São Paulo, 12 de abril de 2004

Odo Iyá, FTU!



Janer Cristaldo




A ciência avança - costuma-se dizer. Não acredite muito nisso. Se avança, é em ritmo de lesma. O que tem avançado - e a largos passos - é a superstição e o obscurantismo. As religiões, por exemplo. Hoje em dia, no Brasil, as cristãs já são tantas que sequer cabem na memória. Temos os católicos, ortodoxos, evangélicos e protestantes. Entre estes, os luteranos, metodistas, pentecostais, neopentecostais, batistas, presbiterianos, anglicanos, congregacionistas, calvinistas, adventistas, mórmons, testemunhas de Jeová. Só os evangélicos se dividem em cinco grandes igrejas (fora as menores): Assembléia de Deus, Igreja Batista, Congregação Cristã no Brasil. Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja do Evangelho Quadrangular. Você consegue repetir de memória tudo isso? Duvido. Isso que estamos apenas no universo cristã. Se quisermos abranger cultos orientais ou africanos, o leque se alarga desmesuradamente.

O must do momento parece ser uma tal de Bola de Neve Church que, como o nome pretende, cresce como bola de neve. Criada por um surfista formado em propaganda e marketing, que descobriu um imenso terreno virgem - para não dizer vazio - no cérebro de surfistas, skatistas e drogados, a novíssima igreja os reúne em templos no litoral e praias. Embora também tenha seus templos nas metrópoles, é claro, onde o dinheiro está. Houve época em que as religiões eram fundadas por líderes religiosos. Hoje, são criadas por marqueteiros. Conforme antigo dito, templo é dinheiro.

Não bastasse a eficiência destes gigolôs das angústias humanas, que criam instituições para melhor explorar os pobres de espírito, há ainda uma vasta legião de free-lancers do obscurantismo, buscando suas fatias no mercado. Mais ainda, com apoio dos poderes públicos. Recentemente, a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, autorizou a oferta, na rede de saúde, de "terapias naturais" não reconhecidas pelo Conselho Federal de Medicina, como aromaterapia e cromoterapia, fitoterapia (tratamento com plantas), terapia floral, geoterapia (terapia com terra, argila, barro), e até a iridiologia. A lei 13.717, promulgada no dia 8 de janeiro deste ano, tem noventa dias para ser regulamentada.

Por analogia, estão abertas as portas para a regulamentação do ofício de astrólogos, quiromantes, leitoras de tarô, bruxas e pajés. Com direito a passar a conta para a Previdência. Diga-se de passagem, um ilustre senador da República já andou propondo a regulamentação da profissão de astrólogo. Falar nisso, me pergunto como fica a ciência destes senhores, com a descoberta recente de um décimo planeta. Afinal, éramos ou não regidos por Sedna? Se éramos, disto ninguém desconfiava, pois nada se sabia deste estraga-prazeres.

Não bastasse esta proliferação de crendices no varejo, foi autorizada no ano passado, pelo Ministério da Educação, a Faculdade de Teologia Umbandista (FTU). Ora, direis, se os cristãos têm sua teologia, por que não teriam uma os cultos animistas africanos? A pergunta procede, mas tem seus percalços. O Deus cristão, além de ser um só, tem como biografia um livro dos mais antigos. Os africanos, além de serem muitos, precisam de biografias mais evidentes e bibliografia de apoio. Será necessário cavoucar muito texto do nada, para bem definir Ogun, Oxóssi, Iemanjá, Exu, pretos velhos, índios, caboclos, ciganos.

Na grade curricular constam Botânica Umbandista, Fundamentos de Psicologia Geral e Umbandista, Biologia Geral e Espiritual. Donde se conclui que deve também existir uma botânica católica, outra judia, outra luterana e assim por diante. As botânicas florescerão com o mesmo viço das profissões de fé. Idem no que diz respeito à psicologia. Mais um pouco e voltamos a 68, quando se falava em uma matemática burguesa e uma matemática revolucionária. Quanto à tal de biologia espiritual, será muito divertido ver biólogos mesurando, com seus instrumentos físicos, fenômenos inefáveis, que não podem ser medidos por instrumento algum. Sem falar que, com a nova faculdade, o sacrifício cruento de animais adquire dignidade acadêmica.

Que ousados executivos do Além queiram dourar seus ofícios com diploma de nível superior entende-se. Claro que em breve teremos doutores em Teologia Umbandista e, por que não, faculdades de Teologia do Candomblé. O que pasma é ver o MEC endossando tais excrescências. Verdade que a coisa começou há muitos séculos. Quando, na Idade Média, surgiram os primeiros cursos universitários de Teologia, as portas estavam abertas para toda e qualquer especulação. Teologia é a ciência do conhecimento de Deus. Isto é, do conhecimento do que não existe. Se os europeus têm uma ciência do que não existe, porque os africanos não a teriam?

O embuste passa a ter foros de conhecimento científico. Ai dos pobres de espírito, a clientela preferencial dos mercadores do Além.

 

Janer Cristaldo é escritor, jornalista, tradutor e Dr. em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle.
e-mail: janercr@terra.com.br
blog: cristaldo.blogspot.com
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