São Paulo, 26 de maio de 2003
Velho Graça vê o menino
- o zdanovismo em Graciliano Ramos -
Nestes dias em que se comemoram os cinqüenta anos da morte de Graciliano Ramos e o governo brasileiro pretende desenterrar o zdanovismo, em sua política de subsídios ao cinema, é importante relembrar o que constituiu esta tosca doutrina estética. Joseph Vissarionovitch Djugatchivili, ex-seminarista sem maiores luzes, teve uma influência na literatura deste século, com a qual jamais sonharia em seus dias de menino na Geórgia. Sem ser pensador, filósofo, teórico da literatura ou criador de sistemas, determinou durante décadas o que era ou não era arte, na União Soviética e no mundo todo ocidental. Latino-americanos sempre à reboque do que se pensa na Europa, não escaparíamos à ditadura mental da religião laica que oprimiu o século.Ao fechar as portas do século passado, o homem ocidental, se olhasse para trás, veria um ilustre cadáver putrefato, o cadáver do Deus cristão. Nietzsche, pouco antes de mergulhar nas trevas de sua loucura, já anunciara sua morte pela boca de Zaratustra. Ao descer da montanha, "enfastiado de minha sabedoria como a abelha que acumulasse demasiado mel", Zaratustra encontra um santo no bosque tecendo cânticos a Deus. Mas "será possível que este santo ancião ainda não tivesse ouvido em seu bosque que Deus já morreu?"
Nietzsche penetra em sua noite particular, não sem antes decretar sua Lei contra o Cristianismo, datada do "dia da Salvação, primeiro dia do ano Um (a 30 de setembro de 1888, pelo falso calendário)", onde propugna a expulsão do cristianismo não apenas da Europa, mas da História:
"O lugar de maldição onde o cristianismo chocou os seus ovos de basilisco será completamente arrasado, e sendo sobre a terra o local sacrílego, constituirá motivo de pavor para a posteridade. Aí serão criadas serpentes venenosas".
Nietzsche assina-se então Anticristo. Simbolicamente, morre com o século, pressentindo o odor abominável que exala o cadáver de um deus insepulto. Freud também o pressentia e escreve - em 1927 - em O Futuro de uma Ilusão:
"Se quisermos expulsar de nossa civilização européia a religião, não se poderá chegar a isso senão com a ajuda de um novo sistema, e este sistema, desde sua origem, adotará todas as características psicológicas da religião: santidade, rigidez, intolerância e a mesma proibição de pensar, como autodefesa".
Que mais não fosse, em O Idiota, através da boca do príncipe Mychkine, o ortodoxo Dostoievski há muito previra que o catolicismo romano originaria um socialismo ateu. Ateu em relação ao Deus dos céus e dos infernos, mas religioso em relação ao homem enfim divinizado. Morto o Deus judaico-cristão, deus nenhum outro à vista para sucedê-lo, o homem ocidental, órfão e carente de fé, irá criar um deus vivo.
Os russos, excitados talvez pelo messianismo chauvinista e anti-semita de Dostoievski, já andavam procurando o seu. Por volta de 1850, Vladimir Soloviev erige o movimento revolucionário "Os Buscadores de Deus", que acaba não achando nada. Mas a semente está lançada. Será após o fracasso da revolução de 1905, que Maxim Gorki e Lunatcharski (futuro escritor oficial da era staliniana) fundarão o movimento "Os Construtores de Deus".
Gorki, que julgava a mentira necessária contra as "verdades nefastas", diz em uma carta de 1908, dirigida a Gregor Alexinski, que o "socialismo deve se transformar em culto". Em A Mãe, escrito nos Estados Unidos em 1906, um militante diz aos operários em cortejo: "nossa procissão agora marcha em nome de um deus novo". Em uma novela de 1908, A Confissão, o incipiente deus já ensaia seus poderes: à passagem de uma manifestação de operários, um paralítico deitado em uma maca se levanta e anda. E antes de morrer (suspeita-se que assassinado por seu "Deus"), Gorki afirma:
"Lá onde reina o proletariado não há lugar para uma querela entre o saber e a fé, pois a fé neste caso é o resultado do conhecimento pelo homem do poder da razão".
Os tempos estão maduros para a emergência da nova fé. Marx e Engels fornecem o Livro, pois toda religião que se preze se fundamentará em um livro. Os revolucionários de 17 conquistam um território. Só falta o Deus feito carne. Em Gori, na Geórgia, nasce o Menino.
A partir da década de 30, em plena ascensão de Stalin - pois assim decidiu chamar-se o menino de Gori - constituía sacrilégio, para um escritor, não pertencer ao Partido Comunista. Enquanto os defensores incondicionais da "Idéia" gozavam de privilégios, viagens iniciáticas, traduções e gordos direitos de autor, em função de suas adesões ao novo culto, heréticos como Panaïti Istrati ou André Gide eram condenados ao ostracismo. Como pano de fundo desta intervenção ideológica no campo da estética, imperava o arbítrio do homem "de aço", pois assim se traduz Stalin do russo. Qualquer semelhança com Clark Kent - a identidade secreta do Superman ianque - não passará de mera coincidência.
Como todo seminarista que perde a fé, Stalin intuía o vazio deixado pela ausência de Deus. Morto Lênin, toma posse do cargo. E organiza seu culto. Em ensaio publicado em O Estado de São Paulo, Christian Jelen e Banki Lazitch nos fazem um resumido inventário das fórmulas e metáforas empregadas na ladainha do novo Deus:
· O guia imortal da humanidade
· Nossa luz
· Grandioso edificador do comunismo
· Genial continuador de Marx, Engels e Lênin
· O maior titã de todos os tempos
· Gigante do pensamento e da ação
· Mestre incomparável da ciência marxista
· O cérebro mais poderoso de nossa época
· O senhor dos rios
· Nossa fonte de luz e energia
· O melhor amigo dos judeus
· Corifeu das ciências
· Sabedoria, honra e consciência de nossa época
· O prodigioso cérebro em que se reúnem todas as experiências revolucionárias que o proletariado realizou durante um século
· Sol da verdade
· Arco-íris da humanidade progressistaAd nauseam. Os pronomes que o designavam, como nos textos cristãos, são grafados, em meio à frase, com maiúsculas: Ele, Lhe, O, Seu. Stalin é o maior filósofo de todos os tempos, o mais bravo dos combatentes, o maior personagem de cinema, o mais sábio lingüista, o agrônomo por excelência. As vacas dão mais leite com Seu pensamento, os campos produzem mais trigo, os rios não são mais senhores de seus cursos. Superman não faria melhor.
