São Paulo, 14 de fevereiro de 2005
Lanny Gordin
(por Guilherme Held)
(Guilherme Held toca com Lanny no Projeto Alpha e, desde que mudou para São Paulo, passou a dividir com ele o mesmo apartamento. Não à-toa a ligação deles é bastante próxima desde o começo do trabalho e não à-toa nasceram no mesmo dia, com um intervalo de 27 anos.)
Conheci o Lanny faz 5 anos, mais ou menos. Antes disso eu já tinha ouvido gravações dele, da década de 70, com o Caetano, Gil, Gal e tantos outros. Nem sabia que era ele tocando. Mas quando ouvi pela primeira vez, o disco de Jards Macalé, Farinha do Desprezo (72), fiquei impressionado com o que estava ouvindo. Era muito parecido com o que eu gostava de tocar e escutar. Aí descobri que era o Lanny. Um ano depois, me encontrei com ele em Araçatuba, quando eu ainda morava lá. Quando eu o ouvi tocando, senti que ele estava em uma fase muito mais madura, com um conhecimento harmônico que eu nunca tinha ouvido nas gravações anteriores, onde ele tocava rock, tudo muito ligado ao rock. Deparei-me então com um Lanny jazzístico, em uma linguagem onde ele trabalha com acordes e blocos de uma maneira totalmente original, que nunca ouvi ninguém fazer, ao ponto de desafinar a guitarra toda e tocar bossa-nova com chord-mellody, com tudo dentro (inside). Como aparece na gravação que a gente fez no Sesc Paulista. O Lanny nunca me explicava nada, ele apenas tocava e eu olhava o que ele fazia. Então eu tive um amadurecimento harmônico muito grande na guitarra e comecei a pesquisar os acordes que eu via ele fazendo e comecei a formar seqüências de acordes e aí eu desvendei essa “forma geométrica”. Você pega uma acorde, nomeia-o de A, depois outro e nomeia esse outro de B, e assim faz uma seqüência e monta uma simetria entre um acorde e outro. Por exemplo: A semitom, B semitom, e começa de novo. A geometria junto com as distâncias entre os blocos se repetem formando a simetria. Isso funciona em concepção outside. Se for pensar na concepção inside é preciso respeitar os campos harmônicos que forem seguidos pela música. Isso o Lanny faz, e nunca vi ninguém fazer. Sei que, ouvindo vários discos da década de 70, é fácil perceber que ele influenciou toda aquela geração. Como influencia, hoje, a geração que está com 20 anos. O maestro Rogério Duprat contou em uma entrevista que, naquela época, quando o pessoal entrava em um estúdio para gravar, a única pessoa que podia fazer o que bem quisesse era o Lanny, tamanha a criatividade dele. Não sei dizer a importância do Lanny na música, mas sei que é muito maior do que me passa pela cabeça.