23 de fevereiro de 2004



Waterfallgate


Janer Cristaldo

 

 


Ninguém ignora que o PT tem suas raízes naquele partido que já não mais ousa dizer seu nome. Tampouco se ignora que o partido que já não ousa dizer seu nome tem suas origens naquela filosofia do século XIX, para a qual os fins justificam os meios. Quando um governo tem como virtual primeiro-ministro um ex-guerrilheiro que se especializou em Cuba nas técnicas de demolir democracias, e que vê em Fidel Castro um herói, não é de causar espécie o que hoje ocorre no Planalto. Boa parte do governo está tomada por quadros que foram - e alguns ainda são - comunistas. Ou seja, aqueles bravos humanistas para os quais matar ou roubar é perfeitamente ético, desde que o assassinato ou roubo estejam a serviço da revolução. Outra não é a filosofia da guerrilha, e José Dirceu foi guerrilheiro.

Quando falo em comunistas, não falta quem me pergunte: és daqueles que vêem comunistas até debaixo da cama? Nunca fui. De qualquer forma, se você hoje olhar embaixo da cama, não vai encontrar comunista algum. Agora eles ocupam alguma curul em Brasília. O século passado nos ensinou sobejamente que, de um marxista ou de seus herdeiros pode se esperar tudo, menos honestidade. Não por acaso, os outros três ministros envolvidos no Waterfallgate (remember Cachoeira), Tarso Genro, Olívio Dutra e Agnelo Queiroz, também são velhos apparatchiks egressos do marxismo.

Como estes quatro senhores não são as únicas viúvas de Stalin a ocupar cargos no governo, claro está que teremos ainda magníficos escândalos pela frente. Se Charlie Waterfall - como diz a imprensa americana - corrompeu o alto escalão do Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, seria ingênuo imaginar que o rico mercado político de São Paulo, por exemplo, permanecesse imune às propinas do jogo do bicho ou do bingo.

O momento político é divertido. No início da semana, o governo propôs a regulamentação do bingo. Na sexta-feira, proibiu o jogo com veemência. Veemência, ignorância e inabilidade. Ao proibir os bingos com uma medida provisória, o Executivo atropela o Judiciário, que até hoje vem concedendo liminares para o funcionamento das casas de jogo. A intenção pode ser boa, mas é totalitária. Por outro lado, Lula é redundante. Se os bingos só funcionavam à força de liminares, é porque legislações anteriores os proibiam. Algo assim como: olha, aquela lei não pegou, vamos reeditá-la pra ver se vinga. Para o Executivo petista, sentença judicial e papel higiênico dá no mesmo. A impressão que o governo passa é que, em Brasília, não há um mísero rábula que tenha a mínima noção de hierarquias jurídicas, nem da divisão de poderes inerente a uma democracia. Ou então resta uma última hipótese: o PT ainda não aprendeu a lidar com os mecanismos de um Estado de direito. Longa é a jornada de um comunossauro até a democracia.

A atitude do chefe de governo é a mesma do marido traído que, para evitar o adultério, retira o sofá da sala. É curioso que Lula, que gosta tanto de falar em herança maldita, não tenha responsabilizado Fernando Henrique Cardoso pelo terremoto que hoje sacode o Planalto. O bingo, já legalizado pela chamada Lei Zico, foi definitivamente regulamentado pela lei 9.615, de 25 de março de março de 1998, assinada por Fernando Henrique Cardoso, Íris Rezende, Pedro Malan, Paulo Renato Souza, Paulo Paiva, Reinhold Stephanes... e Édson Arantes do Nascimento. A lei leva o nome do autor, lei Pelé, que aproveitou o azo para também regulamentar os caça-níqueis. Ou seja, o escândalo planaltino respinga até mesmo em um dos heróis da pátria amada, salve, salve!

Não bastasse a brusca mudança de atitude do governo no decorrer de quatro dias, no sábado tivemos uma terceira posição. Márcio Thomaz Bastos declara aos jornais que o bingo deve ser estatizado. Um dia após o presidente da República definir a atividade como crime, seu ministro da Justiça propõe estatizá-la. Os homens do governo que se pretende um marco zero na política nacional, desesperados, agem como baratas tontas. O "estadista" que pretendia acabar com a fome no mundo não tem sequer a capacidade de administrar uma crise deflagrada por um bicheiro.