Moscou, para os crentes órfãos do deus hebraico-cristão, torna-se a Terra Prometida, a Nova Jerusalém. Os melhores cérebros do mundo, peregrinos, em procissão, vão adorar o novo Messias. Entre os criadores do Ocidente, coube principalmente aos escritores - definidos por Zdanov como "engenheiros de almas" - fornecer a maior fatia de apóstolos da nova religião.
A lista demandaria páginas e páginas. Alguns nomes, entre milhares: Nikos Kazantzakis, André Gide, Bertold Brecht, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Annie Kriegel, Louis Aragon, Henry Barbusse, Romain Rolland, Heinrich Mann, Paul Eluard, Vaillant-Couturier, Roger Garaudy, Henri Léfebvre, Rafael Alberti.
Na América Latina, sem querer esticar muito a relação: Pablo Neruda, Otávio Paz, Jorge Amado e Graciliano Ramos. Verdade que desta lista alguns nomes irão cair, é o caso de Gide e Otávio Paz. Mas os demais permaneceram cegos ante a evidência dos fatos e morreram stalinistas ferrenhos, ou ainda vivem, confusos crentes incapazes de mudar de crença.Poucos homens representativos das letras desta primeira metade do século tiveram suficiente lucidez para escapar ao fascínio do novo Deus. Entre estes, Pierre Pascal, Panaïti Istrati, David Rousset, Arthur Koestler, George Orwell, Victor Serge, Albert Camus, Ernesto Sábato. Todos pagaram seu preço. Na Europa e, conseqüentemente, entre nós, extensão da Europa, tiveram decretadas suas mortes civis e uma espécie de excomunhão os baniu - ou tentou banir - do mundo intelectual.
Literatura vira panfleto - A história é longa. Ao desterrar os poetas de sua República - com exceção daqueles que compusessem hinos aos deuses e heróis - Platão, há mais de dois milênios, certamente não imaginaria estar assumindo o papel de teórico avant la lettre de uma doutrina estética que constituiu formidável camisa-de-força para os criadores da primeira metade deste século e até hoje asfixia as manifestações artistícas em países como Cuba ou China, o realismo socialista. Ou sozrealism, para os iniciados.
Platão à parte, a nova teoria vinha sendo nutrida pelas resoluções do Partido Comunista da União Soviética, pelas idéias estéticas de Plekhanov, Lênin, Bukharin, Klebnikov, Derjavine, Polianski, Bogdanov, Lunatcharski, Fadéev, Sholokov e mesmo por um criador poderoso como Maxim Gorki. Na introdução a El Realismo Socialista en Literatura y el Arte, M. Parjómenko e A. Miasnikov nos dão uma primeira idéia da nova teoria.
"Quizás una de las más maravillosas realizaciones del marxismo-leninismo sea haber cambiado en el hombre de filas la visión de la historia y del mundo actual. Los clásicos del marxismo-leninismo han demostrado que existen unas determinadas leyes de la historia, que esas leyes se pueden conocer y que, apoyándo-se en ellas, el hombre puede inmiscuirse en el proceso histórico e influir en el curso de la historia. Cómo hán hecho cambiar estos descubrimientos de la sicología de los hombres! Estos se han sentido fuertes, poderosos. Han adquirido conciencia del optimismo histórico.
"Este optimismo histórico distingue a los mejores personajes del arte y la literatura del realismo socialista: son personas que arden en deseos de hacer la historia y la hacen prácticamente, consideran el mundo como dueños y señores de el, como sus constructores, que se han planteado el objetivo de transformarlo para hacer feliz al hombre, para hacer del globo terrestre 'una maravillosa vivienda de la humanidad, unida en una sola família' (Máximo Gorki)."
Para os compiladores destes textos, a luta socialista e os ideais do comunismo formaram um novo tipo de artista, que participa na batalha pelos corações e mentes de milhões de pessoas. Sua maneira de ver a liberdade de criação não é a mesma do "artista burguês". Sua arte produzirá um novo arquétipo, o personagem positivo. Não será exatamente um personagem "ideal", mas suas características pessoais e os traços dominantes de seu mundo espiritual devem sempre "tender" ao ideal:
"En el desarrollo de los hermosos rasgos y cualidades del personaje positivo, que no sólo se manifiestan en su mentalidad, sino también en sus obras, ve el lector la más convincente prueba de que semejante camino es real y posible para él mismo. Ese es el 'secreto' de la fuerza educativa del personaje positivo, de esa acción educativa sobre el lector que hace a la literatura soviética participante de la formación del nuevo hombre de la sociedad comunista y le permite educar mediante la veracidad y la belleza de las imágenes literarias".
Em suma, uma arte catequética. Segundo os antólogos, seriam quatro os seus princípios fundamentais:
1) a arte reflete a realidade e ouve atentamente a "linguagem do objeto" pintado, do qual falou Marx.
2) o artista que possui talento e uma determinada concepção do mundo não é um médium passivo, que deve unicamente escutar e transmitir o que a vida lhe oferece. Deve, isto sim, recriar o visto, reproduzir a vida com espírito criador, contrapondo o existente com seu ideal do que deve ser.
3) a obra de arte não é uma cópia da vida, uma repetição, mas uma "realidade estética" particular, um instrumento de conhecimento, estudo e transformação da vida.
4) a verdadeira obra de arte existe apenas quando revela aos homens algo novo, enriquece seus sentimentos, sua inteligência e vontade e nelas desperta o artista.
O realismo socialista é visto por Parjómenko e Miaskinov como "método único de criação". Que mais não fosse, está regulamentado pelos Estatutos da União de Escritores Soviéticos, nos quais se lê que o realismo socialista "ofrece a los escritores posibilidades máximas de creación libre e iniciativa en la esfera del contenido y de la forma, para la manifestación de las peculiaridades individuales de su talento, presupone riqueza y variedad de procedimientos y estilos y contribuye a la innovación en todos los domínios de la creación artística."Em meio à fracassada revolução de 1905, Lênin já antecipava as bases da nova teoria. A literatura deve adquirir um caráter partidário.
"Em qué consiste este principio de la literatura del Partido? No consiste solamente en que literatura no puede ser para el proletariado socialista un medio de lucro de individuos o grupos, ni puede ser, en general, obra individual, independiente de la causa proletaria común. Abajo los literatos apolíticos! Abajo los literatos superhombres! La literatura deve ser una parte de la causa proletaria, deve ser "rueda y tornillo" de un solo y gran mecanismo social-demócrata, puesto en movimiento por toda la vanguardia consciente de toda la clase obrera."
