São Paulo, 08 de março de 2004

 

Na capital da paz

 


Janer Cristaldo



Cheguei a Dom Pedrito em 1958, época em que bombachas eram um estigma. Numa tentativa de adaptação à "urbe", troquei botas e alpargatas por sapatos, mas sempre preservando as bombachas, o que me tornava um ser híbrido e grotesco. Hoje, elas são ostentadas como símbolo de identidade cultural. O que não deixa de ser ridículo, botas e bombachas só fazem sentido para o gaúcho a cavalo, jamais para o ser urbano motorizado.

Neste sentido, os florianopolitanos não deixam de ter razão quando nos satirizam. Qual é o menor circo do mundo? A bombacha, só cabe um palhaço dentro. Naqueles anos 50, usá-las era sinônimo de grossura. No ginásio não me pouparam, enquanto não as troquei pelas "calças corridas" me senti um verme. A violência do choque com a cidade me fez por algum tempo repudiar meu próprio pai. Quando já havia optado pela calça de vinco, ele chega a Dom Pedrito, montado em suas bombachas. Adolescente e inseguro, massacrado pelo esnobismo da província, sentia vergonha ao sair na cidade com aquele gaúcho - um dos últimos - que nunca renegou suas origens. Suponho que muitos fronteiristas de minha geração, que um dia trocaram o campo pela cidade, terão vivido este trauma, sem coragem de confessá-lo. Quando me refugiei lá pelas bandas do Pólo Ártico, confrontado com outros modos de vida, pensei: volto a Dom Pedrito, pego o Canário pelo braço e vamos passear de bombachas pelo centro da cidade. Tarde demais. Meu pai morreu enquanto eu esperava um navio em Lisboa.

Minha primeira viagem foi para Dom Pedrito. Sessenta quilômetros de bicicleta em estrada de barro e areia, em geral a bicicleta me transportava, por outros quilômetros eu a carregava. Senti um nó na garganta quando pisei pela primeira vez solo europeu em Barcelona, perdi a voz quando vaguei pelo Saara argelino, mas Dom Pedrito foi pura decepção. Eu esperava demais do que seria uma cidade. No campo, lia contos de fadas e revistas em quadrinhos, adaptações das histórias dos Grimm, das Viagens de Gulliver e das Mil e Uma Noites. Tinha uma idéia da cidade como algo dourado, resplandecente, de preferência com torres e minaretes. Dom Pedrito era mais para branco e cinza que para amarelo. Que lembrasse minarete, só tinha uma caixa d'água, e das mais gordas. As cidades de sonho, Paris, Estocolmo, Veneza, Amsterdã, Salamanca, Cuenca, só fui conhecer bem mais tarde. Como também Praga. Diria hoje que a capital da ex-Tchecoslováquia, amarelecida por um sol hibernal, correspondia a idéia que, lá na campanha, eu fazia de uma cidade.

Dom Pedrito foi sempre atrito, a começar pelas bombachas. Logo adiante, o conflito religioso. Nas Três Vendas, fui catequizado pela mulher de um fazendeiro uruguaio. Doña Chichi vivia rezando para que Deus iluminasse o prefeito de Dom Pedrito, que o inspirasse a encascalhar a estrada do Ponche Verde, para que Dom Soilo pudesse escoar suas safras. Mal cheguei na cidade, caí direto na Congregação Mariana, criada pelo padre Antônio Paul, vigário de Dom Pedrito e diretor do Colégio Nossa Senhora do Patrocínio. Naquela época, acreditava piamente em Deus, Cristo, virgindade de Maria e outras potocas. Como sempre levei minhas crenças a sério, acabei assumindo a presidência da congregação e não conseguia admitir certas contradições à minha volta. Meus congregados comungavam aos sábados, dia consagrado a Maria, e acordavam no domingo em um bordel. Com aquele ímpeto messiânico que contamina todo cristão novo, estabeleci meu silogismo. Dom Pedrito era uma cidade fundamentalmente católica. A Igreja considerava pecado sexo fora do matrimônio. Logo, vamos acabar com a prostituição. Se não no país, pelo menos na cidade. Eu fazia na época uns três ou quatro programas semanais na Sulina - então Rádio Ponche Verde. Através deles, conclamei a comunidade a acabar com a peste.

