São Paulo, 21 de julho de 2003

 

Flagrante em Gotemburgo


Janer Cristaldo

 

 

Meus clientes exigem que eu ame de botas.
Neste restaurante você pode dançar nu e fazer o amor com quem quiser.
Leia o relato da noite de amor comprada por nossa repórter no primeiro bordel para mulheres.
Ela recebe 25 homens por dia.
Os serviços sexuais que você pode receber por 50 coroas.

 

Estas são manchetes da imprensa sueca, nos anos 70, que transcrevi em meu primeiro livro, O Paraíso Sexual Democrata. Naqueles idos, a prostituição era livre e a profissional do sexo era vista como uma espécie de assistente social. Até mesmo o sóbrio Dagens Nyheter publicava anúncios das meninas, com suas tabelas de preços. O préstimo menos caro era o posering, modalidade preferencial dos suecos, que consistia apenas na exibição do corpo, sem nenhum contato físico: 30 coroas. Por 60, além do posering, o cliente tinha direito à massagem sueca, ou seja, manual. Massagem francesa (oral) ou espanhola (entre os seios) custavam 75 coroas. O ato propriamente dito situava-se entre 150 e 200 coroas. Sexo anal, em conformidade com a lei da oferta e da procura, estava no topo da tabela: 300 coroas.

Eram os tempos pré-Aids, do amor risonho e franco. Foi muito comentado pela imprensa um bordel-cooperativa, onde as garotas participavam do capital e da direção do mesmo. "Aqui existe um espírito de camaradagem genial e verdadeiramente democrático" - dizia então uma das cooperativadas. "Nenhuma concorrência, exatamente como na China".

Em janeiro de 71, o deputado Sten Sjöholm apresentava uma moção ao Parlamento sugerindo a estatização dos bordéis. Suas razões: o Estado vendia bebidas alcoólicas e cigarros e não se escusava por receber dinheiro por ambos os lados. Tabaco e álcool são certamente mais prejudiciais para um homem que uma visita ao bordel. A situação da época dos poseringsateljér gerava mal-estar e problemas sanitários. O representante do Partido do Povo exigia um monopólio estatal dos bordéis para sanear o pântano da pornografia. Toda organização privada seria proibida. Segundo Sjöholm, todos ficariam contentes com esta legislação. A exploração desordenada das mulheres seria substituída pela responsabilidade da sociedade e cuidados mais humanos.

Esta proposição era reflexo das reivindicações de Lars Ullerstam, que se tornou internacionalmente famoso pelo panfleto De Erotiska Minoriteterna (As Minorias Eróticas), publicado em 1964, onde propunha criar bordéis:

"A criminalização destas instituições é uma das maiores besteiras de nossa época. Autorizando os bordéis, se remediaria a miséria sexual da sociedade e se diminuiria o número de gravidezes fora do casamento. Mas principalmente não se precisaria temer a perigosa criminalidade que a prostituição de rua traz consigo. Os gigolôs perderiam seu mercado e ninguém mais teria de pagar preços exorbitantes pelos prazeres sexuais.

"Os bordéis preenchem uma importante função de higiene social. Estas instituições seriam evidentemente dirigidas por médicos e assistentes sociais e a direção geral da Saúde Pública controlaria suas atividades. Assim organizada, a indústria de bordéis ofereceria garantias razoáveis de trabalho e colocação. Muitos jovens de ambos os sexos acorreriam a este ofício humanitário. Uma organização racional poderia fazer com que os preços da consumação sexual baixassem consideravelmente. Para adolescentes na puberdade e pobres poderiam existir preços reduzidos. Para os celibatários, os bordéis significariam um grande ganho de tempo, aos menos em casos mais urgentes, e assim lhes sobraria mais tempo para estudos. As mulheres sexualmente extenuadas poderiam repousar, enviando seus maridos a estas casas de prazer sem ter de temer complicações. A função mais importante dos bordéis seria no entanto aliviar a miséria dos indivíduos que, por diferentes razões, não podem por si mesmo encontrar objetos de satisfação sexual".

Em décadas passadas, o Welfare State sueco gozou da peculiar fama de uma sucursal terrestre do paraíso. Sua grife mais exportável era o erotismo, que escandalizava até mesmo outros países europeus marcados pelo catolicismo. Apesar de Estocolmo ficar longe do resto do mundo, para lá se dirigiam profissionais de todas as áreas, para congressos e colóquios. A palavra liberdade tornou-se mais ou menos sinônima de liberdade sexual e o longínquo país nórdico, bafejado ainda por um altíssimo padrão de vida, servia de modelo às nações.