Mas não basta, para Lênin, que a literatura esteja a serviço do Partido. A seu serviço também devem estar a imprensa, as editoras e seus depósitos, as livrarias, salas de leitura, bibliotecas e distribuidoras de publicações. O próprio escritor deve fazer parte das organizações do Partido. Aos que possam temer pela subordinação ao interesse coletivo de algo tão delicado e individual como a criação literária, Lênin adverte:
"Tranquilizaos, señores! En primer lugar, se trata de la literatura del Partido y de su subordinación al control del Partido. Cada uno es libre de escribir y de hablar cuanto quiera, sin la menor cortapisa. Pero toda asociación libre (incluido todo partido) es también libre para arrojar de su seno a aquellos de sus miembros que utilicen el nombre de un partido para propugnar puntos de vista contrarios a éste. La libertad de palabra y de prensa deve ser completa. Pero también debe serlo la libertad de asociación. Yo tengo la obligación de concederme a mí, em nombre de la libertad de asociación, el derecho a concertar o anular una alianza con quienes se expresan de tal y tal manera."
Ou seja, a liberdade de criação deve ceder, caso se encontre em conflito com a liberdade de associação. Vladimir Illich Ulyanov não consegue tranqüilizar-nos. Seu dogmatismo será endossado por um ilustre remanescente da época tzarista, Maxim Gorki.
Místico e revolucionário, ativo participante da abortada revolução de 1905 (sua detenção provocou protestos internacionais), Gorki será o único escritor de sua geração a ajustar sua literatura aos ideais da Revolução de 17, passando a defender, mais tarde, os princípios do realismo socialista, atitude indubitavelmente decorrente de seus encontros com Lênin em Capri, nos anos de 1908 e 1910.
Antes do primeiro encontro, Gorki acabara de publicar A Mãe, romance hoje considerado como modelo de narração social revolucionária. Com a divulgação de suas obras nos meios operários, Gorki torna-se praticamente um símbolo da Revolução de 17, da qual foi colaborador infatigável no campo cultural. É preciso, no entanto, voltarmos alguns anos atrás, para melhor captar este culto de Gorki pelo proletariado.
Surgiu na Rússia, em 1850, um grupo conhecido como os "Buscadores de Deus", que tentava conciliar a idéia de Deus com a luta revolucionária. Em Lénine, l'art et la révolution, escreve Jean-Michel Palmier:
"Ce mouvemente était, à l'origine, lié à la poésie et à la philosophie, plus particulièrement à l'oeuvre de Vladimir Soloviev. Le mouvement par la suite se radicalisa: certains voulurent unir plus étroitement la religion et le socialisme en le divinisant. Ainsi naquit le mouvement des Constructeurs de Dieu. Les premiers - les Chercheurs de Dieu - restaient fidèles au christianisme traditionnel, alors que les 'constructeurs' étaient en quête d'un Troisiéme Testament, cherchant à édifier un Dieu nouveau, social et socialiste, à partir de tous les efforts de l'humanité."
Em 1908, Gorki publica Uma confissão, longo poema em prosa descrevendo uma vida e uma busca de Deus, reflexo de sua crise religiosa decorrente da influência de Tolstoi. Mas este "Deus" ainda não existe e seus construtores são, para Lunatcharski e Gorki, os operários das fábricas. Assim é que, no artigo "Ócios Literarios", Gorki afirma:
"La historia impone a los escritores de la Unión de Repúblicas Socialistas Soviéticas la tarea y el deber de crear una literatura verdaderamente universal. Debe ser una literatura capaz de emocionar profundamente al proletariado de toda la tierra y de formar en él la conciencia revolucionaria de su razón. Poseemos material para crear una poesia y una prosa de alto valor, poseemos un material absolutamente nuevo, que la valentía revolucionaria con que actúan los obreros y los campesinos y el multifacético talento que unos y otros ponen de manifiesto han creado y siguen creando incesantemente. Es el material de una victoria del proletariado y de la afirmación de su dictadura. El sentido y la importancia histórica mundial de esa victoria excluyen por completo de nuestra literatura el tema de la desesperación, de la insensatez de la existencia del individuo, el tema del sufrimiento, santificado por esa archinociva mentira que es el cristianismo."
Em seu informe para o I Congresso dos Escritores da URSS (1934), Gorki considera que o personagem principal da nova literatura deve ser o trabalho, " es decir, el hombre organizado por los procesos del trabajo, pertrechado en nuestro país de toda la fuerza de la técnica moderna; el hombre que, a su vez, organiza un trabajo más productivo, elevándolo al rango de arte."
O informe deste buscador de Deus não poderia deixar de terminar com um toque messiânico:
"El realismo socialista afirma la vida como acción, cuya finalidad es el desarollo ininterrumpido de las más valiosas facultades individuales del hombre, en aras de su victoria sobre las fuerzas de la naturaleza, en aras de su salud y longevidad, en aras de la gran dicha de vivir en la tierra, que él, en correspondencia con el incesante crecimiento de sus necesidades, quiere cultivar toda como hermosa morada de la humanidad, unida en una sola familia..."
No ano seguinte ao I Congresso, Gorki escreverá a A. S. Scherbakov:
"El realismo de la literatura burguesa es crítico, pero tan sólo en la medida en que la crítica es necesaria para la 'estrategia' de clase, para verter luz sobre los errores de la burguesia en la lucha por la estabilidad del poder. El realismo socialista está orientado a luchar contra los vestigios del 'viejo mundo', contra su influencia deletérea, y a extirpar esa influencia. Pero sua tarea principal consiste en estimular la concepción y percepción del mundo socialistas, revolucionarias."
Para Anatoli Lunatcharski, outro buscador de Deus, a tarefa da literatura sempre foi organizar a classe cujos interesses expressa. O conceito de literatura está intimamente ligado ao de classe."Incluso cuando la literatura se denominaba a sí misma arte por el arte y se deslindaba escrupulosamente de cualquier objetivo político, religioso o cultural, en realidad servía al logro de ese objetivo, ya que la llamada literatura pura es también un reflejo concreto de un estado concreto de la clase que la promueve."
O realismo socialista, para Lunatcharski, assim como a filosofia para Marx e Engels, tem seus fundamentos na práxis: "El quid de la cuestión reside en que el realismo socialista es activo. No simplemente trata de conocer el mundo, sino que tiente a transformarlo". Distingue-se do romantismo, mas ao mesmo tempo com ele se confunde:"Sin embargo, nuestro romanticismo es parte del realismo socialista. Este, en cierta medida, es inconcebible sin cierta dosis de romanticismo. Eso es lo que lo distingue de una fría consignación de los hechos. Es realismo má entusiasmo, realismo más combatividad. En los casos en que ese entusiasmo y esa combatividad predominan, cuando, pongamos por caso, se pone en juego con fines satíricos la hipérbole o la caricatura; cuando pintamos el futuro, que todavia no conocemos realmente, o cuando damos forma definitiva a un tipo que en la vida aún no la tiene y presentamos de cuerpo entero al hombre que queremos forjar, damos preferencia, naturalmente, al elemento romantico."