Coberto de ridículo, não conseguia ir de casa até o ginásio sem receber vaias ao longo do caminho. Padre Antônio não julgou de bom tom minhas arengas - "se não houver prostituição, que vai ser das empregadinhas?". No fundo, o mesmo argumento de São Tomás e Santo Agostinho, a idéia de uma cloaca por onde se escoam os detritos do castelo. Meus programas radiofônicos foram cortados, a matrícula no ginásio cancelada e a Congregação Mariana fechou pra balanço. Foi meu primeiro feito, acho: por uma busca de coerência, acabei com aquele clubinho de adolescentes que, por pressão das mães ou dos padres, fingiam cultuar a virgindade de Maria. Busquei refúgio em Santa Maria, no colégio Santa Maria, dirigido por irmãos maristas, Maria sempre me perseguindo. O trauma havia sido de tal porte, que nos primeiros dias na cidade, mal via um grupo reunido numa esquina, por um reflexo condicionado adquirido em Dom Pedrito, ficava tenso à espera de insultos. Com o tempo, passou.

Para quem não saiu da província, o culto mariano pode parecer superstição de cidades interioranas. Viajando e lendo, vê-se que é mais poderoso mito do Ocidente, base de todo o cristianismo. A Igreja romana pouco se preocupa quando alguém nega Deus, afinal restam os que nele crêem. Se alguém põe em xeque a infalibilidade do papa, não faltam multidões que a têm como dogma. A pedra de toque do catolicismo, e ao mesmo tempo seu ponto mais frágil, é o hímen de Maria. A partir do momento que se aceita a idéia de uma mãe virgem, todos os demais absurdos têm portas abertas.

Cidadãos dos anos 90, tivemos o privilégio de assistir à morte de uma grande religião, com pretensões milenaristas, que não chegou a durar um século, o marxismo. Caiu o Muro de Berlim e permanece incólume o cabaço milenar de Maria. No dia em que se esfarelar teremos uma perestroika no Vaticano. Se não era virgem, porque não teria tido outros filhos, como realmente teve? E quem a teria deflorado? José não foi, já nos diz a Bíblia. A única hipótese histórica. aventada por Celso, é um soldado romano chamado Pantera. Se o pai era um soldado romano, o filho já não é mais de Deus.

Falar em Maria, cabe registrar pelo menos um fato, acho que insólito,- nas instituições de ensino gaúchas. Cheguei maturrango em Dom Pedrito, sem conhecer as práticas urbanas. Masturbação, fui saber como é que era no Colégio Nossa Senhora do Patrocínio, na época dirigido pelos padres oblatos e exclusivamente masculino. Diga-se de passagem, era ridicularizado não só por usar bombachas, mas também por não me masturbar. As aulas, conforme a cumplicidade do padre professor, eram alegres festivais de masturbação. Só então vi como se fazia a coisa. Adolescentes em plena descoberta do sexo, cada tarde eram três quatro orgasmos per capita, sem trocadilhos. A turma toda se masturbava furiosamente, enquanto o professor, suponho que deliciado, fingia dar sua aula. No final da tarde, um odor intenso de esperma - que não poderia passar despercebido nem mesmo para um anacoreta - flutuava pela sala. Se a separação por sexos na escola tinha por fim evitar os pecados contra a carne, a estratégia foi contraproducente. Os padres que hoje respondem processos por pedofilia, certamente jamais ouviram falar daquele Éden pedritense, o colégio Patrocínio.

