São Paulo, 01 de maio de 2012
O subterfúgio
— Para Cristiano Gamba, que me emprestou um livro
quando a coisa estava complicada —
Contrabandeei cigarros e calmantes para o hospital. Que fica no meio do quarteirão, em frente ao que fôra, um dia, uma alameda de plátanos com chafariz e bancos de madeira.
E dos plátanos, velhas folhas esfareladas, perdidas, ainda colam-se à vidraça: é outono, é abril. O vidro fica dourado e cheio de pólen: Etta James. Em algum lugar, a capa do cd mistery lady. Uma orquídea. Acho que também a ouço, enquanto a noite se aproxima e as folhas dão lugar a um prédio com janelas roxas.
Não longe daqui ideogramas vermelhos e uma xícara de chá abaixo da linha dos olhos. Com raízes vermelhas e folhas verde-escuro. Longos parágrafos de novelas de Osman Lins e verbetes do Receituário Homeopático de John Clark, cuja capa está descolorida pelo sol. Pedras de marfim batendo nos tabuleiros de ma johng. Um bloco de laca esculpido com a palavra DOR no seu centro. Uma brecada incorreta em alguma esquina.
Eu ainda devo acordar alguns dias, os próximos, devagar, pisando o assoalho frio e jogando a camisola no sofá – o nariz colado na janela lacrada do corredor do 8º andar e perguntar: como foi mesmo que eu vim parar aqui?
2
Minha última lembrança tem a data imprecisa do fim de tarde de uma quinta-feira, calça bege de sarja e camiseta estampada, percorrendo com as mãos as prateleiras da Casa do Artista, próxima à Amaral Gurgel: ao fim, 4 lápis 3B, austríacos, Etta James naquele cd que tem uma orquídea na capa e canson de várias gramaturas. A rua que descia deserta e irreversível a meus pés. Olhei para a frente, para os 45 andares do edifício Itália e perguntei: onde está minha casa? Com seu ar de provisoriedade, dispersão e anarquia. A sala muito grande, a heterogeneidade das estantes que refletem, além de livros, arquivos desarrumados de uma busca enigmática.
Onde um cão castanho se estende aflito e sombrio sobre a minha ausência e um brinco de pérola adormece numa caixa, que tem na tampa uma réplica de um quadro de Veermer. Onde os séculos se estendem sobre as cobertas sussurrando e sugerindo nomes para as coisas que não conheço, mas sei que existam.
O que eu via naquela quinta-feira era a permanência da cidade, apesar de suas mutações extremas, rápidas, sua cartografia navegando pelo nevoeiro quase escondido das minhas lagrimas ácidas. Sua irresoluta conceituação física riscando e esquadrinhando cada difícil momento de batimento cardíaco que não pode ser anotado. Aqueles viadutos de inércia e fuligem, de paredes chamuscadas e aranhas pegajosas.
3
O que foi que me trouxe aqui, que me fez contrabandear cigarros e calmantes em sacos vermelhos? Calmantes que se dissolvem com rapidez na língua e janelas que apenas espelham a minha camiseta pintada a mão – o perigoso ano do dragão de água? Talvez algumas reminiscências não muito corretas, algumas embalagens a vácuo, algumas espátulas oxidadas. Compostos binários, silícios e toda sorte de semi-condutores.
Então eu me lembro de Molokai. E Molokai é uma carta escrita com tinta vulcânica, cheia de manchas de batom e alcatrão, com uma caligrafia gótica. No envelope, o selo comemorativo: Lili'uokalani, a última princesa, aquela que chorou ao chegar à ilha. A história do tempo, perpendicular aos plátanos, escorrendo pelo fio da minha navalha, contrabandeada e escondida tanto quanto os cigarros e calmantes. Com ela abro o envelope, sem fazer nenhum rasgo. E a crueza do contraste entre o vidro lacrado e o pólen das folhas dos plátanos que se foram, me fazem morder os lábios: como foi que, a despeito da minha resistência, eu vim parar aqui? Dobro a carta e ponho-a dentro do livro que me foi emprestado. Com capa de dragão.
4
Sem esperar, sem estar preparada para o retorno do pêndulo — no dizer de Hanneman —, à página 303, dou as costas às imagens esfumaçadas de uma outra vidraça. Aquela noite daquela quinta-feira fiquei contente com o resultado dos lápis austríacos no papel. Com eles fiz um desenho de bambus, garças e ameixeiras que refletiu minhas retinas e iluminou alguns becos ao redor da lua – o ano do dragão de água.
Aí vieram as pomadas, os ungüentos, as poções. Os venenos, as resinas, o látex. A dança das mariposas e meretrizes. As noite tépidas e pérfidas que me encontram, neste momento, no corredor: mistery lady & orquídeas.
Reviso o inventário das minhas vicissitudes, que me põe definitivamente fora do jogo: o faro e os dentes do meu cão castanho, o mapa do mercado de flores-de-lis e águas-vivas, o barômetro de mercúrio que não me deixaria lê-lo erroneamente se solicitasse a pressão atmosférica, e a demarcação das fronteiras entre cidades e ilhas. Porque, à esta hora, já não escurece mais em Estocolmo e isso me dá um novo alento para descer as escadas e voltar para casa.
Posto isso, resta então descobrir onde fica a porta de saída.