A arte - soviética, por enquanto - está insatisfeita com a realidade, quer transformá-la e pensa que pode fazê-lo. "El país al que de vez en cuando agrada trasladarse, para descansar y fortalecerse, es el futuro."
Para completar este quadro, mais uma pincelada de Alexandr Fadéev:
"Marx, Engles y Lenin comprendían por realismo artístico la proximidad a la verdad histórica objetiva, la revelación de aspectos esenciales de la realidad, la denuncia valerosa de las contradicciones, la intrepidez para 'quitar todas las caretas' con que las clases explotadoras trataban de encubrir la verdadera esencia explotadora de su dominación, y, al mismo tiempo, un audaz vuelo del pensamiento, un revolucionario y apasionado sueño basado en la realidad, que había de verse cumplido en el mañana. Desde este punto de vista, el impulso romántico hasta el futuro es uno de los aspectos del verdadero realismo."
À guisa de conclusão destas tautologias, escreve ainda Fadéev:
"La tendencia dominante en la literatura soviética es el realismo socialista. Por qué? Porque según la interpretación marxista-leninista, el verdadero realismo artístico es la creación cercana a la verdad histórica y capaz de ver la tendencia principal del desarrollo de la realidad en su lucha contra las fuerzas de lo viejo. Por qué ese verdadero realismo es en nuestros dias el realismo socialista? Porque el artista contemporáneo que pinta verazmente la realidad a la luz de la tendencia principal de nuestra época pinta esa realidad desde las posiciones del socialismo."
Com exceção da carta de Gorki a Scherbakov, estes textos antecedem a intervenção de Andrei Zdanov, aos 17 de agosto de 1934, por ocasião do I Congresso de Escritores da União Soviética, realizado em Moscou. Se as teorias literárias são em geral posteriores às obras que pretendem elucidar e jamais têm data de vigência, o inverso ocorre com o realismo socialista. Sua institucionalização ocorre neste congresso, como palavra de ordem aos seiscentos delegados do mundo todo lá presentes.
Com um breve e encomiástico discurso, onde "nosso chefe e mestre, o camarada Stalin" é invocado nove vezes, Andrei Zdanov decreta as bases da doutrina que castrará por bem mais de meio século, toda e qualquer manifestação literária, teatral, pictórica ou cinematográfica na União Soviética. Escritor que discordar da cartilha zdanovista é ostracisado e, se permitir a publicação de seus livros no exterior, será internado em hospitais psiquiátricos.
Permanecesse este vírus circunscrito à geografia que o gerou, teríamos a lastimar - o que já não é pouco - a morte de uma cultura que nos deu, sem ir mais longe, Dostoievski. Acontece que os escritores presentes a este I Congresso portaram-se como agentes transmissores desta perversão estética que contaminou durante décadas a literatura ocidental.
Após 1934, muito papel e tinta ainda seriam gastos na difusão da nova teoria. Além dos demais manifestos compilados por Parjómenko e Miaskinov, Adolfo Sánchez Vázquez nos dá uma idéia abrangente de sua repercussão internacional nos dois gordos tomos de Estética y Marxismo. Para não ficarmos patinando na mesmice de uma só idéia sempre repetida com outras palavras, apanhemos a definição - esta sim, verdadeiramente realista, de realismo socialista, proposta por Edward Hyams, em seu Dicionário das Revoluções Modernas:
"O único estilo de arte tolerado na URSS desde que Stalin subiu ao poder e que, infelizmente, continua até depois de sua morte. A teoria é que o trabalho do artista deve mostrar as vidas dos trabalhadores não apenas realisticamente mas também de tal forma que seja um apoio e faça sobressair a moral do socialismo da forma como ele é interpretado pelo PC da URSS e tudo o que o proletariado conseguiu fazer na construção do socialismo, graças à orientação do PC. Qualquer obra de arte que não se enquadre nessa teoria é classificada como burguesa decadente, como acontece com a escola abstrata de pintura e escultura. A Arte Realista Socialista pode ser considerada como a ortodoxa dos comunistas soviéticos e equivalente à arte comercial do ocidente, uma forma de anunciar que tem por fim fazer crer ao povo a ilusão que a ditadura do proletariado está viva e saudável."
Ao criador vigoroso, claro está, não é fácil trabalhar cingido por tal camisa-de-força. Continua Hyams:
"O escritor russo realmente original e talentoso é, naturalmente, incapaz de trabalhar dentro das regras do realismo socialista porque elas não permitem qualquer crítica sincera à vida soviética, ao partido comunista e à sociedade do 'establishment'. Assim, os melhore escritores da URSS, zelosamente guardados pelos tolos que constituem o Sindicato dos Escritores, ficam, em sua maioria, impedidos de publicar seus livros na URSS, são perseguidos e condenados ao ostracismo e são, até mesmo, internados em hospitais psiquiátricos como loucos, se permitirem que seus livros sejam publicados em traduções no exterior, sendo tratados como párias pelos falsos críticos literários do 'establishment'. Os casos mais conhecidos do público em geral são os dos contemplados com o Prêmio Nobel, Pasternak e Solzhenitzyn."
Ou seja, arte passa a ser catequese e divulgação do novo evangelho. O fanatismo que enfebrecia os seguidores da Revolução de 17 chegou a gerar, na área das ciências, um peculiar Zdanov, o agrônomo T. D. Lyssenko, o qual, através de experiências truncadas com pinheiros e rutabagas, pretendia submeter os próprios genes ao pensamento dialético de Marx. De nossos dias, é difícil avaliar quem causou mais estragos, se Zdanov nas artes ou Lyssenko na agricultura. Lyssenko foi logo desmoralizado, afinal é mais fácil viver sem literatura do que sem trigo. Quanto a Zdanov, somente em 1989, seu nome começou a ser retirado das placas de ruas na União Soviética.
O dogma zdanovista revelou tal poder de sedução que mesmo uma nação de tradições libertárias como a França passou a cultivar o novo gênero. Em Le Communisme et les intellectuels français (1914-1966), David Caute conta-nos que no famoso congresso de 1934, lá estavam Louis Aragon, André Malraux, Paul Nizan e Jean-Richard Bloch. Os resultados não se farão esperar. Em 39, Aragon publica Les Voyageurs de l'impériale, onde tenta mostrar como os esforços da burguesia para preservar sua liberdade e individualidade resultam na degradação do indivíduo e no crime coletivo. Mais tarde, em Les Communistes, romance com mais de duas mil páginas (seis volumes) povoadas por mais de duzentos personagens, o autor pretende analisar a decadência da França burguesa e a luta heróica dos comunistas durante a guerra.
