São Paulo, 14 de fevereiro de 2005
Lanny Gordin
Entrevista
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(Textos, entrevista e fotos: Mécia Rodrigues.Proibida a reprodução total ou parcial da matéria e fotos sem permissão da autora. Lei Federal nº 9.610/98)
O que separou da sua guitarra o garoto que, como eu, e freqüentemente comigo, ouvia os Beatles, Rita Pavone e Yardbirds? que amava Wes Montgmery? Qual guerra, qual carta, qual Vietnam? O que o chamou em outro país e para onde o levou? Nada. Nada separou o garoto que amava Wes da sua guitarra, apesar das aparências em contrário. Porque os predestinados, apesar de carregarem em sua predestinação uma carga cármica pesada, conseguem destroçar, todos os longos & loucos infernos que se formam à volta deles. O que os privilegia às vezes também os enlouquece. Ou, para o mundo que pouco compreende a sua genialidade, parece que enlouquece. Lanny subiu cedo ao palco e dele desceu também cedo. Mas trazia dentro de si outras coisas além das que ouvíamos pelas noites de São Paulo, quando o seu primeiro acorde acendia a cidade. Por isso sua alma ia continuar intacta, não importa pelo que tivesse de passar. Não ia parar no meio do caminho, mesmo que a sua episódica ausência parecesse apontar para isso. Ao contrário de tantos que com ele começaram, e acabaram numa lamentável, vendável e rentável mediocridade. Não existe nada em música que ele não dê uma nova roupagem e não transforme em uma outra coisa, paralela, e tão, ou mais brilhante do que a original. Lanny, em oposição à maioria dos seus contemporâneos, chega até hoje, fevereiro de 2005, com toda a sua genialidade musical e retidão de caráter intactas. E ainda é o mesmo garoto que ama Wes Montgomery, Yardbirds, ouve Rita Pavone, veste uma jaqueta jeans e uma calça délavé. Cabelos longos não usa mais, mas empunha a sua guitarra como quem empunha uma estrela para iluminar o escuro e a cidade. E ilumina.
Lanny é alto, bem alto, magro, discreto, falante e absolutamente simpático. Nasceu na China, em Xangai, dia 28 de novembro de 1951. Nada nele parece mostrar que é um dos cinco maiores guitarristas do mundo, segundo as palavra do maestro Rogério Duprat. Mora em São Paulo, na Vila Mariana.
Mécia: Lanny, como foi sua infância?
Lanny: Eu nasci em Xangai. Meu pai era filho de russos, nascido na China, e minha mãe era polonesa, também nascida na China. Meus avós, que eram russos e poloneses, resolveram mudar pra China, porque eles gostavam muito da cultura, da sabedoria oriental. Então meus pais nasceram lá e eu também. Com dois anos, mudamos para Israel, para Tel-Aviv. O ambiente político na China já não estava muito favorável para se viver, já estava um clima estranho no ar. Em Tel-Aviv eu vivi quatro anos. Ainda me lembro de uma árvore que havia na casa dos meus avós, uma árvore muito grande, eu costumava ficar me balançando nos galhos dela e o vento soprando no meu rosto. Foi aí, depois de quatro anos em Tel-Aviv, que nós viemos para o Brasil. Primeiro para o Rio de Janeiro, onde ficamos uns três ou quatro anos, e depois para São Paulo, onde eu estou até hoje.Mécia: O que você ouvia de música em Israel?
Lanny: Tudo. Desde músicas regionais à musicas puramente comerciais. E, por ser filho de músico, por vir de uma família ligada à música, —meu pai era pianista— eu ouvia de tudo. Quando eu era pequeno, minha avó me ensinou piano clássico. Então eu tocava Chopin, Mozart. Mas o piano não era o meu instrumento. Aqui no Brasil, é que eu comecei a tocar violão e depois guitarra e depois baixo elétrico.Mécia: Qual foi a primeira língua que você falou?
Lanny: Foi chinês. Depois russo, que era a língua que se falava em casa. E inglês. Claro que em Israel eu acabei aprendendo um pouco de hebraico também. Só que nunca mais voltei a falar chinês e hebraico, o que quer dizer que devo ter esquecido boa parte do que aprendi. E português, eu vim a aprender com seis anos de idade, no Rio de Janeiro.Mécia: O seu pai tinha algum motivo especial pra vir para o Brasil?
Lanny: Não, ele apenas achava que o Brasil devia ser um paraíso. E viemos.Mécia: O seu pai era pianista?
