São Paulo, 01 de setembro de 2008
Os novos leprosos
Um presidente declara, em capas de revistas e na primeira página dos jornais, que não é alcoólatra. Um ministro, flagrado fumando em local proibido, pede desculpas à mulher e aos filhos. Em que país estamos? Nada menos que no Brasil. Que, pelo jeito, vai acabar virando um imenso Estados Unidos, onde beber e fumar há muito virou pecado. Vivemos um momento insólito. Que me conste, jamais se viu, na história da República, um presidente ou ministro se desculpando por beber ou fumar. Deve ser o efeito Larry Rohter. O rei está nu – dizia-se nos tempos de monarquia. Na versão republicana da antiga fábula, o jornalista aponta o dedo e deda: o presidente bebe.
Mais um pouco, e os cortesãos do Planalto cochicharão nos corredores da corte: aquele ministro fuma. Estamos enveredando, a largos passos, rumo à institucionalização do politicamente correto. Negro, só por ser negro, já toma o lugar de brancos nos bancos universitários. A Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga a exploração sexual infantil no país, já quer punir sexo entre adultos. A deputada Maria do Rosário, do PT gaúcho, pretende criminalizar os clientes da prostituição, nos melhores moldes ianques. "Atualmente, não existe na legislação do país uma caracterização clara para essa conduta, fazendo com que, muitas vezes, o usuário não seja punido", diz a deputada. A governadora do Rio de Janeiro quer incluir no currículo escolar aulas sobre criacionismo, aquela teoria que pretende que o universo e a vida sejam criações divinas. De repente, não mais do que de repente, até fumar virou infâmia. Ao que tudo indica, estamos em pleno revival daquela mentalidade dos 70: o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil. O pior é que dos Estados Unidos só importamos o que de pior os Estados Unidos oferecem.
Segundo recente relatório sobre tabagismo do Departamento da Saúde americano, o fumo afeta praticamente todos os órgãos do corpo e causa uma série de doenças que nunca antes se suspeitou fossem ligadas a ele, incluindo catarata, leucemia mielóide aguda e cânceres cervicais, renais, do pâncreas e do estômago. "Sabemos há décadas que fumar faz mal à saúde, mas esse relatório mostra que os danos são ainda piores do que imaginávamos", disse na semana passada o secretário da Saúde dos EUA, Richard Carmona. "As toxinas da fumaça do cigarro vão para todos os lugares para onde flui o sangue. Espero que essa nova informação ajude a motivar as pessoas a parar de fumar e a convencer os jovens a nem sequer começar".
Ora, que o fumo mata, isto há muito não é novidade. Mas jamais me ocorreria dizer a um adulto alfabetizado que pare de fumar. Parto do pressuposto de que ele sabe ao que está exposto. Toda pessoa tem o direito de escolher não só como quer viver, como também como quer morrer. O mesmo não pensam as democracias nórdicas. O parlamento sueco aprovou a proibição total de fumantes em bares e restaurantes, a partir do próximo 1° de junho de 2005. O parlamento norueguês adiantou-se. Proibiu o fumo a partir de amanhã, 1° de junho. “Fumo aqui, só no salmão”, diz um pôster divulgado no país. Os dois países seguem na esteira da Irlanda, que proibiu fumar em lugares públicos – trate-se de bares, escritórios, hospitais, universidades ou meio de transportes – em março do ano passado. Estes Estados decidiram que o cidadão é incapaz de escolher a forma como prefere morrer. Parecem esquecer que o álcool também mata. Nos anos 70, a Suécia proibia beber em bares. Hoje, liberou o álcool e proíbe o fumo. Já está também proibindo o sexo pago.
Os EUA alegam que o fumo custa ao país US$ 157 bilhões por ano - US$ 75 bilhões em custos médicos diretos e o restante em produtividade perdida. Não tenho em mãos os custos do álcool, mas não devem estar longe disso. Proibir o fumo e não proibir o álcool é manifestar um moralismo tacanho, afinal tanto um como o outro matam e custam caro ao Estado. Sem esquecer que o açúcar também é letal. Mais um pouco de audácia e os militantes do desconforto acabarão proibindo os chocolates. É como se de repente, o Ocidente, acometido por um modismo qualquer, pretendesse privar seus cidadãos de prazeres que matam, é verdade, mas propiciam euforia e bem-estar enquanto a vida dura.
Não fumo. Nunca fumei. Nem cigarro, nem maconha. Mas dá pena ver fumantes tratados como leprosos, isolados em jaulas virtuais. Em um inverno em Nova York, eu os vi enregelados nas ruas, em temperaturas abaixo de zero, segurando suas baganas com mãos nuas, porque nos escritórios é proibido fumar. Professores já pretendem que os filmes de Hollywood, em que há personagens que fumam, sejam classificados como proibidos para menores de 18 anos. No aeroporto de Zurique, eu os vi isolados por um cordão, encolhidos como animais acossados, para contemplação dos passantes. Minha pior experiência foi num trem entre Roma e Florença. Por falta de vagas em um vagão de não-fumantes, tive de comprar assento no vagão dos leprosos. A concentração de fumo era tal que até os fumantes se sentiam mal. Em uma festa no Rio, vi um conviva vetar o cigarro a todos os demais convidados, só porque ele não fumava. O cerco se fecha e a intolerância se instala. Fortalecidos pela mídia, os não-fumantes se travestem subitamente em comissários do povo, sempre alertas para denunciar o crime abominável.
O tabagismo foi o grande legado indígena à civilização. Toda pessoa culta sabe, mas nem toda pessoa culta ousa afirmar, que o tabaco foi importado da América Latina, onde era consumido pelos bugres, para a França, por Jean Nicot, daí nicotina. Os atuais cânceres e enfisemas – os politicamente corretos que me desculpem – são em boa parte herança do bon sauvage de nosso continente. Desde algum tempo, o tabagismo virou prática de gente pobre. Segundo pesquisas recentes, quase 33% dos americanos adultos que vivem abaixo do nível de pobreza fumam, contra 22% dos que estão acima desse nível.
Estamos entrando em uma era de uma nova Lei Seca. Desta vez, a dos cigarros. Os legisladores, em seu moralismo antitabagista, acabarão por fazer a fortuna dos mercadores do ilícito. A continuar assim, o tabaco terá em breve o mesmo ou maior prestígio que a maconha ou cocaína.
Hábitos sociais largamente difundidos não se combatem com proibições. Os EUA sabem disso e não parecem ter tirado maiores lições da Lei Seca, que durou apenas treze anos, onze meses e 24 dias. Se alguma autoridade quiser reduzir o tabagismo, é simples. Basta associar o cigarro com pobreza. Até os pobres pensarão duas vezes ao levar um toco de câncer aos lábios. Nesta época de culto ao dinheiro, mais eficaz que prevenir contra doenças é marcar o fumante com o estigma de pobre. Proibir só aumenta o consumo.
Janer Cristaldo é escritor, jornalista, tradutor e Dr. em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle.
e-mail: janercr@terra.com.br
blog: cristaldo.blogspot.com
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