Para Roger Garaudy (citado por Caute), neste romance, cada um dos heróis reagia aos acontecimentos conforme as impulsões de seu coração e, se cada uma destas reações coincidia com as diretivas do partido, isto constituía a prova experimental da humanidade de sua política e da harmonia que existia entre a moralidade do indivíduo e a moralidade de sua classe.
Paul Nizan, por sua vez, se aproximará do realismo socialista com Antoine Bloyé, publicado em 1934 e já saudado por Aragon como inspirado na nova teoria. Produzirá mais tarde Le Cheval de Troie, onde um de seus personagens considera que, face à miséria, ao desemprego e ao desespero, nada pode ser mudado se não for com risco de morte.
Esta obediência às determinações do I Congresso renderá inclusive um prêmio Stalin à França, André Stil. Em Le Premier Choc, romance em três volumes, Stil narra a luta dos estivadores de um porto do Atlântico contra a "ocupação" americana. Os americanos, é claro, representam o mal absoluto, expropriando terras dos camponeses e pequenos proprietários, provocando o desemprego, incorporando em suas forças antigos nazistas e armazenando armas na França para preparar uma guerra contra a URSS. Antes de receber o prêmio Stalin, Stil havia feito sua ode ao grande homem. O elogio é inquietante:
"É verdade, pensam eles, sabe-se muito que todos temos um pouco de Stalin no fundo de nós mesmos, que nos olha de dentro, sorridente e sério, que nos dá confiança. É a consciência que temos nós, comunistas, esta presença interior de Stalin."
Depois, houve Kruschev e o XX Congresso do PC soviético. A partir de 1956, impossível continuar praticando o novo gênero. Aragon reformula inteiramente Les Communistes e não são poucos os escritores mundo afora que expurgam romances e poemas de suas obras completas.
Extensão cultural da Europa, a América Latina evidentemente não escaparia ao novo culto. No caso específico do Brasil, o introdutor e praticante-mór do realismo socialista é Jorge Amado. Outros tentaram, sem maior sucesso, seguir-lhe as pegadas. Entre eles, Dalcídio Jurandir, com Linha do Parque; Alina Paim, com A Correnteza e A Hora Próxima; José Ortiz Martins, com Eles possuirão a Terra (tradução do título de um romance de Robert Charbonneau, publicado em Montreal, em 1941); Maria Alice Barroso, com Os Posseiros; Ibiapaba Martins, com Sangue na Pedra; Figueiredo Pimentel, com A Inspiradora de Luís Carlos Prestes; Lauro Palhano, com O Gororoba, Marupiara e Paracoera.
Escritores de porte, cá e lá, não deixaram de dirigir acenos à nova religião. É o caso de Graciliano Ramos, em São Bernardo e Viagem; Oswald de Andrade, em A Escada Vermelha e O Homem e o Cavalo e Patrícia Galvão, em Parque Industrial. Pagu, justiça seja feita, ao manter um contato mais prolongado com a realidade soviética, torna-se o primeiro escritor, no Brasil, a denunciar o stalinismo. Por outro lado, homens como Aníbal Machado e Dyonélio Machado, embora sendo militantes do Partido Comunista, em momento algum se renderam ao novo gênero.
O velho Graça e o zdanovismo - Graciliano Ramos, escritor e militante do Partido, não escaparia ao novo dogma e um dia irá prestar culto ao deus vivo.
Já em São Bernardo, Graciliano lança o germe de uma idéia insólita na época, pelo menos no Brasil, o socialismo. Paulo Honório, o prepotente dono da terra, saído do nada, à custa de astúcia e mesmo crime, irá confrontar-se com as idéias novas de Padilha, o semi-bacharel de quem tomou a fazenda. Ao casar-se com Madalena, terá em seu leito uma inimiga. Madalena é urbanidade, cultura, civilização, por oposição à rude incultura de Paulo Honório. Há ainda padre Silvestre, que sem ser ateu e materialista, pretende salvar o país por processos violentos. Em 1934, com sua intuição, Graciliano já define as duas religiões européias, ciumentas, em luta pela América Latina.
"Padres! exclamou Luís Padilha com desprezo.
"Era ateu e transformista. Depois que eu o havia desembaraçado da fazenda, manifestava idéias sanguinárias e pregava, cochichando, o extermínio dos burgueses".
Padre Silvestre, por sua vez, se opõe ferozmente às novas idéias:
" - Essas doutrinas exóticas não se adaptam entre nós. O comunismo é a miséria, a desorganização da sociedade, a fome".
Logo adiante:
"- Uma nação sem Deus! Bradava padre Silvestre a d. Glória. Fuzilaram os padres, não escapou um. E os soldados, bêbados, espatifavam os santos e dançavam em cima dos altares".
Na época, não perceberam ainda, cristãos e marxistas, que pertencem a uma mesma religião, pequenas nuanças à parte. O que importa não são os dogmas de superfície de um sistema de pensamento, mas a corrente subterrânea que o nutre. Duas são as inovações básicas do cristianismo, por oposição ao paganismo greco-romano: a idéia de que todos os homens são iguais perante Deus (ridícula para gregos e romanos) e a de que a História tem um sentido, a Parusia. O marxismo - e aqui voltamos à intuição de Dostoievski em O Idiota - reafirma a igualdade de todos os homens, abstraindo o " perante Deus", e também a idéia de que a História tem um sentido, só que desta vez não é mais a Parusia, mas o Estado Comunista.
A posição de Paulo Honório não é a de quem possa discutir ideais humanitários. Ao julgar Madalena materialista, conclui:
"A verdade é que não me preocupo muito com o outro mundo. Admito Deus, pagador celeste dos meus trabalhadores, mal remunerados cá na terra, e admito o diabo, futuro carrasco do ladrão que me furtou uma vaca de raça. Tenho portanto um pouco de religião, embora julgue que, em parte, ela é dispensável num homem. Mas mulher sem religião é horrível."
"Comunista, materialista. Bonito casamento! Amizade com o Padilha, aquele imbecil. 'Palestras amenas e variadas'. Que haveria nas palestras? Reformas sociais, ou coisa pior. Sei lá! Mulher sem religião é capaz de tudo".
Logo adiante:
"Misturei tudo ao materialismo e ao comunismo de Madalena e comecei a sentir ciúmes".
Paulo Honório fica quatro meses sem pagar o ordenado a Padilha, agora seu empregado. E ainda faz piada:
"- Tenha paciência. Logo você se desforra. Você é um apóstolo. Continue a escrever os contozinhos sobre o proletário".
Quando Padilha chora, pedindo emprego no fisco, Paulo Honório é cru:
"- Impossível, Padilha. Espere o soviete. Você se colocará com facilidade na guarda vermelha. Quando isso acontecer, não se lembre de mim não, Padilha, seja camarada".