Em sua tentativa de defender o indefensável, o governo entrincheirou-se em um festival de sofismas. Como dizia José Genoíno, os fatos ocorreram em 2002, logo nada têm a ver com a atual administração. Com isto admitiu ser perfeitamente ético ter como alto assessor um vigarista de sólido currículo de vigarices, desde que as vigarices tenham sido práticas antes de sua admissão. Como se uma messalina, uma vez ungida pelo poder, no dia seguinte virasse vestal. Pior ainda: uma semana depois de feita a denúncia, revelou-se que em 2003, logo após a instalação do governo, estava o assessor presidencial se encontrando com bicheiros em Brasília. Como um Quixote que via em duas rameiras duas princesas, volta Genoíno ao contra-ataque: "Não há provas de que o encontro do ex-assessor do Planalto Waldomiro Diniz com o bicheiro Carlinhos Cachoeira e dois diretores da empresa Gtech, ocorrido em 6 de janeiro de 2003, tenha resultado em irregularidades". Para ele, ter ocorrido uma reunião não significa que tenha ocorrido irregularidade.

Como observava um amigo de papos internéticos, é como se alguém marcasse uma reunião num quarto de motel com duas prostitutas e um travesti, e depois de alguns meses, mostrasse para a esposa uma foto dos quatro no quarto, vestidos. "O fato de ter tirado essa foto com duas prostitutas e um travesti num quarto de motel não quer dizer que houve qualquer irregularidade". Com tais defensores, o governo pode até dispensar a acusação.

Em todo este festival de desculpas esfarrapadas, passou despercebida a apresentada pelo procurador-geral da República, Cláudio Fontelles, a mais insólita e original. Para o procurador, o escândalo da cobrança de propina envolvendo Waldomiro Diniz, ex-subchefe de Assuntos Parlamentares da Presidência e ex-assessor do ministro José Dirceu, é uma coisa "normal do ser humano". Afinal, "todos temos um lado escuro". Opinião no mínimo curiosa, partindo de quem parte.

"Todos temos o nosso lado escuro, que eu chamo de dark. Isso existe em partidos políticos, nas agremiações, nas próprias famílias, é parte da vida. E o que nós devemos fazer é combater esse tipo de conduta, quando essas pessoas deixam transparecer esse lado", afirmou o procurador-geral.

Suponho que, ao falar de seu lado dark, esteja falando em transgredir a lei. Suponho ainda que o procurador esteja falando por si. Ocorre que o mundo está cheio de pessoas sem lado escuro algum, que jamais subornaram, extorquiram ou sonegaram. Que mais não seja, por falta de oportunidade. Pois ter um lado dark que permite embolsar milhões de reais não é para qualquer mortal. A maioria dos mortais, os ditos pobres mortais, têm um medíocre ladinho dark, que lhes rende no máximo alguns trocados para o dia-a-dia.

É normal, em meio a escândalos políticos, que os envolvidos troquem acusações procurando defender a própria pele. Mal surgiram as gravações do assessor palatino extorquindo percentuais do bicheiro Cachoeira, o presidente nacional do PT buscou a mídia para informar que tudo era obra do candidato derrotado nas últimas eleições, José Serra. Que fosse. A autoria da gravação em nada muda o conteúdo da mesma. Quando José Vicente Brizola trouxe a público os trambiques do governo petista gaúcho, também envolvido até o pescoço com a jogatina, o mesmo José Genoíno saiu a campo, de adarga em punho e lança em riste, para acusar o acusador de ressentido. É o espírito do velho Stalin que incorporou no ex-guerrilheiro petista: primeiro se desmoraliza o adversário, depois se discute o mérito da questão. Que fosse ressentido. A autoria da denúncia em nada muda seu conteúdo.

As acusações mútuas se multiplicarão à medida em que novos dados surgirem. Até aí, nada de novo. O inédito, neste Waterfallgate, é ver um procurador acusando a natureza dos seres humanos, como a principal ré no caso das falcatruas do PT. Ao afirmar que todos têm um lado escuro, o procurador está insultando boa parte da humanidade. Pior ainda, sua melhor parte, a que não surge nas primeiras páginas dos jornais. Afinal, honestidade nunca gerou manchetes. E é por isso mesmo que o PT está ocupando as primeiras páginas.

Por menos que isso, Nixon teve de renunciar. Ou ninguém lembra mais do Watergate? Por muito menos que isso, Collor sofreu impeachment. Em suas toscas metáforas, Lula afirmava que uma criança precisa de nove meses para nascer. A criança nasceu... e nada. Voltou então o presidente às metáforas: a criança precisa de alguns meses aprender a andar. Bastaram quatorze meses de poder, para que fosse revelada a natureza dos bandoleiros que tomaram posse do governo. A criança aí está: gorda, robusta, corrupta... e andando.

 

 

Janer Cristaldo é escritor, jornalista, tradutor e Dr. em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle.
e-mail: janercr@terra.com.br
blog: cristaldo.blogspot.com
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