Lanny: Era. Pianista, era tecladista. Ele começou a tocar profissionalmente na China, nos cabarés de Xangai. Em Israel ele tocou em vários conjuntos mais comerciais, que tocavam em boites, bares. Aí quando nós viemos pro Brasil, pro Rio, meu pai gravou gravou dois discos com um baterista que era também sócio dele, um romeno chamado Hugo Landwer. Um desses discos se chama: Dois Americanos no Rio. O nome acabou sendo esse, porque os dois, meu pai e o Hugo, sempre se comunicavam em inglês. Era um disco de músicas comerciais, standards norte-americanos. Em São Paulo, meu pai abriu a boite Stardust, na Praça Roosevelt. Para quem não conhece São Paulo, a praça Roosevelt fica no centro da cidade, e na década de 60 não havia ainda virado o pedaço enorme de concreto que é hoje, e era um reduto das melhores boites da época.Mécia: Aqui em São Paulo, vocês foram morar aonde?
Lanny: Na rua Bento Freitas, em Santa Cecília, depois mudamos para a Marquês de Itu, bem próximo à Bento Freitas. E eu fui estudar no Mackenzie. Eu tinha então nove ou dez anos.Mécia: Nessa época você já tinha noção de que um dia seria um grande guitarrista?
Lanny: Não, nem pensar. Eu gostava muito de música. E meu pai, observando essa minha inclinação, dizia assim: Lanny, você vai ser músico.
Mécia: E seu contacto com a guitarra começou quando?
Lanny: Primeiro eu comecei a tocar violão. Como eu disse, eu tocava um pouco de piano clássico, que minha avó havia me ensinado. Aí meu pai me deu meu primeiro violão, quando eu tinha treze anos de idade. E eu saí tocando meus primeiros acordes.Mécia: E quando você pôs a mão numa guitarra a primeira vez, como foi?
Lanny: Foi muito fácil porque eu já tinha a base do violão, era só pôr o amplificador na tomada e tocar que o som em vez de ser acústico, era amplificado. E depois eu comecei a tocar contrabaixo nos bares com o conjunto que eu tinha, o The Cats. Quando eu peguei um contrabaixo elétrico pela primeira vez, eu já tocava guitarra, aí a primeira nota que eu dei eu já acertei tudo, porque o contrabaixo elétrico tem as mesmas 4 notas (de cima para baixo) da guitarra. Mi, lá, ré, sol. O Eli Arcoverde quando me ouviu tocar ficou impressionado.Mécia: E você aprendeu sozinho?
Lanny: A maior parte do que eu sei sim. Eu tirava músicas de discos, de gravações. Eu sempre fui autodidata, nunca tive um método convencional de estudo. Mas, claro, tive professores. Quero dizer com isso, que muitas pessoas me ensinaram muita coisa. Uma dessas pessoas foi o guitarrista Aires, outra foi o Heraldo do Monte, que trabalhava no Stardust. O Heraldo me viu tocar, me chamou e me disse: “você precisa aprender algumas escalas, algumas frases, eu vou te ensinar”. Fiquei profundamente agradecido. Aprendi muita coisa com o Heraldo.Mécia: Como foi o começo no Stardust?
Lanny: A idéia de tocar no Stardust foi do meu pai. A primeira vez eu cheguei lá muito nervoso, bem tenso. Aí eu errei tudo, não toquei nada e fiz uma baita barulheira, ainda bem que tinha pouca gente, era uma segunda-feira. Eu devo ter acertado uns 10 acordes a noite toda. Eu tinha 13 anos de idade. Meu pai riu e disse que era assim mesmo no começo. A segunda vez eu já acertei tudo, porque eu fiquei tão puto por ter errado que comecei a estudar sem parar, durante a semana toda, até a outra segunda-feira. Na segunda vez eu fui confiante. E era o meu pai que havia me passado esses primeiros acordes. Aí ele ficou impressionado e disse assim: o que você fez? E eu respondi assim: estudei a semana inteira sem parar. Aí eu fui contratado pelo meu pai. Já comecei a ganhar pelo meu trabalho. No começo eu só tocava às segundas-feiras. Depois de uns quatro, cinco meses, passei a tocar umas cinco vezes por semana.Mécia: Foi aí então que você começou a tocar mesmo?
Lanny: Foi. Comecei a tocar, mas meu pai não queria que eu improvisasse, que era o que eu gostava. Ele queria que eu tocasse músicas standards. Ele dizia assim: “Lanny, pelo amor de Deus, toca a melodia, pro público ouvir a melodia”. Claro, o Stardust era uma boite dançante. Mas quando ele saía, eu começava a improvisar. Aí todo mundo parava de dançar e ficava olhando para mim. Mas gostando. Como se perguntassem: “mas quem é esse guitarrista”? Aí o meu pai voltava: “Lanny, o que foi que eu falei?” E lá ia eu...Mécia: Foi quando você começou a tocar com o Hermeto?