Madalena provoca em Paulo um duplo ciúme. De um lado é a mulher que se lhe foge - e sua fuga se consumará no suicídio. Por outro lado, com suas idéias, Madalena lhe quer também tomar a condição de terratenente. Se Madalena morre, a idéia de revolução persiste. Paulo Honório, que a considerava parte de seu patrimônio, é um homem que fracassa.
Estamos, na ficção militante de Graciliano, face a um mundo em transformação. As vítimas são seres cultos e civilizados, Madalena e Padilha. O carrasco é o ser bárbaro, que inclusive admite sua barbárie. As vítimas são socialistas, comunistas. Paulo Honório, o boçal, opõe-se às idéias novas professadas pelas vítimas. Qual partido resta ao leitor tomar?
Graciliano, como tantos outros, não menos ilustres, caiu na arapuca. É militante do partido desde 1945 e, em 1952 - duas décadas após as denúncias de Gide, oito anos após O Zero e o Infinito, de Koestler, e do debate de Albert Camus com d'Astier de la Vigerie - nosso escritor vai adorar o deus encarnado. Adoração não tão tão derramada, como a do apologético O Mundo da Paz, de Amado. Mas ainda adoração.
A primeira frase da carta enviada de Moscou, datada de 1º de maio de 1952, diz tudo e dispensaria mais comentários:
"Clarita, Luísa, Ricardo: cá estamos na Terra Santa".
O seco Graciliano, de repente, vira místico desbordado.
Em Moscou, encontrará Jorge Amado, já Prêmio Stalin. Tudo é festa e deslumbramento.
"Tenho bebido vodca, ido várias vezes ao Kremlin, à Praça Vermelha, visto a Catedral de São Basílio e o túmulo de Lênin. Ontem visitei a VOKS: doces, frutas, vinho, arranjo do programa, discurso do Presidente, um professor de cabeça pelada. À noite, Romeu e Julieta no teatro Bolshoi, com Ulanowa no papel de Julieta. Havia talvez mais de duzentas figuras. Nunca imaginei coisa semelhante. Hoje, a festa para que fomos convidados. O desfile começou às dez horas e deve ter-se prolongado até sete da noite. Deixamos o Kremlin às três horas. Víamos, de longe, com dificuldade, a cabeça de Stalin. Furor de aplausos na multidão".
Graciliano apanha então binóculos para melhor ver seu deus:
"Subi à última plataforma exterior do Kremlin, fui andando para a esquerda, cheguei a poucos metros do túmulo de Lênin, no momento em que Stalin ia subindo a escada. Aproximei-o com o binóculo. Está velho, gordo e curvo. Nessa altura um tipo se avizinhou e quis tomar-me o binóculo. Fingi não entendê-lo. 'Sou estrangeiro, não compreendo o russo'. Stalin passou. Recuei dez metros, quis examinar os figurões que estavam ali a pequena distância; outro guarda, falando e gesticulando, deu-me a entender que era proibido usar binóculos. Ignoro o motivo desta proibição".
Antes de passarmos à entusiástica transcrição deste episódio em Viagem, cabe determo-nos alguns segundos em uma frase de sua carta:
"Enquanto as organizações operárias desfilavam, Kaluguin perguntou-me quais os meus livros que deveriam ser traduzidos em russo. Talvez nenhum, respondi. E expliquei minha divergência com o pessoal daí".
As divergências de Graciliano se referem ao zdanovismo. O alagoano se recusava a submeter-se às normas do realismo socialista, tentação à qual não resistiu Amado. Importante sublinhar nesta frase de Graciliano a proposta da edição de livros.
Afirmar que a fortuna internacional de escritores como Graciliano e Amado deve-se mais às suas relações com o Partido do que a seus talentos é enunciar o óbvio. Mas trata-se de um óbvio sacrílego, pois implica afirmar que tais escritores utilizaram o partido como agência publicitária, ou que o Partido os utilizou como agentes publicitários.
De qualquer forma, fica claro na carta de Graciliano que as traduções são decorrência da viagem, e ninguém recebe mordomias gratuitamente. O sucesso de Amado na Europa, por exemplo, decorre de suas primeiras traduções em russo. Da URSS, Amado passa à extinta RDA, de onde Meyer-Clason, seu tradutor, o puxa para a Alemanha Ocidental. Só depois sua literatura chegará a Paris e demais países europeus. Em Viagem, Graciliano volta ao tema e concluí que seus livros em nada interessariam àqueles homens.
"São narrativas de um mundo morto, as minhas personagens comportam-se como duendes. Na sociedade nova ali patente, alegre, de confiança ilimitada em si mesma, lembrava-me da minha gente fusca, triste, e achava-me um anacronismo. Essa idéia, que iria assaltar-me com freqüência, não me dava tristeza. Necessário conformar-me: não me havia sido possível trabalhar de maneira diferente: vivendo em sepulturas, ocupara-me em relatar cadáveres".
Ignoraria Graciliano os milhões de cadáveres que o stalinismo já havia amontoado? Muita tinta já rolara no Ocidente em torno às purgas, deportações e campos de concentração. Mas crente que se preza não quer ver. Ao crente, basta crer.Uma ligeira dúvida perpassa o espírito de Graciliano e seus companheiros ao verem a cidade cheia de retratos de Stalin, "a demonstração de solidariedade irrestrita não impressionava bem o exterior". Mas a senhora Nikolskaya, a guia, julga tal observação leviana e absurda, para consolo dos crentes:
"Nenhum russo admitia que as coisas se passassem de outra maneira. Essa réplica, isenta de motivos era, no meu juízo, superior a um longo discurso esteado em razões. Estávamos diante de um fato, e condená-lo à pressa, ao cabo de alguns passeios na rua, parecia-me ingenuidade. Com certeza ele era necessário, e devíamos, antes de arriscar opinião, investigar-lhe a causa. Realmente não compreendemos, homens do Ocidente, o apoio incondicional ao dirigente político; seria ridículo tributarmos veneração a um presidente de república na América do Sul. Não temos em geral nenhum respeito a esses indivíduos".
Para o escritor alagoano, Stalin é o "estadista que passou a vida a trabalhar para o povo, nunca o enganou. Não poderia enganá-lo. Esforçou-se por vencer o explorador, viu-o morto - e seria idiota supor que, alcançada a vitória, desejasse a ressurreição dele. É, desde a juventude, um defensor da classe trabalhadora. Esta expressão, razoável há trinta e cinco anos, tornou-se desarrazoada, pois aqui já não existem classes".
Graciliano está há poucos dias em Moscou, não fala o russo, tem roteiros rígidos de passeios e visitas, e já afirma peremptoriamente que não mais existe na Rússia uma sociedade de classes. Vista de nossos dias, sua afirmação é de uma ingenuidade atroz. Independentemente desta distância crítica, nada permite a um homem que pensa, fazer tais ilações generalizantes a partir de tão parca experiência do povo soviético. Sem falar que Graciliano nada entendia da línguas russa.
