ótimo.

Ninguém pediu.

A estação astronômica está em um terreno grande, limpo e bem cuidado, cercado de arame farpado. O Observatório é uma construção redonda, de tijolos. Lá venta tão forte que parece que as árvores vão cair de tão vergadas. Não achamos nenhuma campainha. Buzinamos, acendemos os faróis e ninguém saiu do Observatório. Estacionamos ao lado de um barranco, do lado de fora, e pulamos a cerca. Três cachorros vira-latas começaram o maior estardalhaço tão logo nos viram.

O astrônomo nos recebeu simpaticamente, perguntou se queríamos café e nos mostrou em detalhes aquele lugar bonito e solitário.

Fomos colocados em frente a um telescópio profissional e ficamos sabendo que aquela nebulosa, ali à direita, era o cometa. De binóculo daria para ver somente a cauda, mas no telescópio dava para ver o núcleo. Posição no céu: continua na constelação de Sagitário. Localize a constelação mais alta, a leste, que é Escorpião. Abaixo de Escorpião se acha um corpo brilhante que é Saturno, tendo abaixo e um pouco à direita Marte. É fácil, Marte é avermelhado. Logo abaixo de Marte se acha o Cometa. Viram?

Velocidade em relação à Terra: 43,19km/seg. Brilho integrado (núcleo mais cauda): da ordem da magnitude 2,0. Declinação: 28°19’. Ascensão em linha reta: 19h32m. Distância da Terra: 0,74 UA (unidade astronômica). Distância do Sol: 1,04 UA. Velocidade de deslocamento em direção ao Sol: +26,63km/seg. Entenderam?

Claro. E adoramos. A única coisa chata, na volta, foi a hora em que furou o pneu do carro, quando ainda estávamos na estrada de terra. Para cúmulo do azar o estepe estava vazio e o João teve de ir a pé até Campinas buscar socorro. Quando me vi ali sozinha, fiquei meio insegura, tive medo e abri o porta-luvas atrás do revólver. Pela primeira vez na vida achei ótimo a arma existir e estar ali com a caixa de balas. Fiquei com ela na mão, no caso de aparecer algum assaltante. Desnecessário dizer que não passou ninguém. Passado um tempo, como a tensão não diminuía, comecei a andar pela estrada e quando bati os olhos numa placa de sinalização, meio escondida pelo mato alto, não resisti: pá, pá, pá. Será que alguém ouvira? Olhei para os lados. Nada. Coisa nenhuma. Ninguém. Pa, pa, pa. Descarreguei e recarreguei o revólver várias vezes. Fiz um barulhão.

João chegou umas duas horas depois, rodando um pneu:

— Que cheiro de pólvora é esse? Você andou usando meu revólver?

— Atirei numa placa de sinalização. Para espantar o medo.

— Qual placa?

— Ali na frente, acho que daqui não dá pra ver.

— Você é louca! Onde já se viu fazer uma coisa dessas? E se acerta em alguém?

— Alguém, quem? Não tem ninguém por aqui a esta hora. Onde você achou o pneu?

— Num borracheiro. Eu tentei explicar a situação, mas o cara estava tão bêbado, mas tão bêbado, que nem reparou que eu saí com o pneu.

E abaixou:

— Me passa a chave de roda.

Las estrellas celosas nos mirarán pasar. Nem tanto por nós. É que elas tem de estar lá mesmo, no céu, e não podem escolher quem ou o que irão olhar.

11

O fio da minha espada foi afiado dia a dia, todos os dias, sem pular nenhum. No Observatório olhei para o céu através do telescópio e achei que tudo nele se movia bem mais do que eu pudera, até então, supor ou perceber. Centelhas, convergências, fuligens, chamas, labirintos. Um fio forte e invisível havia me ligado ao Marcos: minha poderosa imaginação. Que ignorou os seus deslizes e caprichos. Minha alma,mais do que o meu corpo, foi seviciada noite após noite até que eu disse:

— Chega, não quero mais! Acabou!

Ele pegou meu rosto com as mãos trêmulas, olhando firme nos meus olhos:

— Não Lu, não acabou. Você ainda me quer.

Todas as idas ao ponto mais distante de mim mesma deixaram a sombra de uma cicatriz, para me assustar às vezes, outras para me prevenir. No meio do planalto a voz que eu conhecia tão bem, continuava ecoando, mediando destinos e corrompendo integridades.

Quando ele parou o carro em frente ao Palácio da Justiça, me dei conta de que tudo que eu tinha era uma noite ilhada e sufocante, lúgubre e obcecada. Girei o dial e pensei ter fechado um ciclo ao dizer:

— Chega, Marcos! Mas ele respondeu:

— As coisas não acabam assim, Lu, com essa simplicidade. Elas são mais complexas.