O bordel acabou no início dos anos 60. Com a encampação do colégio pelo Estado, meninas e professoras passaram a ser admitidas, e só então adquirimos uma certa civilidade. Daqueles dias, restam-me duas cenas felinianas. Uma, antes da encampação do colégio. Em um daqueles concursos diários de ejaculação, um dos alunos exagerou em sua arte, ultrapassando os limites daquela hipocrisia tácita entre professor e discípulos. Foi expulso da aula. Acontece que o virtuose se chamava Caim. Até hoje não consigo esquecer o rosto vermelho do padre Lourenço van der Raadt, dedo em riste, furibundo: "Caim, pegue os livros e vá para casa". Tenho certeza que foi com aquele mesmo gesto e mesma ênfase que o anjo do Senhor expulsou Adão do paraíso.

A outra cena ocorreu na fase pós-masturbatória (mas não muito). Chegou de Porto Alegre uma professora de biologia, um par de coxas fenomenais, nem um pouco mesquinha em exibir seus dotes. As turmas já eram mistas, aquela aisance dos tempos dos oblatos era nostalgia. As meninas, o freio civilizatório, estavam ali, a nosso lado. À frente, aquele vale profundo, sombrio, entrevisto sob a saia, antevisão de uma Canaã de leite e mel abundantes. A ala masculina perplexa, com olhar de peixe morto. Ela, ou pelo menos sua metade que ficava acima da mesa, distante e impassível, como se nada tivesse a ver com o que exibia lá embaixo. Um belo dia, resolveu provocar:

— Senhor Cristaldo, suba ao estrado.

Vermelho, de mão no bolso, obedeci à intimação, de costas para as meninas, olhar fixo no quadro negro. A pedagoga, coxuda e implacável, fria como navalha:

— Senhor Cristaldo, vire-se para seus colegas.

Mais o golpe de misericórdia:

— E por favor, senhor Cristaldo, tire as mãos do bolso.

Saudades daquela professora! Sempre fui bom em biologia, que aula dela eu não perdia.

Padre Lourenço, professor de inglês, por várias semanas nos lavou a alma. Mal havia chegado da Holanda, a turma inventou de chamá-lo de Padre Bicha. Se com pertinência, não sei. Sem conhecer nada de português, cada vez que entrava na aula era saudado com um sonoro "Padre Biiiicha!" Julgando que se tratava de um apelido carinhoso, ria feliz e sacudia as mãos juntas sobre a cabeça, como um atleta ao celebrar um gol. Pelo menos até o dia em que conheceu melhor as nuanças do português. O homem entrou na aula vermelho, o rosto entumecido pelo sangue. Nossa tradicional saudação ficou na garganta. Foram duros os meses pela frente.

A experiência de colégio masculino só serviu para realçar a importância da presença feminina. Mesmo hoje, dou meia volta se ao entrar em um bar vejo um clube exclusivo de machos. Meus -como direi? - companheiros de sexo são em geral abomináveis quando reunidos longe do olhar feminino. A presença de uma mulher - pode ser a cozinheira do boteco - ameniza qualquer ambiente e faz com que os machos mantenham uma certa postura civilizada.

A fé católica, enfiada a machado na cabeça, eu a perdi lendo a Bíblia. Ou melhor, antes dela me caíram nas mãos dois livrinhos, Por que no soy cristiano, de Bertrand Russel, e Hacia una moral sin dogmas, de José Ingenieros, pensador positivista argentino. Havia um tráfico muito intenso de idéias na fronteira, devido à proximidade com o Uruguai e a Argentina. Os livros proibidos na escola inevitavelmente caíam em nossas mãos, geralmente trazidos por militantes comunistas. Cabe lembrar que a primeira célula comunista no Brasil não surgiu em São Paulo, em 1922, como pretendem os paulistanos, mas em Santana do Livramento, em 1918, por influência dos marujos anarquistas italianos que atracavam no porto de Rio Grande. Mal os bolcheviques assaltaram na Rússia o Palácio de Inverno, a fronteira gaúcha já estava dando continuidade à "revolução". Entre aspas, por favor. Pois as revoluções, como dizia Ernesto Sábato, começam com maiúsculas, depois são grafadas com minúsculas e acabam entre aspas.

