São Paulo, 27 de setembro de 2004

 

Eu e Elas

 

Janer Cristaldo

 

 

Se disser que me eduquei entre putas e comunistas, não estou fazendo nenhum jogo de palavras, como tampouco estou longe da verdade. Em verdade, não gosto da palavra puta, tornou-se pejorativa em seu curso na história. Prefiro falar de profissionais. Liberto das crendices católicas, fui delas me aproximando, com um misto de excitação e temor. Em Dom Pedrito, onde vivia nos cabarés, só conheci – no velho e sovado sentido bíblico da coisa – uma. No rio Santa Maria, no passo do Don Pedrito - contrabandista basco que deu nome à cidade - havia duas praias, antes que os arrozeiros destruíssem o rio. Uma destinada às famílias e, à jusante, a do baixo mundo pedritense. Mal descobri a praia das moças, me mudei para lá. Uma bela tarde, pus três delas em uma canoa e remei rio acima, queria levá-las ao universo que lhes era proibido. Navegamos serenamente entre a "gente de família", que aliás se comportou com elegância, sem demonstração alguma de escândalo. A aura execrável que me cercava, de catolicão que um dia pretendera acabar com a prostituição na cidade, transfigurou-se em coroa de louros. Coisa de dez anos depois, encontrei uma daquelas meninas em uma boate de Porto Alegre. Ao reconhecer-me, me levou para sua quitinete e não aceitou pagamento: "tu mereces, reconheci teu rosto, sempre foste um revoltado". Não sei se, algum dia na vida, recebi elogio que me tocasse tão fundo.

Só fui freqüentá-las com certa assiduidade em Porto Alegre. Não desconheço os embates mais ou menos desesperados com as pobres meninas da Voluntários da Pátria ou Riachuelo, nos dias de maior angústia e falta de dinheiro. Em um dos quartos que habitei, escrevi em um mural na parede dois versos de Geir Campos:

Comer o fruto amargo e não cuspir,
cumprir o trato injusto e não falhar.

Duas adolescentes, que apanhei nas proximidades da Faculdade de Filosofia, choraram boa parte da noite ao ler o poema.

Na universidade, a vida sexual tornou-se mais tranqüila. Só havia um problema. Para chegar aos braços de uma menina, era preciso citar muita Simone de Beauvoir, Wilhelm Reich, Henry Miller. Até mesmo com Carmen da Silva, uma feminista tupiniquim, se conseguia alguma coisa. As universitárias, filhas da classe média, teorizavam demais. A liberdade que elas sonhavam, encontrávamos nas meninas que trabalhavam em farmácias ou lanchonetes, sem precisar citar autores europeus. Mesmo quando mais folgado, não traí as profissionais que me haviam aplacado ímpetos quase suicidas nos dias de solidão. Mas mudei de status, freqüentava agora as meninas das boates da Andrade Neves. Delas, eternas saudades. Particularmente de uma noite de festa, em que a aniversariante, uma de minhas preferidas, me elegera como convidado de honra, condição que me era desconhecida.

Levei-lhe uma dúzia de rosas, mal entrei senti que ela tentava conter as lágrimas. Lá estava todo o bordel, mas a atmosfera nada tinha de erotismo. Era uma reunião familiar, com crianças, mães, pais, filhos. Ela estava linda, vestida em patchwork, e entramos na sala de mãos dadas. Apresentações - em verdade desnecessárias, eu era freguês de livreta de quase todas -, brindes, alegria geral. Foi quando chegou um fotógrafo.

Os machos presentes debandaram, uns queriam saber que horas são, "sabe, lembrei que tenho um compromisso", outros se concentravam na cozinha. Na hora de partir o bolo, Carmen me olhou como quem aposta tudo em uma só ficha. Medo bobo. Partimos o bolo juntos, uma mãozinha na outra. Ela quis beijar-me, beijei-a. Por estas fotos, tenho muito carinho. Me imagino às vezes como político, disputando uma deputação qualquer. Um adversário me ameaça com aquelas fotos. Por favor, que as publique na imprensa, em cores e preferentemente ampliadas, que delas muito me orgulho.

