São Paulo, 09 de fevereiro de 2004
Meus fortes braços à serviço do Partido
Após alguns anos de ausência, volto ao Select, café onde vivi boa parte de meus dias de Paris. Aqui estive em um certo sábado, de um 19 de abril passado, mais precisamente de 1980. Na esquina ao lado, passava Sartre, já na horizontal, rumo ao cemitério de Monparnasse. Aquele senhor que escreveu O Ser e o Nada, se é que ainda alguém lembra. Queneau o considerava homem de coragem, afinal precisava de não pouca coragem para publicar, em 43, um livro de um quilo, se bem que todos os vendedores de farinha ou batata por quilo teriam de ter um exemplar à mão, já que o chumbo escasseava em função da guerra.O mesmo ilustre intelectual que, um dia, em 1954, ao voltar de uma viagem à URSS, declarou ao Libération: "A liberdade de crítica é total na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. E o cidadão soviético melhora sem cessar sua condição no seio de uma sociedade em progressão contínua. Exceto alguns, os russos não têm muita vontade de sair do país... não têm muita vontade de viajar neste momento. Têm outra coisa a fazer em casa".
Mais uma pérola: "Lá por 1960, antes de 1965, se a França continua estagnada, o nível médio de vida na URSS será de 30 a 40% superior ao nosso. Qualquer que seja o caminho que a França deve seguir para sair de seu imobilismo, para recuperar ser atraso industrial, para se constituir como nação diferente da de hoje, ele não pode ser contrário ao da União Soviética".
Este mesmo senhor que foi maitre-à-penser de várias gerações no mundo todo e particularmente em um certo arrabalde intelectual da Rive Gauche, chamado Brasil, passava ali por mim, cercado por seu séqüito parisiense. Mas não é ele quem mais evoco neste café. E sim Martine. Martine e sa belle poitrine. Militante do PC, havia dado estilo a meus ensaios e alegria a meus dias de Paris. Fora minha professora de francês na Sorbonne Nouvelle, depois chez elle, e depois... meu dicionário de travesseiro, a salvação de minha tese. Foi aqui mesmo, nesta terrasse do Select, que dela me despedi, em 1980. Ela voltava do enterro do ilustre ingênuo.
Sempre que venho a Paris, faço algumas horas de Select. Lá por 96, quando cumpria meu ritual, às minhas costas ouvi aquela voz rouca que tanto me embriagava:
— Ça va, jeune-homme de la pampa?
A voz me fez voltar 15 anos atrás. Jeune-homme de la pampa? Não acreditava no que ouvia. Só podia ser ela. E só podia ser comigo mesmo. Não me fora fácil explicar-lhe que não era exatamente brasileiro, mas gaúcho. Falei da pampa, de seus habitantes e hábitos peculiares, convidei-a para um chimarrão. Profilática, ela insistia em uma cuia e bomba individuais. Só aceitou chupar na mesma bomba ao saber que aquela era a bebida predileta de Che Guevara e assim devia ser tomada, coletivamente.
Mas aquelas tardes esdrúxulas de chimarrão e camembert estavam mortas e bem mortas, como morto estava o jovem cheio de ilusões que um dia chegara a Paris para conquistar o mundo. Morta estava minha tese, meu entusiasmo pela literatura, minhas esperanças no magistério. Visitava então Paris como quem faz turismo pelo próprio passado e uma voz rouca ressuscitava dias que julgava também mortos. Abracei-a com efusão.
Sentou em minha mesa, com a nonchalance de quem houvesse se despedido em Montparnasse na noite anterior. "Como dizíamos ontem..." Nós dois com alguns quilos a mais, minha barba já mais neve, alguns fios brancos invadindo a crina loura de minha ex-professora. Eu, que sempre abominara o stalinismo de Sartre, fora cair nos braços da militante. Quem te viu, quem te vê. Sexo não tinha ideologia. Resumimos, em traços rápidos, os quinze anos passados. Eu migrara de cidade e profissão. Brasil era eterno devir. França, águas paradas. Ela mudara apenas de endereço.
Passado volta? Tinha medo de um fiasco. Evoquei seus seios, seus pêlos, que um dia vira emergir do Mediterrâneo, gotejantes, numa praia em Cannes. Ela despediu-se com um olhar quente, passou-me o novo endereço. Me esperava no sábado pela manhã. "J'ai besoin de tes forts bras". Então vamos, e seja lá o que Deus quiser.
Dormi o sono dos anjos. Passado voltava, sim senhor! Pragmática, a francesinha. Me queria em plena forma, de manhã cedo. Braços fortes? Pois não teme quem te adora a própria morte. O hino pátrio adquiria novo sentido às margens do Sena. À noite, moderei no vinho. Senti-me um Jacques Brel revisitando uma antiga paixão. Ela ainda vira força em meus braços? Gentil Martine. Já me via auscultando sua generosa poitrine!
Cheguei atrasado, os homens da transportadora já esperavam na porta do prédio. Operário francês, tu sais — reclamava Martine —, eles não movem um dedo numa mudança, a gente tem de carregar tudo.
Um fio de pentelho puxa mais que vinte juntas de boi, tinha de convir. O Muro havia caído, a URSS se esfacelado e lá estava eu, carregando das profundezas de uma cave os arquivos da célula do PC de Montparnasse. Só então esta besta incrível que vos escreve descobriu a necessidade de seus fortes braços. Dependesse a marcha da História dos seios de Martine, nem tudo estava perdido.
Janer Cristaldo é escritor, jornalista, tradutor e Dr. em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle.
e-mail: janercr@terra.com.br
blog: cristaldo.blogspot.com
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