Lanny: Um ano depois de eu ter começado, o Hermeto foi contratado. Ele havia chegado de Lagoa da Canoa, em Alagoas, ele estava vindo do nordeste pra procurar trabalho aqui em São Paulo. O Stardust foi a primeira boite que ele entrou para procurar trabalho. Depois de ouvir quatro compassos que ele tocou no piano, o meu pai já o contratou. E aí comecei a tocar junto com o Hermeto. Ele era muito humilde, muito calmo, falava muito pouco. Começou a me dar uns toques da harmonia que ele usava, como frases e acordes musicais. Ele ficou muito impressionado com o meu talento. Ele sempre falava: “esse menino, com a essência da música que tem na alma, no futuro vai ser genial”.Mécia: O Heraldo do Monte também tocava lá, não é?
Lanny: O Heraldo do Monte já trabalhava lá, antes de eu entrar. Ele tocava de terça a sábado. O Heraldo me adorou. Ele falou assim: “eu vou ter muito prazer em ensinar essa menino que tem muito talento”. Aí ele me ensinou progressões de blues, frase jazzísticas, músicas dele, temas que ele tocava. E o Heraldo acabou saindo do Stardust por causa dos outros compromissos. O Hermeto continuou.
Mécia: Você começou tocando rock?
Lanny: Isso mesmo. Quando eu estava começando, no Stardust, o tecladista da Wanderléia foi lá uma noite e me chamou pra tocar com eles. Mas, perceba que eu era muito jovem, gostava de tocar alto, de inventar coisas, eu era roqueiro, fazia barulho. Uma vez em um show com a Wanderléia e o conjunto dela Os Wandecos, eu aumentei o volume da guitarra ao máximo. Aí alguém na platéia reclamou da barulheira e pediu pra abaixar o som. É claro que acabou a minha participação no conjunto. No dia seguinte eu fui despedido dos Wandecos porque estava tocando muito alto. Mas, enfim, eu não me incomodava. Eu tocava no Stardust, nunca deixei de tocar no Stardust. No dia seguinte voltava pro palco do Stardust e tocava como eu queria.Mécia: O seu primeiro show?
Lanny: O primeiro show foi com os Beatnicks, a gente fazia as domingueiras em clubes. A turma dos Beatnicks ouviu falar de mim, e foi ao Stardust pra me ouvir. Passei a fazer parte dos Beatnicks. A gente tocava músicas do Cream, Hendrix, Creedence.Mécia: Vocês não tocavam Paul Anka, Neil Sedaka?
Lanny: Não. O Neil Sedaka tocava muito bem piano, e nós gostávamos dele, mas o repertório do conjunto era mais heavy, embora o termo “heavy” não existisse na época.Mécia: E ai você ficou tocando com os Beatnicks e no Stardust?
Lanny: É. Eu toquei com os Beatnicks durante dois anos, quebrando tudo. Quando a gente começava a tocar, a molecada adorava. Achava o nosso som rock puro.Mécia: Você gravou um disco antológico com o Hermeto, o Heraldo, chamado Brazilian Octopus. Fale um pouco dele.
Lanny: Era um conjunto que, na verdade, foi uma invenção do Lívio Rangan, que era quem produzia os shows da Rodhia naquela época. Foi em 1968, o Lívio achou que a gente estava lá tocando no show da Rhodia, precisava de um nome e aí surgiu o Brazilian Octopus. Gravamos o disco, que tinha arranjos do maestro Chiquinho de Morais.Mécia: E porque o Brazilian octopus não continuou?
Lanny: Porque ele foi estruturado pra tocar no show da Rodhia, e a medida que cada empresário via o trabalho de cada músico, foi contratando um por um. Eu e o Hermeto voltamos pro Stardust. O Heraldo já tinha saído fazia tempo. Eles acabaram formando o Quarteto Novo com o Theo de Barros, mas o Hermeto continuava no Stardust.Mécia: Foi nessa época que você conheceu o Sérgio Dias, dos Mutantes?
Lanny: Foi. Um amigo meu, um guitarrista chamado Pitoco, me chamou pra me apresentar ao Sérgio Dias. Então fomos à casa dele, na Pompéia, e ficamos amigos. A turma lá da Pompéia chamava o Serginho do “rei da técnica”, e eu era o “rei da harmonia”. Ele fazia cem notas por segundo e eu fazia cem acordes por segundo. Depois de um tempo eu fui apresentado para o Gilberto Gil pelo Tony Osanah, que era o vocalista dos Beach Boys. Aí o pessoal todo da Tropicália gostou muito do meu som e passou a me convidar para tocar com eles. Eu era muito elétrico, toquei com um monte de gente. A Elis Regina, por causa da minha “eletricidade” me chamava de Lanny Ray-O-Vac.