12

Dois dias depois da noite do Observatório, João me acordou com um safanão:

— Acorda Lu, e olha isso daqui! O Marcos morreu.

Pulei da cama assustada:

— Quem morreu? O que que aconteceu?

— O Marcos. Está aqui no jornal.

— Deixa ver...Não acredito! Como ele morreu?

— Com um tiro. Parece que foi assassinado.

— Dá isso aqui!

Li uma, duas, três vezes. Incrédula. E assustada.

— João...foi na estrada do Observatório. Na mesma noite que a gente foi lá. Olha só. Que coisa esquisita...Ele parou o carro no meio do mato e desceu...Porque será que ele fez isso?...Que coisa estranha...

— Bom, seja lá como for, você está livre dele. Eu sabia que essa coisa ia terminar mal. E ainda por cima, você ali perto, com o meu revólver...Eu disse que foi uma temeridade sair pela madrugada atirando a esmo...

— João... você não está insinuando que eu matei o Marcos, está?

— De jeito nenhum. Mas pode até ser que ao atirar naquela placa, você, sem querer, é claro, s-e-m q-u-e-r-e-r, veja bem...

— Todos os tiros que eu dei foram na placa e eu ouvi o barulho. De todo jeito eu devo estar bastante complicada com a polícia.

— Está nada. Você é inocente não é? E foi um acidente, não foi? Mesmo que não tivesse sido, ninguém suspeitaria de você.

— Como não? Nós passamos por lá à mesma hora, esqueceu?

— Nós não, dois jornalistas. Com nomes bem diferentes dos nossos, e vindos do Rio ainda por cima. Estacionamos o carro praticamente na estrada, não havia ninguém, e estava muito escuro, lembra? Ninguém viu a placa. Olha, não esquenta mais que eu vou sumir com os dois revólveres.

— Dois???

— É. Eu tenho dois e estavam os dois no carro aquela noite. Um você usou e o outro estava comigo. Eu não iria a pé até Campinas desarmado...

Minha boca tremia. Fui pra cozinha e peguei uma maçã. Pelo vitrô olhei os passarinhos, o sol, o gato da vizinha deitado no muro. Entrei e tomei uma aspirina.

13

Meu coração é um demônio semidomado, o retrato de um ancestral desconhecido, um contorno de estrelas espatifadas ao acaso, uma silhueta cheia cavidades luminosas, órbitas, gravitações,os sinos da Sé ao meio-dia, o mau cheiro das galerias da José Paulino, o Mercado Municipal, o Jardim da Luz, o órgão do Mosteiro de São Bento, o pico do Jaraguá, as luzes do Jóquei, as flores do Largo do Arouche, as chaminés da Moóca, o Martinelli e o Copan, as bancas de jornais, as estátuas de pedra, as sirenes e a música da minha vida tocando no ar da cidade, líquidos de caleidoscópios, as pontes da Marginal passando por mim, becos me espreitando, taludes naturais, itinerários e forças opostas se debatendo.

Marcos era uma noite ilhada e sufocante e pensei ter fechado um ciclo na minha vida, quando disse: chega, Marcos. Lento, ele pegou meu rosto com as mãos de paixão e desespero:
— Não, você não vai embora.

14

— Sabe Lu...

Eu estava sem forças, quando respondi:

— O quê João?

— Antes de me tornar um rastafari, e abandonar este mundo cruel e sórdido, vou passar uns dias na ilha de Santa Lucia. É uma ilhota ridícula do Caribe aonde há pestes, maremotos, erupções vulcânicas, estado de sítio, ditadores e vodu.

15

A lisura e a certeza das coisas, dragão chinês rasgando os céus, das minhas sete vidas resgatei uma. A garganta quieta, mas em pânico, transpirei verões, deslealdade e descumprimento de códigos. Ajudei João a arrumar as malas, e chamei um táxi para levá-lo ao aeroporto.

Quando o táxi chegou ele desceu correndo a escada, tropeçou e caiu. Quando caiu, bateu o pé na mesa que fica na entrada de casa. Em cima dela havia um vaso com vários hashis. Voou tudo pelos ares e um deles alojou-se no olho direito de João, cegando-o. Ele caiu no chão, desmaiado.

Foi tão precisa a trajetória do hashi que parecia que uma mão invisível havia segurado-o e colocado-o ali.

Pensei isso com horror e uma sombra passou pelo lado de fora da janela.

 


Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco