São Paulo, 01 de agosto de 2008

 


 

Carta à uma amiga que mora em Honolulu



Mécia Rodrigues

 

 

 

Querida Lucy:

 

Dia desses, a Sílvia Maria — lembra dela? — foi fazer um show e no camarim, estava também uma outra amiga dela que não me conhecia e olhando as fotos que eu ia fazendo, me perguntou: você é profissional? Dei um meio-sorriso ao dizer que não, porque na verdade, eu me acho muito profissional, à medida que sou absolutamente concentrada e absorvida pelo que faço, e à medida que antes de ser escritora e jornalista, eu fui também fotógrafa. Porque mesmo eu abandonei a fotografia? Não sei dizer. Em parte porque era custoso manter um estúdio e laboratório e em parte porque eu precisava escrever, e talvez eu soubesse que as duas coisas ao mesmo tempo, naquela época, seriam impossíveis. Já que eu começava a vida, digamos. E não se pode começar fazendo tudo ao mesmo tempo.


Sílvia Maria

Eu estava atrás de uma lente zeiss e me movia com cuidado para não atrapalhar a maquiagem da Sílvia e para ficar quase inexistente no camarim. Então essa amiga me perguntou se eu estudei fotografia. E eu disse que não. Não, formalmente. Eu comecei a fotografar quando fazia faculdade de cinema e tinha um professor de desenho, um italiano muito bonito chamado Luigi Zanotto, que exigia muito de mim. De nós todos. Mas eu era a única pessoa na classe que sequer sabia desenhar o contorno de uma maçã. E isso me fez estudar obsessivamente desenho geométrico, o que me dava uma relativa tranqüilidade na época das provas. Na matéria de artes gráficas, eu também me empenhei o máximo que pude. Somado à isso, eu vinha de um excelente curso secundário, onde havia estudado (também obsessivamente) física. Quando então peguei uma máquina fotográfica de verdade, uma leica m-3, eu já sabia muita coisa, sem saber que sabia. Porque fotografia não é feita a partir de uma máquina de primeira geração, de um equipamento fantástico. Fotografia é luz, é composição, é enquadramento correto. Mas, principalmente luz e composição. Um enquadramento incorreto pode ser consertado depois, mas o uso inadequado da luz não. Nem mesmo o melhor programa de computador resolve isso. A luz está aí, e não se pode mexer nela. Pode-se clarear ou escurecer uma foto. Pode-se entender a luz, absorver a luz. Mas tentar modificá-la, nem pensar. E aí você tem o ponto decisivo: o momento exato de se fazer um click.

Depois disso eu passei a observar o que fizeram os grandes fotógrafos. Observar mesmo: olhar para as fotos que tiraram. Três deles foram decisivos na minha vida: Dong Hong-Oai, Ansel Adams e Man Ray. Não sei porquê. Muitas coisas na minha vida, provavelmente as mais importantes, eu não sei com clareza o porquê delas. Por isso não me peça para definir o porquê desses três fotógrafos, eu não saberia, eu iria faltar com a verdade, tenho certeza.

Essa foi a minha “escola de fotografia”. Interiorizada, para ser correta. O que veio depois, foi apenas o aprendizado de como funciona uma máquina e um laboratório. O ponto de partida, o click eu já sabia onde deveria estar e como funcionava.

Na verdade, vejo isso agora, dou uma forma à essa interiorização agora, nesse momento, com este livro nas mãos, este que você me mandou com tanto carinho, que o carteiro das tardes de São Paulo acaba de me entregar.

Jamais abandonei a fotografia para ir escrever. Porque jamais deixei de fotografar. Apenas abandonei a idéia de ser uma fotógrafa profissional para ser apenas uma escritora e uma fotógrafa amadora. Isso me deixou mais livre para fazer besteiras, para pintar negativos, para ficar testando, à medida do possível, minhas pequenas possibilidades. O advento da fotografia digital trouxe de novo a paixão e a loucura dos meus 20 anos, contrapostas à pausa forçada, digamos, e eu me vi de novo, fotografando obsessivamente, e espalhando pelo meu escritório, cópias de fotos de Dong Hong-Oai. Estivesse eu fazendo o que quer que fosse, precisava de uma foto dele por perto. E quando empunhei pela primeira vez uma câmara digital, ela nunca mais saiu totalmente da frente do meu rosto. Na sua ausência, fica sempre a sua sombra.

Um dia, na internet, olhando fotos, eu dei de cara com uma de um campo de refugiados em Muascar, Jerusalém. A foto datava de 1959. Fiquei impressionada com aquilo. Era uma mulher parada na porta de uma casa, com uma expressão acuada, e um menino adiante dela uns cinco metros. O semblante do menino parecia trazer em si todas as espécies de emoções que um ser humano pode passar e carregar pela vida. Passei horas, horas do meio da madrugada, olhando para a foto. Então vi o nome do fotógrafo: Yul Brynner. Jules Brynner, nascido em Vladivostóki, que ganhou um Oscar interpretando o rei do Sião. Eu não acreditei. Mas era ele mesmo. Yul Brynner, aquele ator que eu acho lindo, que povoou minha cabeça infantil e adolescente de desejos inconfessáveis, foi também um grande fotógrafo? Foi. O próprio. E comecei então a descobrir o fotógrafo Yul.

Acabei achando um livro de fotografias dele, que eu queria porque queria, a qualquer preço. Não encontrei em São Paulo uma única livraria que tivesse. Até que eu chamei você e perguntei se aí, no Hawaii, seria possível encontrar. Você fez uma rápida busca e achou, no shopping do lado da sua casa. E comprou e me mandou. E eu acabo de receber. Dando uma rápida lida nele, antes de te escrever esta carta, percebi que Yul não era exatamente um fotógrafo amador, no sentido pejorativo do termo. Ele era um profissional que fotografava apaixonada e obssessivamente. E que teve elogios inclusive de Cartier Bresson.

Nem sei como agradecer o livro...Eu acho que o nordeste brasileiro, com aquele sol e todas aquelas pessoas hospitaleiras circulando na rua, mais os pores-de-sol de Honolulu, que tantas vezes você me contou como são, moldaram um pouco esse seu jeito desprendido e afetusoso. Acho também que, sensível e romântica, delicada e forte, você intuiu sem que eu precisasse dizer, o quanto esse livro é importante para mim. O próximo, que, como este, virá pelo correio da tarde, eu quero que seja o seu, um livro de crônicas sobre o Hawaii, que você tanto tem prometido escrever. Até vou economizar algum dinheiro para ir até aí fazer a foto da capa.

 


Lucy em Honolulu fazendo uma foto

 

 

 



Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco