São Paulo, 25 de outubro de 2004
Fahreneit 451
Uma vez que a linguagem é arbitrária, as palavras
traem o pensamento” – Górgias. (485-380 a.C)
Lá um belo dia, nos idos dos anos 70, talvez fim dos 60, não tenho a data certa, começou-se a discutir a reforma ortográfica, que foi assinada em 1974. Reforma essa que acabou com o acento diferencial, mas que fez donos de editoras aumentarem seus lucros com a reedição de dicionários e livros. O resultado é que, hoje, quando eu, por exemplo, escrevo, me deparo com palavras que tanto podem significar forma como fôrma, fora ou fôra, e aí eu me obrigo a acentuar o que não deve, pela norma culta da língua, ser acentuado. Mas nas referidas frases, a confusão era clara. A que deveu-se então a reforma de 74?
Pior, claro, foi o caso do jornal Folha de São Paulo, que passou anos a fio sem usar o trema, tendo ressuscitado-o no início deste ano. Os jornais têm essa mania de mexer na ortografia a seu bel-prazer. Principalmente na dos nomes próprios. Então Luiz passa a ser Luís com S, não obstante na placa da avenida São Luiz, a nas Atas da Câmara, conste um imenso Zê. Oswaldo Cruz passa a ser Osvaldo Cruz. Et coetera. Está lá, escrito nos Manuais de Redação deles todos.
Afinal, para quê diabos serve um nome próprio?
Esse comportamento se adapta bem à decisão do governo, que acaba de jogar no rol dos culpados por crime de racismo, e passíveis de punições, aqueles que corrigirem seus alunos quando estes disserem: craro, zóio, crasse, fessor. Percorrendo o caminho de volta, vamos retroceder à Idade Média, quando havia duas línguas, o latim clássico e o vulgar. Quem lia? A nobreza, evidente. Tanto que em Hamlet, de Shakespeare, quando o fantasma do Rei se dirige a Hamlet, o faz em latim culto, impedindo assim que os guardas entendessem. Vamos voltar à essa época, se assim continuar a coisa. Não duvidem.
E perguntem quem vai se danar...
Mas o que se passa na cabeça das pessoas quando cometem esses atos, digamos, bárbaros? Tanto a reforma ortográfica de 74, quanto a deliberação dos jornais de grafarem nomes próprios como bem entenderem, quanto o novo item do código penal, atualizado nesta segunda-feira?
Nada. Não se passa absolutamente nada. Pelo menos nada sensato. Não passando nada sensato é como se não se passasse coisa alguma. (observem a saudável e providencial referência ao pensamento de Górgias, quase meu ídolo, caso eu resolvesse ter um).
Sensatez não é exatamente uma qualidade das mais freqüentes e abundantes pelos brasis afora e fora deles também. O que acontece de debilidade mental, é assustador. Vou ser obrigada a contrariar Foucault quando bradava pelo fim dos hospitais psiquiátricos, e reiterar que deve-se apenas mudar a sua (deles) população. A sensatez que falta aqui fora, abunda lá dentro.
Ora, as pessoas acreditam naquilo que querem acreditar. Da utopia de grandes países e doutrinas políticas a amores. Cria-se uma imagem na cabeça e depois dela a convicção de que a imagem é real. Pode não ser palpável, pode jamais haver existido, mas está lá, na mente do seu criador (a). Cuba está aí, em escabrosas e tristes fotos, no Especial do Jornaleco e no entanto a maioria das pessoas não quer perder sua ilusão de que ela seja (ainda!) a Shangri-lá do Caribe. Sim, perder. Porque muito foi investido em cima dessas e outras ilusões. E muito será perdido com a imagem que agora escoa pelo ralo, uma vez que não se quis vê-la escoando pelo ralo desde o começo.
Este talvez seja o ponto: perder as ilusões e tudo que as circunda. O que seria esse “tudo”? Não sei especificar. Mas desconfio que seja alguma coisa extremamente útil e necessária à sobrevivência psíquica de quem o inventou. E dia-a-dia o alimenta, das mais variadas formas e com os mais variados nomes.
Da esfera de uma paixão platônica, cuja inviabilidade é absolutamente clara, mas que acredita-se existir, aos grandes impérios, vai o homem espalhando um pouco, (para ser filosófica e não usar termos pesados) de caos à sua estranha e artificial passagem. Dos pequenos caos passionais até aqueles que envolvem vidas, a diferença ocorre porque os primeiros não têm o poder dos segundos em mãos. Mas o dano existe sempre, em menor ou maior grau, material ou psicologicamente. Os pequenos stalins passionais também deliram como delirou o grande Stalin russo. Claro que os primeiros não possuem nenhum mecanismo físico e operacional para fazer com que a sua ilusão vire um realidade, como possuiu o segundo. Ainda bem. Um por continente já está pra lá da medida.
Como foi que eu cheguei até aqui? Qual foi a minha linha de pensamento? Por causa do bel-prazer.
O bel-prazer, esse substantivo que evoca uma morna tarde de outono, com uma dama vestida de branco, carregando uma sombrinha florida e olhando com ar ausente a cidade e os pássaros nas árvores. O bel-prazer, que fez com que tiranos dizimassem populações inteiras e suas respectivas culturas, vide o Tibete. O bel-prazer que fez com que se mudasse a língua arbitrariamente e agora....o bel-prazer...
Bom, deixa pra lá.