Para Russel, os três impulsos humanos que a religião representa são o medo, a vaidade e o ódio. "O propósito da religião, poderia dizer-se, é dar uma certa respeitabilidade a estas paixões, desde que sigam por certos canais. Como estas três paixões constituem em geral a miséria humana, a religião é uma força do mal, já que permite aos homens entregar-se a estas paixões sem restrições, enquanto que, não fosse pela sanção da Igreja, poderiam tratar de dominá-las em certo grau".

Para quem andava em conflito com a ética católica, o pensador inglês era um apoio caído dos céus. Russel pecava pelo otimismo, acreditava que a humanidade já possuía os conhecimentos necessários para assegurar a felicidade universal. Sua vontade de crer no homem punha entre parênteses o fator estupidez. De qualquer forma, era reconfortante ouvir que o principal obstáculo para a utilização daqueles conhecimentos na obtenção da felicidade era o ensino da religião. "A religião impede que nossos filhos tenham uma educação racional; a religião impede suprimir as principais causas da guerra; a religião nos impede ensinar a ética da cooperação científica em lugar das antigas doutrinas do pecado e do castigo. Possivelmente a humanidade se encontra no umbral de uma idade de ouro; mas, se assim for, primeiro será necessário matar o dragão que guarda a porta, e este dragão é a religião". Muitos outros trechos sublinhei em Russel. Embora não participe de seu otimismo em relação ao bicho-homem, acredito que dentro em breve as nações mais desenvolvidas, ou pelo menos as camadas mais cultas destas nações, terão reduzido as religiões a meros verbetes de enciclopédias.

Se hoje os professores se queixam de que os alunos lêem pouco ou coisa nenhuma, os oblatos e as irmãs do Colégio Nossa Senhora do Horto, com as quais mantínhamos algum diálogo, viviam um drama inverso: nós líamos demais. (Por nós, entenda-se um grupo de cinco ou seis ginasianos, desconfiados com a cultura oficial e ávidos de idéias novas). O livro de Ingenieros, encomendamos de Montevidéu, através da irmã Helena, do Horto. Quando fui apanhá-lo, a coitada se consumia em dilemas, não sabia se nos entregava ou nos subtraía o livro, se o jogava no fogo ou se o guardava. "Este livro é diabólico, me queima nas mãos, não posso entregá-lo a vocês". Não há outra saída, ponderei, agora mesmo é que queremos o livro. Se não nos entregasse, criava um atrito inútil, sem falar que Montevidéu não era assim tão longe. O livro finalmente foi entregue, não sem mais algumas trecheadas angustiadas da irmã Helena. Soube, alguns anos depois, que ela renunciara ao hábito. Em parte terá sido em função de Ingenieros, o que me envaidece. Ainda adolescente, dei uma mãozinha para salvar alguém do ranço vaticano e do dogmatismo.

Talvez um dia Dom Pedrito, município cuja sede teria então uns vinte mil habitantes, produza um pesquisador que se debruce sobre currículos e cadernos escolares da época. Verá que os ginasianos do Patrocínio tinham um nível de cultura humanística que hoje raramente se encontra em um curso de Letras. Terminei o ginásio falando um bom francês, sem o qual jamais teria tido acesso a Paris e à Europa. O inglês que manipulei como jornalista, o aprendi nos quatro anos de ginásio. O latim, também quatro anos, acabou quando eu começava a usá-lo com certa fluência. Nos anos 80, quando lecionei Letras na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), me dava por feliz quando encontrava, nos últimos anos de curso, alunas que dominassem o português.

O choque anafilático ocorreu na primeira reunião que participei no Departamento de Língua e Literatura Vernáculas. Duas alunas, quartanistas de Letras, pediam ao Departamento um professor para explicar-lhes o que era sujeito e predicado, que até então elas desconheciam o que fosse. Perplexo, eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo, nem como elas haviam sido admitidas na universidade. Pior ainda, estavam se formando e já praticamente habilitadas a exercer o magistério.

