São Paulo, 22 de março de 2004
A bolha assassina
Eram quatro horas de uma tarde plácida e diáfana, quando cheguei ao consultório do Marcelo Eliezer, cirurgião extremamente competente, e uma pessoa a quem eu quero um bem imenso.
— Marcelo, eu preciso tirar umas pintas. E mostrei-as a ele. Uma meia dúzia no pescoço, nada sério. E uma verruga no dedo da mão direita. Mudamos de sala, o Marcelo anestesiou o pescoço e cortou todas com uma tesoura. Estendi a mão:
— Falta esta daqui.
— Essa não vai dar, ele disse. Olhei espantadissíma: - Mas, como...? - É que isso daí é um vírus, não adianta eu cortar, que a verruga volta. O vírus tem de ser morto...e além do mais, a anestesia nessa região dói pra caramba.— Isso de doer não importa, Marcelo, anestesia aí e corta. - Pois é, mas não vai adiantar...Você tem de passar um remédio, coisa muito simples, eu vou te explicar.
E saiu porta afora em direção à primeira sala, seguido por mim, já um pouco preocupada.
— Olha aqui...e dizendo isso, ele sentou-se e tirou da gaveta um rolo de esparadrapo. Primeiro você toma um banho, lava muito bem o lugar onde vai aplicar o remédio. À noite, é sempre melhor fazer isso à noite. Me dá o dedo.
Percebi o que vinha depois. Devo ter feito um bico do tamanho do Amazonas. Estendi o dedo por cima da mesa.
— Aí, continuou ele, na sua detalhada e ilustrada explicação, você vai "isolar" a área. "Isolar a área"...repeti mentalmente para não esquecer. Assim, olha aqui...Olhei, desconsolada e atenta. Ele cortou quatro pedaços de esparadrapo e com eles fez um quadrado protetor em volta da minha verruga:— Isso aqui é para evitar que o ácido...
— Ácido??? E mais do que depressa puxei o dedo de cima da mesa...— Olha aqui, Marcelo, vamos voltar lá pra outra sala e você anestesia e corta, ou corta sem anestesia mesmo, tanto faz...
— Não vai adiantar cortar....presta atenção...E rapidamente, num momento em que eu me distraí, ele puxou o meu dedo de volta pra cima da mesa.
— Continua...eu disse, já tentando, de novo, retirar o dedo, puxando aos poucos, discretamente, e ele segurando com força o meu dedo "esparadrapado".
Ele segurava de um lado e eu puxava do outro.
— Aí você pega o tubo do remédio, aperta de leve, e vai sair uma gota de ácido. Rapidamente, senão seca, você pega com um palito uma minúscula gota e coloca na área isolada. Tem de ser bem rápido pra não secar.
Minúscula gota com um palito..pensei absorta....e vapt! com um safanão puxei o dedo.
— E enquanto isso, o que acontece com o tubo que, claro, não vai dar tempo pra fechar? Explode?
— Depois você fecha. Esquece o tubo. Deixa o tubo ali, ao acaso...Primeiro passa a gota na verruga. Quando ela estiver seca, você coloca um outro esparadrapo por cima, passa o dedo pra cá...Meio a contragosto e ressabiada estendi a mão por cima da mesa...— Assim, tá vendo? Encosta o palito e tira. E aí está pronto. No dia seguinte, quando acordar, você tira os esparadrapos todos, pega uma lixa de unha e lixa.
— Lixar o dedo??? Você quer que eu lixe o meu dedo ??? Puxei o dedo com outro safanão e enfiei a mão no bolso da calça, a salvo de qualquer tentativa de demonstração de como se lixa uma verruga no dia seguinte.
— A verruga. Você vai lixar a verruga, não o dedo. Apenas em cima da verruga, onde estiver branco.
— Meu dedo vai ficar branco???
— Seu dedo é branco. A verruga é que vai ficar mais branca, um branco leitoso, entendeu?
— Entender, eu entendi, claro, mas....
— Na próxima noite, faz tudo de novo, do mesmo jeito. Até que vai aparecer um pontinho preto. Passe o ácido nele também. É o vírus. Uns vinte dias e você matou o vírus e a verruga sumiu.
— Ãhn...não querendo colocar em dúvida nada do que você falou, você sabe que eu considero você um excelente médico...Mas é que...sabe...Isso aí requer um preparo psicológico, físico e ambiental de horas...Não seria melhor a gente anestesiar e cortar? Porque...vinte dias??????
— Não vai adiantar...Deixa eu explicar de novo. Dá o dedo.