O pecado residia em outro setor. A abertura de espírito dos luteranos nórdicos não se estendia a um prazer perfeitamente lícito aos católicos, o álcool. Na Suécia, beber em bares era proibido. Beber álcool, bem entendido. Café, água, chá ou coca-cola eram perfeitamente permissíveis. Vinho, cerveja ou destilados, apenas em restaurantes, com comida, e só a partir das 12 horas até a meia-noite. As ruas de Estocolmo eram hostis a bares. A Suécia - e seus vizinhos nórdicos - constituía uma espécie de fortim puritano e sem graça em meio à alegria etílica européia.

Nos supermercados, nem sombra de álcool, exceto uma cervejinha insípida, a mellanöl, com no máximo 2% de álcool. Acima disso, as bebidas teriam de ser compradas nos systembolaget, empresas estatais que detinham o monopólio da distribuição e venda do álcool. Para comprar em tais lojas, o cliente tinha de ser maior de 18 anos. Na Noruega, ainda recentemente, a idade mínima era de 25 anos. Ou seja, você pode ser chefe de família e ter filhos, só não pode comprar álcool.

Isto gerava fenômenos curiosos. Empresas mais ágeis usavam as travessias pelo Báltico para lucrar com a venda do álcool. Barcos iam e vinham a Helsinque e ilhas finlandesas próximas, para saciar a sede dos suecos. Mal o barco desatracava, os sedentos svenssons se atracavam ao bar, afinal já estavam navegando em águas internacionais. Com uma vantagem nada desprezível: o álcool era skattfri, palavrinha mágica na Escandinávia, que significa livre de imposto. Ignorante desta idiossincrasia, tomei certa vez um desses bateaux ivres, rumo a uma ilha qualquer do outro lado do Báltico. O navio atracou em um porto deserto e este ingênuo que vos escreveu decidiu visitar a ilha. Ao descer, olhei para trás. Era o único a ter descido. Envergonhado até a alma, voltei. O que importava naquelas viagens era viajar, chegar não era preciso. Este tipo de travessia ainda existe, mesmo depois da liberação do álcool na Suécia. Skattfri, a palavrinha mágica, ainda continua atraindo viajores. Se você, leitor, quiser um dia fazer uma travessia de sonho, apanhe um daqueles barcos da Silja Line, que navegam entre Helsinque e Estocolmo. Pôr os pés em terra será a última coisa que você desejará fazer.

Nos bares, dizia, era proibido beber álcool. Ora, café ou água não excitam os espíritos. Não por acaso, bebida alcóolica em inglês é spirit. Em sueco, sprit. (Mesmo no português, temos espirituosos, palavra quase esquecida). Tampouco por acaso, nas ilhas gregas preferidas pelos Svenssons, nas ruas principais podia-se encontrar centenas de placas com os letreiros SPRIT ou TANDLÄKARE. Tandläkare é dentista. O estado-previdência sueco, além de taxar violentamente o sprit, não incluía em sua política de saúde o tratamento dentário gratuito.

Voltei recentemente a Escandinávia. Altos impostos à parte, o álcool foi liberado. A Suécia atual, particularmente no verão, tornou-se uma festa cotidiana ao ar livre. Estocolmo encheu-se de bares e restaurantes por todos os lados e mais parece Paris ou Madri. Com suas peculiaridades, cabe salientar. Como o verão nórdico não é exatamente o que, seres tropicais, entendemos por verão, além de calefação, alguns bares oferecem cobertores aos clientes. Para ter uma idéia de um verão sueco, clique aqui. Ocorreu na semana passada, quando os estocolmenses celebravam sua noite tropical: a temperatura não baixara, a noite toda, dos 20 graus.

O álcool deixou de ser pecado ou crime para os suecos. Quanto àquela outra prática, que tanta fama lhes rendeu ... ao que tudo indica a festa acabou.

Idrottsstjärna köpte sex av prostituerad - mancheteou na primeira página o jornal sueco Aftonbladet, na edição desta última sexta-feira. Traduzindo: Estrela esportiva compra sexo de prostituta. O episódio ocorreu no hotel Radisson, em Gotemburgo, em 17 de março passado. O atleta, cujo nome o jornal omite, foi flagrado nu pela polícia, com uma profissional tailandesa, a quem pagou o preço nada módico de 4 mil coroas por uma noite.

Vivendo e espantando-se: um homem foi preso na Suécia por pagar uma profissional do sexo. O que há trinta anos era reivindicação social e ofício humanístico passou a ser crime. Uma onda de moralismo começou a varrer a Europa, de Estocolmo a Paris e Roma. Daqui para a frente, as prisões passarão a ser freqüentadas por autores de crimes sem vítimas, só porque moralistas bem postados no Estado houveram por bem decidir que prostituição é crime. Bom símios que somos, é apenas uma questão de tempo a moda chegar até nós.

Janer Cristaldo é escritor, jornalista, tradutor e Dr. em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle.
e-mail: janercr@terra.com.br
blog: cristaldo.blogspot.com
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