Nestas ocasiões, sempre costumo evocar o professor Hugo Brenner de Macedo, dos dias de ginásio em Dom Pedrito. Certa vez cortou dois pontos numa prova de geografia, só porque um aluno escreveu feichão. Fizesse isto em Florianópolis, talvez nem dez por cento de meus alunos da universidade chegassem ao final de um semestre. Ainda em geografia, lembro do professor Hugo: "isso aí de rios, lagos, montanhas e cidades, vocês olham nos livros, está tudo lá. Nós vamos falar do que realmente importa, a geografia econômica, o empenho das nações pelo seu abastecimento, as trocas e lutas geradas pela necessidade de comer". Acabou cassado pelos militares.

Apesar do dogma e do catecismo, impostos a martelo, o Patrocínio forneceu a seus alunos uma educação de elite. Sempre me sinto um pouco dividido ao falar dos padres que foram nossos mestres. Por um lado, eram europeus arrogantes, déspotas esclarecidos. Sentiam-se como seres de uma civilização superior trazendo luzes aos silvícolas. (Luzes de uma galáxia extinta, medieval, não as luzes da Europa moderna). Por outro, com eles aprendi línguas, tive janelas abertas para o mundo. Os livros que nos proibiam sempre constituíram indicações bibliográficas excelentes, garantia de boas leituras. Em Santa Catarina, tentei usar este recurso, por vezes desaconselhava vivamente um livro, com certa indignação, para ver se os alunos o liam. Lá na ilha, nem assim deu certo.

Ao defender tese em Paris, não pude deixar de evocar Maria Veiga Miranda, que me introduziu com carinho quase materno nas guturais do francês. Não terá sido por acaso que este clima pedritense produziu um dos mais ágeis poliglotas brasileiros, o Carlos Freire. Na penúltima vez que falei com o Freire, ele já dominava cerca de quarenta línguas, que iam do ioruba ao swahili, passando pelo russo e árabe, chinês e ucraniano. Nestes últimos anos, o professor gaúcho se dedicou a um empreendimento insólito em língua portuguesa e mesmo nas demais línguas, a tradução de 60 poemas de sessenta idiomas diferentes. A antologia está pronta e espera editor.

Falava da Bíblia. Em umas férias no Upamaruty, me encerrei por uns três dias no quarto de nosso rancho, Bertrand Russel de um lado, a Bíblia de outro. Teria uns quinze anos. Meus pais achando que eu havia "treslido", como ocorreu com Don Alonso Quijana. Comia no próprio quarto. Só saía forçado por necessidades fisiológicas ou para cavalgar na madrugada, sob um céu crivado de estrelas, que ao homem urbano não é dado ver. Naquelas plagas, tal comportamento não era exatamente sinônimo de higidez mental. Cavalo é instrumento de trabalho, meio de transporte, não pretexto para desvarios metafísicos.

Ao final dos três dias, estava livre de Deus e de todo pacotaço ético que os padres carregam sob o sovaco. A Bíblia era um livro muito maior do que pretendiam os catecismos do Vaticano, sempre preocupados em controlar a vida sexual dos católicos, perversão papista que até hoje, às portas do novo milênio, continua sendo a pedra de toque de João Paulo II. Foi doloroso no início, naqueles dias havia morrido em mim qualquer esperança de paraíso, vida eterna, transcendência. A vida perdeu todo e qualquer sentido e andou me rondando a idéia de suicídio. O que também era absurdo. Se a vida não tinha sentido, a morte muito menos. Algo assim como uma nevralgia prolongada. Como toda dor de dente, acabou passando.

A libertação do cristianismo deveu-se em boa parte à sexualidade submetida a uma camisa de força. Os catequistas nos haviam instalado na cabeça uma maquininha de tortura, a noção de pecado, fundamentalmente ligada ao prazer sexual. Mal cometíamos um "pecado contra a carne", a maricota começava a girar: ofensa ao Cristo, transgressão da lei divina, medo da morte e dos tormentos do inferno, arrependimento e contrição, votos de não mais pecar. Dia seguinte, pecado de novo. Já que havia pecado uma vez, aproveitava para pecar outras, que a absolvição valia para todas. Autoflagelação imediata: a cada masturbação ou relação sexual, um sentimento de medo e desespero me levavam correndo ao confessionário. Particularmente após uma noite de tempestade. Pode parecer megalomania, mas os raios, evidentemente, só podiam ser dirigidos a mim, pecador.