O seco criador de Paulo Honório, inimigo de adjetivações supérfluas, passa a cultivar os adjetivos:
"Não admitimos nenhum culto a pessoas vivas, perfeitamente: a carne é falível, corruptível, inadequada à fabricação de estátuas. Mas não se trata de nenhum culto, suponho: esse tremendo condutor de povos não está imóvel, de nenhum modo se resigna à condição de estátua. Homens embotados, afeitos à corrupção e à fraude, percebemos isto: a massa tem confiança absoluta nele e manifesta a confiança impondo-lhe a obrigação de admitir as ruidosas aclamações e os retratos. (...) Agradecimentos e louvores palpitam na alma da multidão, e recusá-los seria uma ofensa, um erro que nenhum político bisonho cometeria".
Stalin, modesto dirigente, é coagido a aceitar a religiosa adoração das massas agradecidas. E Graciliano, que sequer pode olhar para Stalin com binóculos, chega à conclusão que "este tremendo condutor de povos" não é o monstro que o Ocidente imagina:
"Deixavam-me passar. E deixavam-me subir a escadaria, galgar as insignificantes barreiras de meio metro, avizinhar-me do homem que a burguesia odeia com razão. Stalin não vive numa toca, defendida por metralhadoras e canhões".
O homem que, em rápido turismo por Moscou, afirma não mais existir a sociedade de classes na União Soviética, mais adiante nos alerta para o perigo das generalizações. É quando passeia pelos jardins do Kremlin, em meio a "cinzas preciosas". Lá estão as de John Reed, americano, portanto inimigo, pelo menos em princípio. Mas Reed escreveu a grande reportagem da Revolução. Logo, "esse nome nos enche de sentimentos bons. Perigoso entregar-nos a generalizações feitas à pressa. Nem toda a gente na América deseja aniquilar a humanidade com bombas atômicas e bactérias. Não vamos responsabilizar duzentos milhões de indivíduos, oito milhões e meio de quilômetros quadrados, porque um oficial de instinto ruim tentou furtar uma estatueta amarela no Hotel Savoy".
Ao visitar o Kremlin, o espírito de Graciliano é tomado por sensações místicas (os itálicos são nossos):
"...pisamos o núcleo de Moscou, a cidadela venerável exposta de longe ao mundo com júbilo ou furor, conforme as circunstâncias. Sim senhores. Estamos dentro dela - e as pedras santas das muralhas não caíram em cima de nós para esmagar-nos, estorvar a profanação".
"É verdade: miseráveis sapatos americanos, brasileiros, pezunham na terra sagrada por diversas razões. Estamos no Kremlin".
Ante a guia que lhe narra a história do castelo, Graciliano sente-se "aluno chinfrim, seguro o lápis e o caderno, abro os olhos e os ouvidos, quero aprender".
"Andamos noutros refúgios de religião, transformados em museus, vemos riquezas semelhantes às do primeiro, ouvimos datas, noções peregrinas, toda uma santa arqueologia que a revolução guardou com zelo piedoso".
Sala de São Jorge: "o Deus dele não podia equiparar-se ao Deus existente na Catedral de S. Basílio, fora do Kremlin".
Iríamos muito longe se enumerássemos as evocações religiosas suscitadas em Graciliano por sua visita ao Kremlin. Passemos então à visita do escritor ao berço em que nasceu o novo Deus, a cidade de Gori: "o monumento a que nos referimos é apenas uma casa miúda, de tijolos nus, sem reboco".
Nos dois quartos que perfazem apenas dois metros, morava o velho Djugatchivili, sapateiro. Joseph nasce em 1879 e destinava-se à profissão religiosa, já que o ofício de sapateiro rendia pouco. Troque-se o sapateiro por marceneiro, a cabana por manjedoura, coloque-se uma nova no firmamento, adicione-se mais três magos, e essa história já conhecemos. Olhando o ambiente, inconscientemente, o Velho Graça - como era chamado por seus amigos - chega a trair-se: "Onde estava a cama do menino?"
Perseguir em Viagem este preito stalinista até o fim, tornar-se-ia monótono. Passemos a uma consideração final do autor:
"Meses depois, no meu país, homens sagazes e verbosos censurar-me-iam a ignorância a respeito da União Soviética. Tinham-me os guias exibido coisas necessárias à propaganda e eu, ingênuo, acreditara nelas. Indispensável aceitar verdades ocultas abaixo das aparências brilhantes. E, sem nunca ter ido à URSS, explicar-me-iam, generosos, horrores medonhos, trabalhos forçados, enxovias horríveis, fuzilamentos diários. Seria preciso admitir que as moças do Teatro Paliachivili e a menina do Instituto Marx-Engels estavam nesses lugares para enganar-me. Os transeuntes eram impostores, a serviço da polícia. As fábricas, as escolas, os palácios de pioneiros, tudo logro. Venenos do socialismo".
Por ironia, esta irônica hipótese de Graciliano é a que acaba se configurando como a realidade da época stalinista. No XX Congresso, três anos após a morte do escritor e de seu deus, Kruschev abre as cortinas do grande teatro e revela a face do mais operoso assassino do século. Como pode Graciliano ter-se deixado embarcar em tal canoa?
Wilson Martins, ao analisar suas contradições, em O Modernismo, parece tê-lo entendido:
"Uma análise pormenorizada dessas contradições não poderia ignorar um tema que, por enquanto, deixo de lado: esse individualista e esse clássico tornou-se militante do Partido Comunista, no qual via, bem entendido, apenas os aspectos idealísticos e programáticos. O seu livro de turismo à União Soviética é, nesse particular, extremamente revelador: não me parece temerário supor que a realidade comunista, uma vez instalada no Brasil, causar-lhe-ia a mesma repugnância que a realidade republicana (no sentido radicalista da palavra). Viagem é, do começo ao fim, um livro de evasão: não de evasão do Brasil, mas de evasão da própria viagem que o escritor realizava. Não será preciso grande acuidade psicológica para perceber que Graciliano Ramos esforça-se subconscientemente, não apenas para aceitar o que lhe contam e o que lhe mostram, mas para sufocar qualquer veleidade de espírito crítico ou de curiosidade inoportuna. Tocando a Terra Prometida, ele eliminou, por um processo muito simples de sublimação psicológica, qualquer contato com o mundo imediato e com ele próprio: Graciliano Ramos não via a URSS da geografia, da política ou da sociologia, viu a URSS tal como ela se configura no mito mental que os comunistas do mundo inteiro e nomeadamente os do Brasil elaboraram pouco a pouco em anos e anos de diáspora imaginária".