Naqueles dias, como dizem os evangelhos, sempre me senti melhor entre as profissionais que em uma reunião de família, e não tenho razão alguma para negar estas preferências. Em família, por mais honesto que seja o relacionamento entre pais e filhos, anfitriões e convivas, sempre há dissimulação e zonas de sombra. Entre elas, a verdade crua do instinto, a ausência da hipocrisia. Naquela noite, enxuguei lágrimas no rosto de Carmen madrugada afora. E não foi só no rosto dela.

A convivência mais intensa com elas ocorreu em Florianópolis. Era professor-visitante na UFSC, ganhava bem e algum bálsamo me era necessário para as crises de hipertensão após uma reunião de departamento. (Esta justificativa tem pouca sustentação: na verdade, sempre gostei do convívio delas). Ao final daqueles massacres mensais e às vezes semanais, em que egos amarrotados voltavam ofendidos e humilhados para seus lares, eu voava em um táxi para um endereço discreto na Adolfo Konder - a casa da Tê - ou para uma sauna explícita, na Anita Garibaldi. Enquanto os PhDeuses estavam preocupados em saber se Capitu havia ou não traído Bentinho, ao alcance de meu desejo havia uma dúzia de mulheres, nuas ou vestidas, ao meu dispor e à minha espera.

Dado o carinho com que sempre tratei as profissionais - as competentes, bem entendido - era cliente preferencial. Jamais desviei de calçada ao encontrá-las na Felipe Schmidt, em geral lhes fazia algum afago. Com algumas delas, me submeti ao sacrifício de tomar aquele café abominável do Senadinho. Uma profissional se sente mal quando evitada em público, e jamais causei este constrangimento àquelas meninas que tanto me alegraram os dias na ilha. Sempre as beijei com carinho ao encontrá-las na rua. Minhas diletas, orgulhosas de serem tratadas como gente por um universitário, quando na sauna, só se tornavam disponíveis aos demais clientes após o "professor" ter-se decidido por uma delas. Diga-se de passagem, lá na ilha ganhei um nome de guerra que porto como comenda: Professor Paixão.

Para ser franco, o magistério gratificou-me mais no bordel que na universidade. Na UFSC, salvo raríssimas exceções - que se contar na ponta dos dedos me sobra um monte de dedos - as alunas queriam apenas o diploma para obter avanços salariais na função pública. Na casa da Anita Garibaldi, ao refugiar-me na cozinha para ler jornais, era abordado por meninas que preparavam vestibular. Não poucas vezes larguei minha leitura e passei às moças noções rápidas de história, geografia e literatura.

O bordel é uma instituição fascinante, pena que esteja acabando. Em São Paulo, por exemplo, a prostituição adquiriu uma dinâmica que envilece o ofício. As meninas anunciam nos classificados. O cliente, sem ter visto rosto nem corpo, dá um salto no escuro se contrata uma. O que gosto, na verdade, é chegar em um bar ou sauna e examinar as profissionais em oferta. Uma menina de Florianópolis, com quem tive tardes que não consigo esquecer, me perguntou um dia: "me escolheste pelas coxas, Paixão?" Aproveitei sua curiosidade para exercer minha pedagogia: "só um idiota escolhe uma mulher pelas coxas. A sensualidade está nos olhos", disse. Estou certo que até hoje ela me adora. E eu também.

Machista, dirá alguma leitora eivada deste stalinismo sexista, o feminismo. Discordo. Entre os muitos fenômenos contraditórios destes dias de orfandade ideológica, está o dos coletivos ou sindicatos de prostitutas organizados pelos padres católicos. Ou seja, a profissional é uma vítima, e como tal deve ser santificada. Mas o cliente, aquele que lhe garante o sustento, é visto como vilão. Nesta ótica hipócrita, redime-se um dos assinantes do contrato, enquanto o outro - sem o qual o contrato seria inviável - é condenado às quintas dos infernos.

Vontade é o que não me falta, confesso, de criar um sindicato de usuários das profissionais do amor, insistindo em mais competência e carinho no exercício do ofício. Só que, neste universo cada vez mais politicamente correto - versão hodierna da Inquisição - meu projeto talvez não tivesse muitos seguidores.

Verdade que a Aids empanou os encantos do nobre ofício. Sou de uma geração que não se entende bem com a camisinha. Hoje, em parte por precaução, tenho mantido distância das meninas. Digo em parte, pois há outras razões. Cheguei àquela idade em que uma ópera ou um bom livro consegue me excitar mais do que muita mulher. Teve época em que, se a Kiri Te Kanawa viesse cantar em Porto Alegre e eu tivesse a perspectiva de uma noite com uma menina, a Kiri não contaria comigo para ouvir seus trinados. Era a época da estupidez juvenil.