Os padres queriam detalhes, o interrogatório era basicamente obsceno. Hoje, entendo melhor a psicologia dos confessores. Adulto, me descobri um dia falando baixinho com uma parceira, em um momento de muita excitação, sem ter razão alguma para falar baixinho. Por algum mecanismo qualquer da mente do bicho-homem, naquela hora em que a pele do peito começa a avermelhar, a tendência é sussurrar. Hoje, entendo aqueles sussurros em meio à luz macia das igrejas. Eles eram os precursores do sexo por telefone, os castos oblatos.

A tensão insuportável daquela sucessão de gozo e medo, transgressão e arrependimento, humilhação ante o confessor e alegria da absolvição, é tortura que não desejo a ninguém, como tampouco dela absolvo meus algozes. Nestes dias em que tanto se fala de direitos humanos, algum dispositivo qualquer deveria punir como crime contra a humanidade este vício inquisitorial de sacerdote, o de instalar o sentimento de culpa no cérebro de uma pessoa, para que esta se torture a partir de qualquer transgressão a uma ética doentia, inimiga do prazer. Ocorreram dois suicídios inexplicáveis de ginasianos do Patrocínio naquela época, e hoje me pergunto se atrás deles não estariam estes instrumentos de tortura mental.

Mais tarde, um pouco antes de perder a fé, militei na Juventude Estudantil Católica (JEC) e Juventude Universitária Católica (JUC). Os religiosos que nos orientavam eram mais abertos, desciam do púlpito e não se escondiam atrás das grades dos confessionários para enfrentar os jovens. O conflito sexual persistia. Em Santa Maria, eu apertava o padre Carlos Pretto contra a parede: "Se mulher é tão bom, por que é proibido?" Pretto armava uma longa história, de final curto e grosso. Que não devíamos ir para a cama com uma mulher por amor a ela. Nada mais fácil para um crente do que inverter uma evidência. De minha parte, era por amá-las que as queria na cama. Mas Pretto não era de ferro, e as militantes de JEC e JUC, secundaristas e universitárias cheias de charme e desejo, fizeram um excelente trabalho de sapa. Mais adiante Pretto já ousava heresias desde "mulher e religião não se discute, se abraça" a outras do tipo "se batina fosse bronze, que badaladas!". Os sacerdotes que desceram do púlpito para falar conosco acabaram largando a batina, casando e fazendo filhos. Foi nossa revanche a longo prazo. Pau duro não tem amigo, dizia meu pai. Muito menos fé, acrescentaria eu.

Naqueles dias de férias no Upamaruty, mal despontava uma tempestade, eu montava um cavalo em pêlo e o esbarrava frente às casas de meus tios e primos, espalhados num raio de várias léguas. Se caía um raio, eu berrava: "Manda outro, grande Filho da Puta!" Era uma forma de manifestar minha revolta ante o engodo. Tios e primos, camponeses que viam em Deus algo assim como um gestor das chuvas e raios, cobriam espelhos com panos, escondiam tesouras e facas de ponta e se persignavam assustados. Ensopado pela chuva, mais ou menos ébrio sem ter bebido nada, eu exercia minha liberdade recém-conquistada. Claro que se um raio atingia algum eucalipto mais alto, o culpado era este herege. Quando tive melhores noções de eletricidade, no curso científico, gelei ao perceber minha temeridade. Galopando na pampa deserta e junto a umbus e alambrados, minhas chances de receber um raio eram bem maiores do que imaginava. Pior ainda: acabaria dando razão ao suposto gestor dos raios.

Revoltas da adolescência. Hoje, jamais me divertiria às custas da fé dos simples. Gosto de reptar, isto sim, a fé dos cultos. Ninguém me convence que um Karol Wojtyla ou um Evaristo Arns, lidos, cosmopolitas e dominando várias línguas, acreditem naquele Deus sedento de sangue nascido no deserto.

