São Paulo, 01 de outubro de 2008

 

Algumas coisas a fazer antes do fim do mundo

 

 

Janer Cristaldo




ler a meia centena de livros das últimas viagens, que ainda me esperam em minha
cabeceira

organizar meus baús de cartas, herança daquela distante época em que se escrevia cartas. Se bem que... para quê?

comprar um leitor de ebooks

rever uma bugra guarani, que namorei nos dias de Dom Pedrito e que me sussurrava ao ouvido: xemboraihú

rever uma gaúcha de Porto Alegre que um dia reencontrei no Kungsträdgården, transida de frio, em Estocolmo. E com ela fazer de novo tudo o que fiz naquele dia

ouvir czardas no Café Central, em Viena

ouvir violinos ciganos nalgum café de Budapeste

tomar uma Leffe radieuse no Metrópole, em Bruxelas

uma jarra de cerveja, daquelas de litro, na Hofbräuhaus, em Munique

um cochinillo no Sobrino de Botín, em Madri, regado por um Marqués de Riscal

uma andouillette A.A.A.A.A. no Aux Charpentiers, em Paris, com um bom Cahors

um baba au rhum no Julien, em Paris

uma île flottante, no Bofinger, em Paris

rever aquela Carmen filmada pelo Francesco Rosi, com a Julia Migenes

rever Die Zauberflötte, com a orquestra do Ludwigsburger Festspiele, com Deon van der Walt e Ulrike Sonntag

rever Don Giovanni, regida por Wilhelm Furtwängler, com Cesare Siepi no papel-título e Otto Edelman como Leporello

ouvir Chavela Vargas, Miguel Aceves Mejía, Jorge Negrete

subir Toledo a pé

comer um cordero lechal no Aurélio, em Toledo

descer Toledo a pé

beber uma manzanilla no Venencia, em Madri

degustar outro cochinillo naquela cave medieval do Café de Oriente, também em Madri

subir de novo Santorini em lombo de mula

descer Santorini em lombo de mula

revisitar os vulcões de Lanzarote

comer um churrasco assado nas lavas dos vulcões de Lanzarote

rever a árdega peoniana de Skopje, que alegrou meus dias em Paris

ver de novo um nascer de sol junto ao Tridente, no Assekrem, no Sahara argelino

ouvir tuaregues contando histórias em torno a uma fogueira no topo da montanha

beijar mais uma vez uma distante amiga numa meia-noite gélida em Paris, vendo além dos olhos dela a agulha da Notre Dame penetrando a lua em quarto crescente

rever também aquela sabra baixinha e linda que alegrou meus dias numa travessia do Atlântico

ver uma aurora boreal

rever o sol da meia-noite, tomando um vinho naquela noite que não é noite com a Primeira-Namorada, em Tromsø, Noruega

conhecer Svalbard

Atacama, que ainda não conheço

viajar ao México e empinar una copa junto a uma banda mariachi

cantar canções de corno com os mariachis

flanar pelas ruas desertas de Veneza, ouvindo o chiado dos sapatos no silêncio da noite

rever o rancho onde nasci, lá na Linha, hoje tapera

debruçar-me sobre os pastos e beber água na cacimba frente ao rancho

abraçar minha professora de francês, dos dias de ginásio, em Dom Pedrito

uma janta de despedida com o pequeno círculo de amigos que até hoje me acompanham. Discutiríamos a Bíblia, teologia e o apocalipse. Sempre embalados pelo sangue das uvas

tomar mais um vinho com a Primeira-Namorada no topo do Edifício Itália, enquanto o sol se põe nesta São Paulo desvairada

quando soarem os primeiros sinais do Apocalipse, vou sentar-me nalgum boteco e ler o Qohélet

não é dado aos que partem voltarem. Se fosse, trocava tudo isto por um dia – um só dia, não mais que um só dia com minha Baixinha adorada. E partiria feliz rumo ao buraco negro

 



Janer Cristaldo é escritor, jornalista, tradutor e Dr. em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle.
e-mail: janercr@terra.com.br
blog: cristaldo.blogspot.com
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