Há algum tempo – anos 90, ainda na época do fax – percorrendo os classificados que anunciam acompanhantes e massagistas na Folha de São Paulo, encontrei uma que dizia enviar sua foto por fax. Maravilha: a tecnologia contemporânea a serviço do mais antigo dos ofícios. Paguei para ver. Telefonei pra moça e dei-lhe meu número de modem. Ela foi entrando aos poucos na tela, seu corpo levou seis minutos para chegar todo.

Por alguns a tive prisioneira na memória de meu disco rígido, em lingerie, "peitos durinhos e bumbum arrebitado", como anunciava. Telefonei para agradecer-lhe a cortesia, perguntei quanto custavam seus serviços. Cem dólares a hora, me respondeu. E aí a velha profissão perdeu para a tecnologia de ponta. Por cem dólares eu comprava uma enciclopédia em CD-ROM, que me oferecia centenas de horas de aprendizado ou lazer. Sem precisar usar camisinha. Verdade que o sexo sempre valeu mais que a cultura. Hoje, no mercado informal – para usarmos um neologismo – você consegue uma Britannica por 20 reais. Se for buscar naquilo que Marx chamava de Lumpenproletariat, certamente encontrará mulher pelo mesmo preço. Mas aí sexo não é alegria, e sim tristeza. O que está acabando com a prostituição – já disse alguém – é o amadorismo.

Nos dias de Europa, pouco as freqüentei. Um primeiro problema, o abismo entre as tarifas tupiniquins e as de Primeiro Mundo. Como bolsista ou turista, pagaria excessivamente caro por algo que, afinal, no Brasil, é tão bom ou melhor que lá. Em uma passagem por Copenhague, em um sexklubb, uma menina de óculos, com perfil de universitária, me propôs durante um lifeshow algumas carícias orais. Topei. Ao pagá-la, senti-me na obrigação de pedir desculpas. Via-se que não era do ramo e fazia aquilo como bico. Enfim, revendo o episódio a partir destes dias, em que presidentes constrangem estagiárias a felações, não me sinto tão vil. Ainda em Copenhague, tentei uma profissional nas ruas do ofício. I speak a little english, fui avisando. It's enough, me disse a moça. No mundo do comércio, poucas palavras bastam.

Jamais me entendi bem com elas no estrangeiro. A relação com a prostituta exige uma cumplicidade sociológica e até mesmo vernácula. Em Paris, mais para ver como era, visitei duas. A primeira anunciava várias modalidades, desde sexo à espanhola, à francesa, à sueca, à grega e à inglesa. Fiquei intrigado. Já havia vivido na Suécia e nada via de diferente na sexualidade aborígene. A oferta era tão cosmopolita que não resisti. Fui chez elle e perguntei por cada fórmula. À espanhola, sei lá porque, era entre os seios. À francesa, era oral. À sueca, manual, à grega anal. A cada parâmetro, o preço ia subindo. Bom, e à inglesa, como é que é? – quis saber.

Era o mais caro dos menus. Na época, cerca de mil francos. Deveria ser o melhor. Em que consiste? "Eu te algemo na cama, sapateio em cima de você e depois uso um chicote". Merci bien, chéri, nesta altura sou mais um papai-mamãe. O ser humano é mistério profundo. Nunca entendi como sentir prazer na dor. Já os britânicos, parece que entendem.

A segunda, Madame Brouillard, uma felliniana e circunspecta senhora de óculos que fazia ponto na entrada da rua Saint Denis. Em homenagem a Fellini – ou talvez a mim mesmo – contratei-a. Ela me lembra hoje a mais esteatopígica das personagens da Cidade das Mulheres. Em outro giro por Paris, revi Madame Brouillard no mesmo ponto, em um inverno ameno, envolta nas brumas que lhe davam o nome, eterna e com ar professoral. Claro que eu não ocupava espaço algum em sua memória.

Que mais não fosse, eu não fora à Europa para pagar mulheres. Me sentiria o último dos homens se não as tivesse de graça.

 

 

Janer Cristaldo é escritor, jornalista, tradutor e Dr. em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle.
e-mail: janercr@terra.com.br
blog: cristaldo.blogspot.com
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