Assumida minha condição de ateu, gozo particularmente uma de suas vantagens, o senso de mistério. Para o crente, tenha caído um avião em sua cabeça, ou tenha acertado na loteria esportiva, tudo é normal, já estava escrito: foi Deus quem quis. Para o ateu, tudo é mistério e em boa parte obra do Acaso. Fosse crente, não me surpreenderia ter saído das grotas para viver em Estocolmo ou Paris, seria determinação das altas instâncias celestiais e teria sido por isso que Deus me apresentou a uma professora de francês. Ateu, até agora estou surpreso com meu passado e curioso com os dias que me sobram. O homem de fé jamais vai experimentar esta excitação que contamina o ateu, a de ver o amanhã como um mistério permanente.

A primeira surpresa ocorreu ainda no campo. Estudei em escola rural, a uma légua de casa, a cada rancho na beira da estrada o grupo de crianças aumentava. No inverno, saíamos de pés nus quebrando geada, as alpargatas debaixo do braço para não ficar de pés molhados durante as aulas. Em uma sanga antes do colégio, lavávamos os pés, e só então se calçava as alpargatas. Mais tarde meus pais compraram um aranha, eu me sentia quase adulto ao ajudar a atrelar um tordilho percherão. Da confluência desta aranha e do tordilho, mais Ivone Garrido, uma professora de Dom Pedrito, dependeram minhas futuras andanças.

As professoras do primário nos ensinavam fundamentalmente a ler, escrever e contar. Poucas noções tínhamos de outras disciplinas. O que, visto de hoje, já foi muito. Não poucos universitários, hoje, desconhecem tabuada. Na hora de conferir uma conta, puxam uma maquininha de calcular. Volto ao Grupo Escolar de Três Vendas. No quinto ano primário, com escassas noções de história ou geografia, fomos informados que professoras "da cidade" viriam fiscalizar as provas. Pânico total de nossas professoras. Fora escrever e as quatro operações, mais alguns poemas cívicos, ninguém conhecia muita coisa além disso. Mas para tudo há solução. As provas chegaram numa sexta-feira. Numa época em que sequer havia rádio na região, fomos todos convocados - sei lá como, suponho que à pata de cavalo - num raio de léguas, para uma aula no domingo. Violadas as provas, recebemos as respostas para decorar.

Dia seguinte, as fiscais de Dom Pedrito constatavam, boquiabertas, a excelência pedagógica de nossas mestras. Os alunos escreviam tranqüilos, sem hesitar um segundo, foi nota dez pra todo mundo. Minha mãe era professora e claro que cúmplice. Mas não muito. Sempre exibiu uma vara de marmelo quando eu me recusava a estudar. Não só exibia como tampouco foi avara ao aplicá-la. Naquela segunda-feira, minha sorte estava selada. Findo o curso primário, bom em matemática, o máximo que podia aspirar era ser caixeiro nalgum bolicho das Três Vendas ou Ponche Verde, uma das poucas chances de escapar ao rabo do arado. Findas as provas, atrelei o tordilho à aranha. Uma fase havia terminado em minha vida. Voltava ao campo, talvez para lá morrer.

Dei de rédeas ao tordilho, a aranha já descia o lançante da coxilha. Foi quando Dona Ivone Garrido, a fiscal implacável, já de certa idade e não muito ágil, atravessou um alambrado de sete fios que cercava o colégio e gritou: "pára, Clotilde, teu filho é um gênio, ele não pode voltar para o campo". Minha mãe, que só queria ouvir isto, me tomou as rédeas das mãos e esbarrou o tordilho. Daqueles segundos geridos pelo deus Acaso - e aqui começa o mistério - decorrem minhas andanças e estas linhas.

 

 

Janer Cristaldo é escritor, jornalista, tradutor e Dr. em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle.
e-mail: janercr@terra.com.br
blog: cristaldo.blogspot.com
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