São Paulo, 22 de novembro de 2004

Mídia canoniza Nobel terrorista

 

 

Janer Cristaldo

 

 

 

Se alguém ainda acha que o terrorismo teve suas ações em baixa após o 11 de setembro, melhor dar uma olhadela nos jornais da semana passada. Não só no Brasil, como na América Latina e na imprensa internacional, particularmente a européia, o fundador das organizações terroristas Al-Fatah e Organização para a Libertação da Palestina (OLP), recebeu, por ocasião de sua morte, simpatia e homenagens raramente concedidas a chefes de Estado que têm as mãos limpas de qualquer sangue.

Responsável pelo bárbaro massacre dos atletas israelenses nas Olimpíadas de 1972 em Munique, pela morte de milhares de cidadãos inocentes em Israel, pelo assassinato em massa de cristãos no Líbano, pela morte de uma centena de cidadãos norte-americanos, entre eles dois diplomatas, pelo assassinato de um número desconhecido de árabes e patrocinador de seqüestros de aviões, Mohammad Abdel Rauf Arafat al-Qudwa al-Husseini, mais conhecido como Yasser Arafat, morreu na semana passada em odor de santidade. A imprensa francesa, incondicional defensora dos direitos humanos, prestou-lhes todas honras, desde os politicamente corretos Le Monde e Libération ao sóbrio Le Figaro. O Le Monde sequer se furta a uma terna homenagem de capa, sob a pena do chargista Plantu.

Corrupto até os ossos, o terrorista egípcio – que sequer era palestino – tem oculta nos bancos e empresas do Ocidente uma fortuna avaliada, por baixo, entre 300 e 700 milhões de dólares. Por cima, em três e cinco bilhões de dólares, conforme acusava um dos ex-ministros de Finanças da OLP, Yawid al-Gussein, em declarações à Associated Press. Para a revista Forbes, Arafat está em sexto lugar, em uma lista publicada ano passado dos reis, rainhas e déspotas mais ricos do mundo. Este currículo, de fazer roer as unhas de inveja a um amador como Paulo Maluf, parece tê-lo recomendado vivamente a Oslo, que em 1994 concedeu-lhe o prêmio Nobel da Paz. Esta fortuna, evidentemente, não terá sido subtraída ao território miserável da Palestina, cujo orçamento sequer chegaria a tanto, mas das doações internacionais, árabes e ocidentais, à causa palestina.

Arafat, terrorista que começou carreira financiado pela KGB, recebe hoje honras de chefe de Estado, de um Estado que oficialmente até hoje não existe. A imprensa brasileira dedicou-lhe cadernos especiais, que nenhum Pol Pot ou Ceaucescu mereceu. (Falo nestes dois senhores porque afinal pertenciam à mesma estirpe). “A morte de um símbolo”, titula o Estadão. Logo adiante: “O pai do nacionalismo palestino”. A Folha de São Paulo não ficou atrás. Na primeira página: “Morre Arafat, ícone palestino”. No caderno Mundo: “Palestina órfã”. Na última página deste caderno, aventa uma outra hipótese: “Terrorista e mártir”. Terrorista, sim, disto todos sabemos.

Mas mártir por quê? Mártir é quem morre lutando por algo. Arafat morreu num hospital, e até ainda hoje não sabemos de quê. Considerando-se que uma equipe de alto nível de médicos franceses tem de saber necessariamente de que enfermidade morreu o paciente, só pode-se entender a indefinição da causa mortis como exigência de parentes ou palestinos. Fica no ar a pergunta: maladie honteuse? Se os palestinos quiserem exorcizar esta hipótese, que digam logo de que mal sofria seu líder.

A mídia americana já não foi tão gentil. O National Rewiew Online comentou a morte do “terrorista favorito da ONU”. O New York Times, os bilhões escondidos pelo terrorista egípcio nos bancos do mundo todo. E o Boston Globe dispensou eufemismos: “Arafat, o monstro”. Se você quiser uma pequena lista das atrocidades cometidas pelo novel mártir, dê uma olhadela no artigo de Carlos Reis, neste jornal.

“Deus abençoe sua alma” – disse George W. Bush, ao tomar conhecimento de sua morte, um pouco antecipadamente, é verdade. A morte é linda. Em março de 2001, o mesmo Bush acusava Arafat de incentivar a violência. Em junho de 2002, o presidente americano fazia da saída de Arafat a condição sine qua non para a proclamação de um Estado palestino. Hoje pede a Deus proteção por sua alma. Mas a qual deus pede Bush bênçãos ao terrorista? – seria questão de perguntarmos. Ao Jeová dos judeus, cujos crentes foram massacrados pelo terror de Arafat? Ao Deus dos cristãos, que foram assassinados aos magotes por Arafat no Líbano, e tiveram suas aldeias destruídas e igrejas queimadas? Ou ao Deus dos árabes, que tampouco foram poupados por Arafat?

O governo petista, que porta o mesmo DNA da OLP, não poderia furtar-se a enviar uma representação às exéquias do terrorista egípcio. Para tanto, enviou ao Cairo um de seus pares, o ministro José Dirceu, mais alguns acólitos. Por sorte chegaram tarde à cerimônia, que isso de chorar defunto pode ser catártico para os mais próximos, mas sempre é chato para os mais distantes. Mas a viagem valeu, se valeu. Em falta de defunto, as carpideiras oficiais fizeram uma visita a Gizé, questão de tirar fotos junto às pirâmides montados em camelos e com turbantes, para ornar suas insignes biografias. Tudo isso com dinheiro do contribuinte, afinal guerrilheiro brasileiro jamais seria tão pródigo a ponto de tirar dinheiro de seu bolso para ir ao velório de um colega.

Estes “mártires” que hoje se explodem para ganhar quarenta virgens no paraíso, matando inocentes até onde seus explosivos alcançam, são jovens pobres treinados por Arafat, nos anos 70, quando ainda eram meninos. A ignorância é tal que um dos fanáticos, aprisionado pelo Exercito israelita antes de explodir-se, levava o pênis envolto em papel higiênico. O herói pretendia assim preservar o precioso membro da explosão, para bem usufruir os hímens das quarenta huris.

Explorando o analfabetismo dos palestinos, o ressentimento dos árabes e a mauvaise conscience do Ocidente, o terrorista egípcio virou pai dos palestinos, abiscoitou o Nobel e bilhões de dólares, e a louvação quase unânime da imprensa internacional. O século dos grandes assassinos – aqueles que só se contentavam com cifras de mais sete dígitos de vítimas – transfigurados em heróis, parece ter passado. Em falta de bons genocidas, o recém-nascido século XXI começa endeusando assassinos menores que, talvez pela falta de instrumentos, matam apenas milhares.

Já podemos imaginar os funerais de Castro e os louvores do Ocidente todo. E bin Laden, se ainda estiver vivo – o que me parece improvável – não merecerá menos. Mesmo em um ecúmeno que se pretende democrático, o terror venceu em toda linha.

 

 

 

Janer Cristaldo é escritor, jornalista, tradutor e Dr. em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle.
e-mail: janercr@terra.com.br
blog: cristaldo.blogspot.com
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