São Paulo, 02 de agosto de 2004

 

A farsa de Marie

 

 

Janer Cristaldo

 

Já contei, mas curta é a memória das gentes. Conto então de novo. No verão europeu de 93, uma menina marroquina, Naima Quaghmiri, nove anos, morreu ao cair em um lago em Roterdã, na Holanda. Duzentas pessoas teriam assistido seu afogamento, sem prestar-lhe socorro. Abomináveis racistas holandeses teriam deixado morrer uma filha de imigrantes.

A notícia era absurda. Duas centenas de pessoas não observam, passivamente, uma criança se afogando. O lago era raso e no meio dele um bombeiro caminhava com água pela cintura. Dois dias depois, novo despacho retificava o anterior. Não havia uma menina se afogando e duzentos holandeses assistindo. Naima se afogara horas antes. Policiais e bombeiros haviam pedido aos veranistas que formassem um semicírculo, de mãos dadas, e percorressem o lago em busca do cadáver. Os veranistas se recusaram. Ora, há uma grande diferença entre recusar-se a prestar socorro a uma criança que se afoga e recusar-se a procurar um corpo. Mas os leitores do mundo todo ficaram sabendo que a Holanda era um pequeno país europeu, habitado no século passado por cruéis racistas brancos, capazes de negar auxílio a uma criança marroquina que se afogava.

Aconteceu em Sebnitz, na Alemanha, em 1997. Desta vez foi Joseph Abdulla, seis anos, filho de pai iraquiano e mãe alemã, a ser afogado por um grupo de neonazistas em uma piscina pública. Não só afogado, mas também espancado, torturado, ante a indiferença de 300 banhistas. Mas o escândalo só estourou nas primeiras páginas da imprensa em dezembro de 2000. Na época, o caso fora encerrado como um acidente normal. Graças à tenacidade da mãe da criança, a promotoria reabriu o caso três anos depois. Mesmo fractal do episódio em Roterdã: filho de imigrante se afogando, uma multidão de banhistas assistindo.

Os fatos foram um pouco distintos. A criança morrera afogada numa piscina pública cheia de gente. Quando bombeiros e médicos chegaram, era tarde demais: o corpo boiava há dez minutos sem vida. A polícia fez um inquérito e concluiu que tudo foi um lamentável acidente. O caso foi arquivado e esquecido. Ocorre que a mãe, a farmacêutica Renate Kantelberg-Abdulla, se convenceu de que Joseph fora morto por neonazis por ser filho de um iraquiano. Os assassinos tê-lo-iam previamente drogado e depois lançado à água. Para comprovar esta tese, foi contratado um dos advogados mais conhecido da Alemanha, Rolf Bossi. Renate conseguiu também o testemunho de 23 pessoas, adultos e crianças, cujas versões levavam a pensar que poderia não se ter tratado de um acidente. O Bild do dia 23 de novembro recoseu a matéria com o título Neonazis afogam criança. Sebnitz passou para a primeira página da imprensa internacional e foi invadida pela televisão. A família teve de fugir para a Baviera e trancou-se em casa de familiares. Kurt Biedenkopf, o ministro presidente da Saxonia, foi a Sebnitz participar numa cerimônia religiosa em memória da “vítima”. Edmund Stoiber; ministro presidente da Baviera, se disse horrorizado. “Não apetece viver num país onde uma criança de seis anos é assassinada por criminosos, por causa de motivos políticos, e onde ninguém mexe um dedo para impedir o crime”, escreveu o jornal Tagesspiegel, de Berlim.

Soube-se depois que Renate dera dinheiro às 23 testemunhas para influenciar as suas versões. Uma das crianças interrogadas confessou ter dito “aquilo que a senhora queria ouvir, para ela me deixar voltar para casa”. Tampouco foram confirmadas as ligações com grupos neonazis. O próprio Bossi, advogado de Renate, escrevera uma carta à sua cliente, duvidando da tese de uma conspiração racista e afirmando que ela “insistia em travar uma luta contra o resto do mundo”.

Ou seja: não havia criança alguma sendo morta por neonazistas, nem a Alemanha tinha porque se envergonhar de coisa alguma. Enquanto isso, Sebnitz, mais a Alemanha toda - e por extensão a Europa - foram difamadas, como geografias onde grupos neonazistas afogam filhos de imigrantes, como lazer. Turistas em massa desmascaram reservas em hotéis. Sebnitz perdeu milhões em turismo e ficou marcada com a pecha de cidade assassina e nazista.

