São Paulo, 07 de julho de 2003
Falsa polêmica
Entre os muitos filmes que não pretendo ver, está A Paixão de Cristo, a última realização de Mel Gibson, que estreou na semana passada nos Estados Unidos e pretendia faturar 100 milhões de dólares até este domingo passado. Nestes dias em que o valor artístico de uma obra de arte é medido em milhões de dólares, a notícia deste faturamento em uma semana me afasta de qualquer sala. Filmes que agradam milhões são concebidos para saciar os baixos instintos da maioria. As primeiras reportagens sobre o filme me contam que a tortura do herege judeu que se pretendia deus percorre vinte dos 118 minutos do filme. Lá pelas tantas, o diretor arranca um pedaço de carne do Cristo e deixa quatro costelas à mostra.Os eventuais espectadores que me desculpem, mas é preciso ser muito doente para pagar por cenas tão estúpidas, que além do mais nada têm a ver com o relato histórico. Gibson resolveu assumir uma versão soft do gênero snuff movies, e como o grande público não distingue mesmo entre sangue e molho de tomate, faz-se do corpo do nazareno uma pizza atomatada que leva as platéias ao delírio. Da estupidez das massas depende o faturamento de Hollywood. Não contem comigo.
Para conquistar público, o filme chega carimbado com o timbre de polêmico, não por esta concessão a uma estética de açougue do diretor, mas por atribuir aos judeus a responsabilidade pela crucificação do Cristo. Nossos jornalistas, que parecem jamais ter lido os Evangelhos, reiteram à exaustão este lado "polêmico" do filme, e buscam depoimentos de líderes religiosos do judaísmo e cristianismo para jogar mais lenha à fogueira. Um dos principais rabinos de Israel, Yona Metzger, escreveu ao papa mostrando-se preocupado com a possibilidade de o filme abalar os esforços de reconciliação entre judeus e cristãos iniciados em 1965, quando o Vaticano rejeitou a noção de que os judeus eram coletivamente responsáveis pela morte de Jesus. Franco Zefirelli, que fez um outro filme sobre Cristo e tem 81 anos, idade suficiente para entender algo do mundo, afirma que o filme é um ''retorno ao obscurantismo medieval cristão anti-hebraico''. Ou seja, nunca leu a Bíblia.
Ora, a polêmica não existe. Os esforços dos rabinos de Israel, dos cardeais do Vaticano ou dos Zefirellis da vida não têm o condão de eliminar fatos da História. No Evangelho de João está escrito com todas as letras:
Então, os chefes dos sacerdotes e o fariseus reuniram o Conselho e disseram: "Que faremos? Esse homem realiza muitos sinais. Se o deixarmos assim, todos crerão nele e os romanos virão, destruindo nosso lugar santo e a nação". Um deles, porém, Caifás, que era Sumo Sacerdote naquele ano, disse-lhes: "Vós de nada entendeis. Não compreendeis que é de nosso interesse que um só homem morra pelo povo e não pereça a nação toda? Não dizia isto por si mesmo, mas sendo Sumo Sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus iria morrer pela nação - e não só pela nação, mas também para congregar na unidade todos os filhos de Deus dispersos. Então, a partir desse dia, resolveram matá-lo (João XI 49-50).
Para Ernest Renan, atrás de Caifás há um outro responsável, Hanã, sogro do Sumo Sacerdote. Se o evangelista põe na boca de Caifás as palavras que condenam Jesus à morte é porque se supunha que ele, como Sumo Sacerdote, teria dom de profecia. "Mas essas palavras, quem quer que fosse que as pronunciou, foram o pensamento de todo o partido sacerdotal". E Hanã era o cabeça do partido. "Foi Hanã (ou, se assim o querem, o partido que ele representava) que matou Jesus. Hanã foi o principal ator nesse drama terrível, e muito mais que Caifás, muito mais do que Pilatos, deveria carregar com o peso das maldições da humanidade". Enfim, Hanã ou Caifás, ambos eram judeus e defendiam interesses da hierarquia judaica. Ainda segundo Renan, os sacerdotes viram como derradeira conseqüência daquela agitação "uma agravação do jugo romano e a destruição de suas riquezas e suas honras". Um mês antes da Páscoa, Jesus já fora condenado pelos sacerdotes judeus. Se afirmar este fato é ser anti-semita, os atuais acusadores de Mel Gibson deveriam dirigir seus impropérios ao evangelista João, e não ao cineasta.
Para os judeus, Cristo, ao se anunciar como Deus e filho de Deus, era um herege. Para os romanos, politeístas, deus a mais ou deus a menos pouca diferença fazia. Pilatos dá uma chance ao Cristo. Na ocasião da Páscoa, costumava-se soltar um preso. Pilatos pergunta à turba, que evidentemente não era de romanos: "Qual quereis que vos solte? Barrabás, ou Jesus, chamado o Cristo?" A turba judaica preferiu soltar Barrabás. É estupidez profunda, ignorância histórica abissal, considerar que os romanos foram os responsáveis primeiros pela morte de Cristo. Pilatos tentou salvá-lo. Os judeus não o permitiram.
Os judeus foram responsáveis não só pela morte do Cristo. Foram eles que mandaram Paulo para uma prisão em Roma. Entre outras acusações, estava a sua boa amizade com Trófimo, que era não-circuncidado.
Líderes religiosos judeus estão vendo no filme um libelo anti-semita. Isto é, afirmar um fato histórico virou anti-semitismo. Na Alemanha e no Canadá, já é crime ousar duvidar dos números do holocausto. Mais um pouco, e vai para a cadeia quem ousar citar João, o evangelista. No ritmo em que vamos, a ortodoxia judaica fará da história o mesmo que dela fizeram os stalinistas.
Janer Cristaldo é escritor, jornalista, tradutor e Dr. em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle.
e-mail: janercr@terra.com.br
blog: cristaldo.blogspot.com
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