Mécia: Isso foi na década de 60. No final dela e na metade da década de 70 você foi tocar com o pessoal da tropicália?
Lanny: Fui. Gravei boa parte dos discos da época, fiz arranjos em vários, direção musical de shows e discos. Mas tem um detalhe: eu não fui só o tropicalista Lanny, o guitarrista da tropicália. Eu também fui o guitarrista da tropicália. Porque eu tenho uma visão mais abrangente e universal da música. Eu sempre toquei tudo. Sempre vou tocar. Minha preocupação é com a qualidade da música e não com gênero musical. Eu não tenho regras, não tenho fronteiras. Nunca tive isso.Mécia: você era muito jovem quando começou a fazer arranjos, não foi?
Lanny: Foi. Eu tinho 18, 19, 20 anos. Fiz arranjo para vários discos da Gal, incluindo o Gal a Todo Vapor, pro Gil, pro Caetano, pro Tim Maia, pro Eduardo Araújo.Mécia: Pra Elis?
Lanny: Nunca gravei com a Elis, mas toquei com ela em uma temporada em uma boite do Rio.Mécia: O que te deu mais prazer fazer nessa época?
Lanny: Não existe nada que tenha me dado mais ou menos prazer. Todo o meu trabalho foi diferente. Eu me lapidava a cada trabalho, a cada momento. Mas já tinha a minha marca tocando.Mécia: Não havia então nenhuma música favorita?
Lanny: Havia uma que eu gostava demais de tocar que era Pérola Negra. Está nesse disco Gal a Todo Vapor e é uma composição do Macalé.Mécia: você também fez os arranjos e direção musical desse show?
Lanny: Também. E do disco.Mécia: Das cantoras com as quais você não gravou, com quem você gostaria de ter gravado?
Lanny: Ella Fitzgerald, Julie London, Sarah Vaughan, Billie Holliday.Mécia: Você tocou com o contrabaixista da Sara Vaughan e com o Chick Corea, não foi?
Lanny: Foi. Quando o Chick Corea veio ao Brasil com o conjunto dele Return to Forever, ele foi no bar onde eu estava tocando, no Flag, lá na Faria Lima, e fizemos uma jam. Aí o Chick Corea me chamou de Mr. Melody. Foi assim: “Lanny, I love your music. The guitar player Mr. Melody. Congratulations, Lanny”. Amei, adorei tocar com o Chick Corea. Achei fabuloso. Espetacular. Depois toquei com o contrabaixista da Sarah Vaughan, chamado Gene Perla, lá no Number One, no Rio de Janeiro. E foi muito interessante aquela noite: eu toquei baixo elétrico e o Gene Perla tocou piano acústico.Mécia: E cantores, com quem você gostaria de ter tocado?
Lanny: Com Al Jarreau.Mécia: João Gilberto?
Lanny: É um gênio. Eu sempre ficava na minha, tocando. Ele dizia que eu fazia acordes demais. Nós fizemos uma gravação na televisão, com a Gal Costa, onde o João tocava uma harmonia e eu tocava outra completamente diferente. Eu tinha isso de fazer acordes muito fora, que não cabiam na harmonia arranjada. Mas era uma coisa de quem tem 19, 20 anos. Claro que hoje, eu tenho um outro estilo, muito diferente, muito mais amadurecido.
Mécia: você também abriu o show do Ravi Shankar no Rio, não foi?
Lanny: Foi. Eu toquei Emerson, Lake & Palmer naquele dia. E até fiz uma brincadeira com a platéia, pedindo a quem não gostou que ficasse do lado esquerdo e quem gostou do lado direito. Foi uma coisa meio confusa, eu comecei a rir e dei um grito e aí todo mundo aplaudiu. Agora, o Ravi Shankar tocando é uma coisa muito séria. Ele já atingiu a cor branca na música. Você sabe que as notas têm uma cor não é?Mécia: Não, Lanny, eu não sabia.
(aqui Lanny toca as notas com as suas respectivas cores)
Mécia: então você sumiu por uns tempos?
Lanny: não sei se “sumir” é o verbo correto. Eu tive uma série de problemas pessoais, que fizeram com que eu não ficasse em tanta evidência, como estava na época da tropicália. Mas isso não quer dizer que tenha parado de tocar. Pelo contrário.Mécia: O que mudou na sua maneira de tocar hoje, se comparado à década de 70 ?