*
A tarde estava no fim quando saí de lá. E achei melhor dar uma passada pelo consultório do Renato, que embora gastro-cirurgião, quebra todos os meus galhos. Todos. Faço grandes negociações com ele em termos de medicina. Ele deixa eu misturar chás de ervas chinesas com homeopatia, acupuntura, moxa, cauda de dragão e asa de barata. E, claro, ele não ia se incomodar de anestesiar e cortar a verruga. E o Marcelo nem ia ficar sabendo da minha pequena traição...E eu jamais ia dizer ao Renato que estava vindo do cirurgião plástico...E o consultório do Renato é em um hospital por ali mesmo...
*
— Toc toc toc..does everybody here?
— Oi menina, que surpresa agradáv…
— Renato, sem maiores prolegômenos, que eu estou com pressa, vamos lá pro centro cirúrgico, anestesia o meu dedo e corta essa verruga. Ele olhou, olhou, olhou...- Não dá, não vai adiantar cortar...Sabe porquê? Porque isso aí...
— Tá certo, eu já sei, não precisa falar mais nada...Me empresta então o anestésico, seringa e tesoura, que eu mesma aplico e corto.
*
Duas horas da madrugada. Acabei de tomar banho. E antes de começar a fazer o troço todo, tirei o telefone do gancho, porque nessas horas sempre tem um engraçadinho que telefona. Desliguei o celular também. E avisei o porteiro que caso aparecesse alguém me procurando não era pra tocar o interfone. O porteiro perguntou, com voz de espanto, se eu estava esperando alguém. Disse que não, mas nessas horas...
Cortei quatro pequenas tiras, iguais, de esparadrapo para "isolar a área". Forrei a escrivaninha com vários lenços de papel porque a droga do ácido em gel ia esparramar por lá, sem dúvida. Eu me conheço. Liguei a luminária, pus o esparadrapo, abri o gel, o ácido em gel, e puff...apertei um pouco. Essas porcarias de bisnagas obedecem à osbcuras leis físicas de compressão e descompressão e não foram feitas para expelir o que quer que seja na primeira apertada. Como trata-se de um ácido, todo cuidado é pouco. Não é xampu francês, é á-c-i-d-o!!! De novo, com todo cuidado apertei a bisnaga. Que fez um pfff...apenas isso. Na quinta tentativa, veio aquele jorro de gel e esparramou no lenço de papel. Consegui pegar uma gota e passar na verruga.
Imediatamente, lembrei de um filme, o primeiro do Steeve McQueen, quando ele ainda era adolescente, chamado A Bolha Assassina. Olhando aquele gel esparramado, me senti perseguida por ela, A Bolha Assassina. Aí, grudei mais dois esparadrapos no dedo, limpei a meleca toda da mesa, e fui dormir. Antes recoloquei o telefone no gancho e avisei o porteiro que podia tocar o interfone caso alguém chamasse. Ele perguntou de novo se ia chegar alguém...
No dia seguinte, arranquei a coisa toda, e peguei a lixa. A verruga estava branca e em volta dela também estava tudo branco. Lixei a verruga. Que, diminuiu.
Dois dias depois, na parte branca do dedo abriu um pedaço de pele. Liguei pro Marcelo.
— Nãoooo!!!!...você passou o ácido na pele e queimou. Falei que era pra tomar cuidado.
— Eu não passei o ácido na pele, eu vedei direitinho, é que essa porcaria deve escorrer. Olha aqui, marca uma hora que eu vou passar aí...
— Não, fica calma...Faz o seguinte...
*
Isso faz quase dois anos. Tentei por uma semana e tive de parar porque viajei e esqueci o tubo em casa. E custa caro o raio do gel. Depois recomecei e tive de parar porque peguei uma virose e passei uns dias com uma febre terrível. Depois eu cheguei muito tarde um dia em casa e esqueci. Teve um dia em que eu estava muito cansada. E um outro em que eu fiquei pra dormir na casa de uma amiga. Fora as vezes que tive de esperar a pele em volta da verruga cicatrizar. E ainda teve aquela vez...
Agora estou eu aqui, dois anos depois, olhando pro meu dedo, pro rolo de esparadrapo, pro palito e pra bisnaga de gel, com o telefone fora do gancho e o porteiro avisado que não é pra tocar o interfone. Não adianta eu telefonar pro Marcelo e pedir pra ele cortar. Menos ainda ir atrás do Renato com uma mentira caprichada. Eles me conhecem.
Acendo a luminária. Vou começar tudo de novo. Outra vez. Mais uma vez.