São Paulo, 04 de agosto de 2003
O Gesto de Carlos
Escritores e artistas sempre foram reverenciados no Ocidente, como seres situados acima da média humana. Delegados que são a sonhar pela comunidade, a eles sempre se permitiu um pouco de loucura e mesmo a fuga aos padrões normais de conduta. Alguns enlouqueceram mesmo: Swift, Hölderlin, Maupassant, Van Gogh, Pöe, Nietzsche. Outros conseguiram equilibrar-se na estreita lâmina entre a higidez e a insanidade. Mais loucos ou menos loucos, muitas vezes execrados pelos contemporâneos, de um modo geral mereceram o preito dos póstumos. No século passado, no entanto, proliferou com extraordinário vigor uma nova espécie de artista, o artista-prostituta, o que vende sua pena ou pincel em troca de dinheiro, mordomias e prestígio fácil. Eles são legião.
O século encheu-se de criadores venais, desde Pablo Picasso e Pablo Neruda a Jean-Paul Sartre, Brecht, Lukács, Aragón, desde Gabriel García Márquez a José Saramago, passando entre nós por Oswald de Andrade, Jorge Amado e Graciliano Ramos. Os escritores, tidos como lúcidos entre os lúcidos, caíram como patinhos na armadilha do stalinismo. Os raros a resistir foram tidos como traidores do humanismo. Entre eles, Panaïti Istrati, Gide, Camus, Koestler, Orwell. A listagem das prostitutas é exaustiva e abarca a maioria de escritores do século. O rol dos incorruptíveis é escasso e não passa de algumas dezenas.
Os eventos do final de século, a queda do Muro, o fim da União Soviética, a derrocada do socialismo, enviaram para a famosa lata de lixo de História os artistas vendidos. Ou deveriam ter enviado. Até hoje, tanto Picasso como Neruda ou Amado são tidos como luminares do humanismo, quando não passaram de cúmplices da tirania mais longa do século. Mas artista é bicho vaidoso. Basta um afagozinho à sua cauda de pavão e ele se derrete em laudes a qualquer tirano. O prêmio Stalin da Paz, por volta dos anos 50, fez a glória tanto de Brecht, como de Amado e Neruda. O que deveria condenar os premiados à infâmia, foi ostentado como galardão.
Hoje sabe-se o que foi o stalinismo e sabe-se também quem foram seus cúmplices. Mas os artistas, e particularmente os escritores, parecem não ter aprendido a lição. Em 1959, instalou-se na América Latina a mais longa ditadura stalinista que o continente já conheceu. E lá foram os escritores, em dócil rebanho, saudar o novo tiranete. No Brasil, o primeiro deles foi Fernando Morais, logo seguido por Eric Nepomuceno, frei Betto, Ignácio de Loyola Brandão. Fernando Morais, diga-se de passagem, está hoje empenhado em escrever a biografia deste nosso impoluto vulto da pátria, Antonio Carlos Magalhães. A entidade que congregou os entusiastas da nova tirania foi a Casa de las Américas, fundada já em 1959, ano da tomada do poder por Fidel Castro. Ciente de que a vaidade é o sentimento motor de milhares de escritores e candidatos a escritores, os novos donos do poder logo instituíram um prêmio literário. Jovens prostitutas da literatura - e outras não tão jovens - acorreram como galinhas a quem se joga milho.
Pouco importava que opositores políticos, escritores e jornalistas apodrecessem nos porões de Castro. O que importava era o fugaz brilho conferido pelo prêmio Casa de las Américas. Melhor que ser premiado, só mesmo ser jurado. O jurado, por definição, está acima dos premiados e sobre estes exerce sua generosidade. Ilustres nobéis da literatura não hesitaram em dar seu aval à ditadura caribenha. Entre eles, Miguel Angel Asturias, Camilo José Cela, Gabriel García Márquez e José Saramago. Também mantiveram íntimas relações com a Casa de las Américas quatro conhecidos paladinos da liberdade, o mexicano Carlos Fuentes, o peruano Mario Vargas Llosa, o cubano Alejo Carpentier e o uruguaio Juan Carlos Onetti.
No Estadão deste domingo passado, Guillermo Cabrera Infante, escritor cubano exilado em Londres, deplora a prisão do poeta Raúl Rivero: "é o maior poeta cubano vivo. Ou quase vivo, porque agora foi encerrado numa prisão, condenado a vinte anos. Quando sair do cárcere - se é que um dia sairá vivo -, será um ancião". Guillermo Cabrera Infante, que hoje se recusa a ser publicado em Cuba enquanto Castro esteja no poder, já foi alvo de uma semana-homenagem organizada pela Casa de las Américas. O que não deve ter-lhe desagradado, pois nada objetou à publicação de um livro em torno à homenagem.
Mesmo na mais depravada das cortes sempre há resquícios de virtude. Destoando do coro das prostitutas, na semana passada o escritor chileno Carlos Franz recusou o Prêmio Latino-americano de Jornalismo José Martí, em protesto contra as prisões e condenações de dissidentes cubanos na ilha. É o que nos contam os jornais, em notas diminutas, quase despercebidas, que não dão ao fato a importância merecida. "Decidi que não poderia aceitar um prêmio jornalístico, que representa a liberdade de expressão, quando entre os 78 dissidentes presos por trinta anos em Cuba se encontram numerosos escritores e uns vinte jornalistas", disse Franz em Londres ao jornal vespertino La Segunda.
"Parecia-me impossível aceitar um prêmio desta natureza, nestas circunstâncias", acrescentou. Franz é autor de romances como Santiago bajo Cero e O Lugar Onde Estava o Paraíso. Pejem-se as cortesãs européias, latino-americanas e brasileiras, que além de aceitarem afagos da ditadura, jamais disseram contra ela uma palavrinha que fosse. A recusa de Carlos Franz é um desses gestos singelos, singelos mas poderosos, que tem a virtude de desmascarar milhares de outros gestos grandiloqüentes, mas covardes e arrivistas.
Janer Cristaldo é escritor, jornalista, tradutor e Dr. em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle.
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