Não é difícil entender este movimento psicológico. Imaginemos um escritor de talento, isolado em um obscuro rincão de qualquer país, em nosso caso, o Brasil. Seu talento não é reconhecido em nível merecido e sua recompensa é o cárcere. Um belo dia, é convidado pelos dirigentes de uma prestigiosa revolução a visitar o paraíso terrestre. Neste éden ignoto, onde é recebido com tapetes vermelhos, mal chega já lhe perguntam quais de seus livros devem ser traduzidos na sociedade ideal. A qual escritor não comoveria tal convite?
Em Viagem, vemos quão amargas são as marcas deixadas pelo Brasil em Graciliano. De que jeito vivem em sua terra? - pergunta-lhe uma advogada. O alagoano não se furta a explicar:
"Caí num monólogo triste, falando interiormente às deliciosas vizinhas erguidas no fim da platéia. Isso mesmo. Entalam-nos o crânio, somos coagidos a não pensar direito: as nossas idéias se esfarelam, espalham-se em torno de pequenas misérias. E nem só os pensamentos se reduzem. Os corpos também se aniquilam, nas prisões e fora delas. Uma prensa invisível nos comprime. O ar em nossa terra é denso, pesado; às vezes necessitamos esforço para respirar. E até isso nos roubam, estragando-nos os pulmões: ao sair da cadeia, estamos tuberculosos. Como vivemos? Propriamente não vivemos: aquilo não é vida. Quando entramos na Colônia Correcional, dizem-nos - "Não vêm corrigir-se. Vêm morrer. E ninguém tem direitos. Nenhum direito". Espanta-nos a franqueza. Numa existência de animais, ficamos semanas em jejum completo. Descerram-se enfim as grades, vemos o Sol. Não realizaram, pois a ameaça? Não nos mataram? Em parte, realizaram: estamos na verdade quase mortos. Ganhamos cabelos brancos e rugas. Assim tão fracos, tão velhos, não conseguiremos trabalhar. Arrasaram-nos".
Segunda ironia na viagem do Velho Graça: tentando descrever o Brasil a partir de sua experiência pessoal, na verdade descreve a sociedade dos gulags, da qual é hóspede privilegiado.Tão intensa é sua vontade de crer, que vê como grande avanço do socialismo a aniquilação das diferenças individuais. Em Moscou, pergunta à sua guia se uma transeunte próxima seria empregada em oficina ou repartição pública. A senhora Nikolskaya, moscovita, não consegue satisfazer-lhe a curiosidade: "É impossível saber. Não achamos distinção". O viajante cede então ao utópico sonho de Lênin, o da sociedade em que o pedreiro seria também engenheiro:
"Um ofício não é superior a outro - e os homens tendem a uniformizar-se. Essa idéia choca o nosso individualismo pequeno-burguês: achamos vantagens nas discrepâncias, receamos tornar-nos rebanho. E nem vemos que somos um rebanho heterogêneo, medíocre, dócil ao proprietário. Queremos guardar o privilégio imbecil de não nos assemelhar-nos ao vizinho. Enfraquecendo-nos, julgamo-nos fortes. Realmente, somos bestas".
O gesto é de contrição.
Antes de regressar ao Brasil, nas proximidades do aeroporto de Moscou, o escritor tira o chapéu à horrenda arquitetura que nos legou Brasília. Vê casas e, intimamente, propõe a destruição delas:
"Há na vizinhança do aérodromo casinholas de madeira, lastimosas, lôbregas, a cair de velhice. Não exibem realmente a miséria das nossas favelas, mas tristes, feias, abrigam enorme desconforto. Vestígios de outras épocas, impressionam mal o visitante. Próxima se eleva a universidade, imensa, e isto aumenta a penúria dos infelizes pardieiros. Conveniente destruí-los, pensei, evitar-nos a visão molesta. O prejuízo não seria grande: os habitantes das minguadas velharias, pouco numerosos, achariam sem esforço asilo noutros lugares, e os estrangeiros de maus instintos, resolvidos a torcer o nariz ao socialismo, perderiam num instante aparências de razões badaladas com rigor lá fora: os indivíduos aqui não têm onde morar: na cidade enorme, sete milhões de criaturas se alojam a custo, várias famílias arrumando-se num quarto miúdo. Estupidez, é claro. Mas por que não suprimir a causa da estupidez?"
O cauteloso escritor que se recusa a escrever sobre um mosteiro em Sukhumi, cidade balneária, porque "não me aventuro a expor conhecimentos arranjados à pressa, numa carreira de oitenta quilômetros por hora", mal passa alguns dias em uma cidade de sete milhões de habitantes, com passeios orientados a palácios e museus, sente-se à vontade para escrever que é estupidez afirmar que os sete milhões de moscovitas habitam mal. Haja fé.
A senhora Nikolskaya, com ar de forte desprezo, o esclarece:
"- Estão aí as belezas do individualismo".
O ensejo de Graciliano Ramos cumpriu-se. As belezas do individualismo não mais existem em Moscou. Todo moscovita, Nomenklatura à parte, vivia em blocos cinzas de concreto, e o problema habitacional persistia ainda nos dias de regime marxista, a ponto de jovens combinarem casamentos brancos com o fim exclusivo de obter do Estado alguns parcos metros quadrados. E o que é pior: a desoladora arquitetura staliniana acabou sendo transplantada para o Planalto Central brasileiro e, salvo terremoto ou bomba atômica, ali restará séculos afora.Ao final da viagem, em Gagra, vilarejo às margens do Mar Negro, os anfitriões mais vez cobram o escritor. Uma professora lhe pergunta se não vai escrever um livro sobre a União Soviética.
"Não sei, minha senhora. Acho que não. Faltam-me observações, demoro pouco".
Na despedida, na Geórgia, Leonidze, presidente da União dos Escritores - a quem o convidado oficial da VOKS (Sociedade para as Relações Culturais da URSS com os Países Estrangeiros) dedica um capítulo, indignado com a imprecisão de seus informes - afirma que a viagem renderá a ele, Graciliano, um livro.
"- Muito difícil. Ignorância completa".
Mas renderia, ainda que póstumo. E o criterioso Graciliano, que recusava dobrar-se aos ditames de Zdanov, acaba escrevendo uma obra-prima de realismo socialista. Enquanto suas ficções não são ficções, mas a realidade do homem nordestino, seu relato de viagem não é real, mas ficção pura, e das mais infelizes.
Sobrevivesse Graciliano ao XX Congresso, qual seria sua atitude? Ignoramos. Era, sem dúvida alguma, um homem íntegro. Mas a necessidade de crer em algo é mais forte, no homem, do que sua coerência.
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Janer Cristaldo é escritor, jornalista, tradutor e Dr. em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle.
e-mail: janercr@terra.com.br
blog: cristaldo.blogspot.com
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