São Paulo, 23 de junho de 2003

A subversão de Lolita

Janer Cristaldo

 

 


O Brasil tem pressa, dizem os homens do Planalto. As adolescentes brasileiras também. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o número de adolescentes entre 10 e 19 anos que se tornam mães no Brasil vem aumentando nos últimos quatro anos. Só no ano passado, elas responderam por cerca de 31% do total de partos realizados nos hospitais do SUS. Cerca de 300 mil mulheres nessa faixa de idade foram submetidas à curetagem pós-aborto. Entre 1981 e 1990, o total de filhos gerados quando as mães tinham entre 15 e 19 anos quase dobrou: de 4.500 para 8.300. Ainda segundo o IBGE, nessa faixa de idade 18% das mulheres já engravidaram ao menos uma vez.

Em meio a isso, moralistas de plantão declaram combate à pedofilia. Semana passada, o Congresso deu o primeiro passo para a modificação do Estatuto da Criança e do Adolescente. A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou projeto que, entre outras bobagens, aumenta de dois a seis anos a pena para quem fizer sexo com adolescente (hoje, é de um a quatro). Se a vítima for menor de quatorze anos, haverá acréscimo de um terço na punição, o que hoje não existe. Evidentemente, ninguém imagina que os milhares de pais adolescentes, responsáveis pelas centenas de milhares de partos de meninas adolescentes, responderão por tais crimes. Adolescente pode ser pedófilo à vontade. Criminoso é o adulto a quem apraz os encantos de uma menina mais nova, e que sequer pensa em engravidá-la. Curvem-se as nações ante a originalidade da jurisprudência tupiniquim: o caráter criminoso de um ato não reside mais no próprio ato cometido, mas na idade de quem o comete.

Enquanto isso, imitando a promoção do Corriere de la Sera italiano, o Globo e a Folha de São Paulo lançam uma coleção de clássicos do século XX. Inaugura a coleção, com uma tiragem de um milhão e cem mil exemplares, Lolita, de Vladimir Nabokov. Esta é a tiragem apenas da Folha. Os livros foram distribuídos gratuitamente no domingo retrasado, aos compradores e assinantes dos jornais. Exceto os didáticos, jamais uma obra teve tal difusão no país. É como se a imprensa, que já destruiu a vida de tantas pessoas com a acusação de pedofilia, fizesse agora um mea culpa.

Meio século depois de publicado, o romance conserva seu potencial subversivo. Este vigor não decorre da obra em si. Mas da oposição a uma época que, de repente, parece ter optado pela hipocrisia e conservadorismo. Em boa parte dos países do Ocidente, enquanto se beatifica o homossexualismo, passou-se a criminalizar a prostituição. Desde a liberal Suécia, que nos setenta guindava a profissional do sexo à condição de assistente social e hoje as reprime com rigor, até as libertinas França e Itália, que cantaram as prostitutas em prosa e celulóide e hoje querem expulsá-las das ruas, vê-se hoje uma diretriz que tende a eliminar da face da terra os encantos do sexo pago. Nos Estados Unidos, Bush destina milhões de dólares para incentivar a castidade. Em meio a esta onda de moralismo tardio, legisladores incomodados com o prazer alheio, querem condenar ao báratro os cultores da sensualidade adolescente. Esquecidos de que o mito maior e mais intocável do Ocidente, a mãe-virgem, concebeu seu filho aos quinze anos. Seria o Espírito Santo um pedófilo? Deixo a questão para os teólogos.

Com seu romance, Nabokov imortalizou a personagem da adolescente sensual, que desde há muito tem perturbado homens maduros. Para começar, foram as prediletas de Lewis Carrol, não por acaso um escritor que cultivou o gênero infanto-juvenil. Thomas Mann cria uma versão masculina da adolescência erótica, com Tadzio, em Morte em Veneza. Tadzio tem quatorze anos e espicaça o desejo do senil Aschenbach. Lolita tem doze. Wilhelm von Gloenden, em Taormina, fotografa adolescentes nus com um realismo que Visconti jamais ousaria. Segundo as más línguas, a fama dos meninos de Von Gloenden teriam feito até mesmo Nietzsche rumar até a Sicília.

É curioso constatar como absolvemos estas transgressões, quando transmutadas pela arte. Tanto os livros de Mann e Nabokov, como os filmes a partir deles gerados, marcaram a sensibilidade de gerações. Mas vá um comum mortal assumir as preferências de Aschenbach ou Humbert Humbert. Será execrado como monstro pela mesma sociedade que aplaudiu os livros e os filmes. Com restrições, é verdade. Se Mann não teve maiores problemas com a censura, Nabokov teve não poucas dificuldades para editar seu livro. Mas, apesar do moralismo contemporâneo, a obra aí está, distribuída aos milhões. E de graça.

Nabokov é um escritor bafejado pelas musas. Conseguiu, como Cervantes, criar um personagem que se torna referência universal. Lolita hoje é substantivo comum. Milhões de pessoas que sequer têm idéia de quem tenha sido Nabokov, sabem o que seja uma lolita. É um daqueles raros momentos na história da literatura, em que o personagem mata o autor. Não confundir, bem entendido, a sensual Lolita com nossas milhares de adolescentes, que se tornam mães ou por moda, ou para independentizar-se dos pais, ou para brincar de bonecas. Lolita é sexo puro, nada a ver com poedeiras precoces. Este nosso país tropical banalizou Lolita, ao despi-la de sua sensualidade e transformá-la em monótona estatística.

Humbert Humbert pode reconhecer a crueldade e a vileza de suas ações como pedófilo. Para bom entendedor, vê-se que é um recurso do autor para preservar sua obra. A cautela de Nabokov não convence. Seu crime (?) é relatado com uma volúpia que até hoje subverte.

 


Janer Cristaldo é escritor, jornalista, tradutor e Dr. em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle.
e-mail: janercr@terra.com.br
blog: cristaldo.blogspot.com
Página pessoal no Jornaleco

Outros artigos do autor publicados no Jornaleco