Lanny: Muita coisa. Antes eu era mais estrela, estava muito preocupado em aparecer, tocava com mais ansiedade, e também tocava outro tipo de música. Não que eu renegue alguma coisa que toquei, mas hoje eu toco a mesma música de uma forma diferente. Mais amadurecida. Anitgamente eu era mais roqueiro, mais técnico. Hoje o meu som está mais lapidado, mais novo, mais genial. E também, agora eu estou compondo. Estou um pouco mais introspectivo. Musicalmente falando, é claro.Mécia: mas você também compunha antes. Há uma música no disco Araçá Azul do Caetano que é dele e sua não é?
Lanny: Sim, chama-se "De Cara". E além dela, ainda muito novo, eu compus Pássaro e I didn’t know that you love me. A primeira gravação de Pássaro foi feita ainda com o Brazilian Octopus. Mas agora estou mais maduro.Mécia: Lanny, vc é considerado um dos cinco maiores guitarristas do mundo.
Lanny: Não, isso de maior guitarrista do mundo, não existe. Existe relativamente, claro. Pro leigo pode ser que sim. Não é possível nem a mim, nem a ninguém, ser classificado como “melhor”. Eu tenho de ter suficiente autocrítica e humildade pra saber que não sou. Para saber que isso é impossível. Eu sou bom, eu toco pra caramba, eu tenho um grande talento. Mas... melhor?
Mécia: Você tem ouvido absoluto Lanny?
Lanny: Não, eu tenho ouvido relativo. Ou seja, quando eu ouço uma nota como base, eu distingo as outras notas. Quem tem ouvido absoluto é Hermeto Paschoal.Mécia: Vindo de uma família que foi para a China em busca da sua cultura, da sua filosofia, e convivendo com uma época de grandes transformações, você teve alguma preocupação espiritual?
Lanny: Tive, claro, ainda tenho.Mécia: E como é essa preocupação espiritual?
Lanny: É ser um homem de verdade. Sem ligação com nenhuma religião, apenas ligado e atento à filosofia oriental. Que era uma coisa da minha casa, da minha época.Mécia: Você gravou pouco nos anos 80 e 90 e vem agora com todo fôlego?
Lanny: Sim, mas nunca parei de gravar. Gravei com Itamar Assunpção, Vange Milliet, Chico César.
Mécia: Aliás, o Chico César fez uma música para você, não é?
Lanny: Fez. Chama-se "Lanny qual?" e além dele, a Vange também gravou.Mécia: primeiro me fale desse seu disco solo que saiu há quatro anos.
Lanny: É do selo Baratos Afins, com produção do Luiz Calanca. Todas as músicas são minhas. No começo eu estava assim...meio relutante em gravar, e o Luiz me chamou na casa dele, e começou a gravar, em que eu soubesse que seria depois o meu primeiro disco solo. Eu gravei as duas guitarras e baixo elétrico. Gravei todos os instrumentos. Os estilos são variados, mas todas as musicas são muito harmoniosas.Mécia: E esses dois, são com o Projeto Alpha? Como começou o Projeto Alpha?
Lanny: Estes dois cds foram gravados com o Projeto Alpha, que começou há uns 4 anos atrás, quando eu conheci o Zé Aurélio em um show aqui em São Paulo e posteriormente o Guilherme Held. Ele tocava em uma banda chamada Domínio Público. Eu adorei o Guilherme como pessoa, como guitarrista e então ficamos muito amigos. A banda que, diga-se de passagem, foi montada pelo Guilherme é um quarteto, duas guitarras, a minha e a do Gui, baixo acústico, baixo elétrico que o Fábio Sá toca, e timbatera que o Zé Aurélio toca. Eu sinto que nós fizemos um trabalho muito original, muito criativo, onde eu me solto bastante, no meu novo estio que é muita criação na hora. Nos anos 70 eu me preocupava mais com técnica, atualmente eu me preocupo com música pura.Mécia: Como você gosta de trabalhar a harmonia?
Lanny: Eu trabalho em quarta, quinta diminuta, sexta, nona menor, nona aumentada, décima terceira menor. Basicamente é isso.Mécia: Isso que você faz nessa música "O Cuco"...é uma afinação diferente?
Lanny: Eu faço o solo. Isso é afinação em comas. A afinação do Oriente. O Ravi Shankar fazia isso. Eu desafino a guitarra inteira e toco. E quando eu toco, eu me transformo em música, eu me transformo naquilo que estou tocando.Mécia: É uma parte sua?
Lanny: Não, não é uma parte. É uma transformação. Eu sou a música. Quando eu toco, já flui. Já é música.