05 de maio de 2004
Gay Estatal
Neste país que se queixa do incentivo à produção nos países estrangeiros, não passa um santo dia sem que, em algum setor do mundo dito cultural, alguém esteja pedindo ao governo “incentivos à cultura”. Leis para isso é o que não falta: lei Rouanet, Lei Mendonça, lei do Audiovisual, Fazcultura, e por aí vai. Por cultura, de modo geral, entendem os pedintes espetáculos, filmes ou publicações ligados ao show business, todos com finalidades lucrativas. É como se o artista – ou agente cultural, como parece soar melhor – mandasse um recado ao contribuinte: “em nome da cultura, me repassa teus impostos, que eu quero passar bem”.
Quinta-feira passada, o produtor cinematográfico Luiz Carlos Barreto, o Barretão, chamou de gigolôs da cultura os que se manifestam contra a lei do Audiovisual. Não que estes senhores queiram matar a galinha de ovos de ouro. Querem apenas que seus ovos sigam outro percurso. Que o dinheiro público não passe pelos caixas das empresas e que o dinheiro privado surja efetivamente no investimento cultural. As divergências são apenas quanto ao método de achacar o contribuinte. Barretão, ao sentir sua gigolagem ameaçada, vai à luta, em defesa dos 500 milhões de reais de renúncia fiscal liberados por ano a sua guilda: “O cinema é uma indústria que sofre forte pressão internacional, uma concorrência que dificulta sua auto-sustentação. E a sobrevivência do cinema é uma questão que envolve a sobrevivência da sociedade brasileira. A batalha do audiovisual é hoje a batalha principal do mundo moderno, a defesa dos conteúdos audiovisuais. O país que não entrar nessa batalha não sobreviverá como nação".
Traduzindo: o Brasil pode afundar como nação, caso os impostos que você paga não financiem produções como Dona Flor e seus dois maridos e Que é isso, companheiro? Além do mais, Barretão defende os interesses da família. Seu filho, Bruno Barreto, também precisa viver. Eu, que há uns bons trinta anos não vejo filme nacional, me penitencio. Sou um inimigo da nação e da sociedade brasileira. Não imaginava que do cinema brasileiro dependia a sobrevivência do país.
Fernando Collor de Mello, o Breve, pode não ter agradado as estruturas nacionais de poder. Mas no dia de sua posse, em 1990, deu uma grande alegria, não só a mim como a todos os contribuintes do país: extinguiu a Embrafilme. De uma penada, acabou com a festa de um setor privado que adora o conforto garantido com o dinheiro do Estado. Isto é, com o dinheiro nosso, já que Estado nada produz e nada ganha. Entre outras, esta terá sido uma das razões de sua queda. A gigolagem cinematográfica permaneceu quatro anos em jejum, mas não perdeu a vocação. Em 1994, através da Lei do Audiovisual, meteram de novo a mão no bolso de quem ganha honestamente seu sustento. O mecenato é tão atraente, que até as redes televisivas já pensam em também meter a mão nesse bolso inexaurível, o do povo, para produzir suas baixarias.
No governo Lula, os gigolôs se tornaram ainda mais ousados. Através do decreto 4.945, publicado na calada do último réveillon, cada uma das 1800 salas de exibição do país deverão dedicar 63 dias de sua programação ao cinema nacional. Em 2003, os dias de exibição obrigatória eram 35. A gigolagem conseguiu revogar essa reacionária lei da oferta e da procura e enfia goela abaixo no espectador seus abacaxis. (O que sobra do mercado é reserva dos abacaxis americanos. Só por milagre você hoje consegue ver um filme alemão, italiano ou finlandês). Nem só negros querem cotas. Cineasta também é gente. No exterior, o presidente arrota a defesa do livre comércio e brande seu tosco verbo contra os incentivos estatais à produção.
Bem entendido, cinema não é o único setor da indústria do lazer protegido pelo Estado, para usufruto dos amigos do rei. Neste país que se pretende capitalista, temos o teatro estatal, o livro estatal, a música estatal. Recentemente, o governo ressuscitou o projeto Pixinguinha, sepultado na gestão Fernando Henrique. Músicos sairão pelo país todo, empurrando suas músicas a platéias que jamais foram consultadas sobre o que gostariam de ouvir, mas que pagam compulsoriamente para ouvir o que não pediram. A quem beneficia o crime? Aos músicos, é claro.
Não bastasse este obsceno saque, sacramentado por leis corporativistas, ocorreu ontem no centro de São Paulo o insólito em matéria de corrupção estatal. O centro da cidade foi tomado por uma parada gay, que vem se repetindo há sete anos. Que os gays façam paradas, até que se entende, embora particularmente me desagrade todo exibicionismo sexual nas ruas. O difícil de entender é que a promoção tenha sido beneficiada pela Lei do Mecenato do Ministério da Cultura, captando 503 mil reais, de pessoas físicas e jurídicas, a título de incentivos fiscais. Já no ano passado, a Associação do Orgulho Gay, entidade promotora do evento, havia tungado do contribuinte 441 mil reais. O governo ainda repassou 43 mil reais do Fundo Nacional de Cultura para a realização da versão baiana da Parada Gay, realizada na semana retrasada em Salvador.
"Não estamos repassando recursos para um movimento social, mas para um movimento cultural", justificou o ator e secretário de Identidade e Diversidade Cultural do ministério, Sérgio Mamberti. "O ministério trabalha com um conceito ampliado e moderno". Neste país incrível, homossexualismo é cultura. Mais ainda: virou questão de Estado. Mais um pouco e teremos a Homobrás. O homossexualismo é nosso.
Do universo entre as nações, resplandece a do Brasil. Criamos o gay estatal.
Janer Cristaldo é escritor, jornalista, tradutor e Dr. em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle.
e-mail: janercr@terra.com.br
blog: cristaldo.blogspot.com
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