Em julho de 2001, a Folha de São Paulo trazia uma curiosa manchete: Garota é estuprada em vagão de trem cheio na França. Diz a linha fina: Estima-se que cerca de 60 pessoas tenham testemunhado passivamente o ataque de seis adolescentes, segundo investigações. Vamos à notícia:

“Uma universitária de 21 anos foi estuprada duas vezes num trem em que, supostamente, viajam cerca de 200 pessoas, que iam de Dunquerque a Lille, mas nenhum dos passageiros tentou defendê-la, episódio que gerou indignação no país. Em 24 de maio, a estudante voltava a Lille após ter passado um dia na casa de seus pais, em Dunquerque, pois tinha aula na manhã seguinte. Na primeira parte da viagem, tudo transcorreu sem problemas. Mas, quando o trem parou em Bailleul, seis adolescentes entraram em seu vagão. Eles começaram a importunar os passageiros e, em seguida, a escolheram como vítima. Os seis começaram a ofendê-la e a tocá-la. Sem poder defender-se, ela tentou gritar, mas não conseguiu. Os adolescentes, todos entre 14 e 17 anos, conseguiram tirar suas roupas. Enquanto alguns dos jovens a seguravam, dois deles a estupraram”.

Cerca de 200 pessoas deviam estar a bordo do trem, mas ninguém reagiu, nem mesmo para acionar o alarme. Assim como foi redigida a notícia, resta ao leitor a impressão de que os franceses são seres absolutamente insensíveis ao sofrimento alheio, capazes de continuar lendo seu jornal enquanto uma menina é estuprada à sua frente. Ora, a maioria dos trens europeus têm cabinas isoladas para seis pessoas, com portas e cortinas que podem ser fechadas. À noite, quando teria ocorrido o episódio, normalmente as portas são fechadas e as cortinas corridas pelos passageiros, que não querem ter o sono perturbado pela luz do corredor ou pela passagem de pessoas. Nestas circunstâncias, até um massacre pode ocorrer em uma dessas cabinas fechadas, sem que nenhum passageiro tenha conhecimento do mesmo.

A notícia não teve seguimento. Ao que tudo indica, não tinha fundamento. Nada mais se soube dos suspeitos ou do julgamento destes. Muito menos da investigação. Foi como se o fato se esgotasse na notícia. Mas nos milhões de leitores que leram a notícia naquele dia, ficou a convicção de que os franceses são monstros frios e insensíveis.

Na semana retrasada, dia 10 de julho, a máquina de produzir racismo voltou a funcionar. Uma jovem de 23 anos, Marie L., que viajava com seu bebê de 13 meses no metrô de Paris, apresentou queixa à polícia de ter sido agredida por um grupo de jovens desconhecidos com idades entre 15 e 20 anos. Os agressores seriam negros e africanos do norte. Rasgaram sua roupa, cortaram seus cabelos, atiraram seu bebê no chão e pintaram suásticas em sua barriga por acreditar que ela fosse judia. Ainda segundo Marie, cerca de vinte pessoas assistiram à agressão passivamente, sem sequer prestar-lhe auxílio.

Escândalo na França, horror na Europa. Os jornais do continente deram suas primeiras páginas ao fato abominável. Jacques Chirac manifestou seu susto ao tomar conhecimento "desta odiosa agressão" e pediu que seus autores fossem "julgados e condenados com severidade e responsabilidade". Organizações religiosas e de direitos humanos condenaram com veemência não tanto a agressão dos árabes e negros, mas principalmente a omissão e passividade dos demais passageiros. Um clima de progrom perpassou a Europa. O primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, exortou os judeus da França a viajar imediatamente a Israel. "Proponho a todos os judeus que venham a Israel, mas para os judeus da França é absolutamente necessário, e eles devem partir imediatamente", disse Sharon. Como se a França tivesse declarado guerra a Israel.

Por 48 horas, o país foi tido como uma reencarnação da Alemanha nazista. Logo se descobriu que a denunciante era uma moça com problemas mentais, que já apresentara queixas semelhantes no passado. Um exame das imagens das câmeras de segurança da estação de metrô não mostraram agressão alguma. Eventuais testemunhas foram chamadas a depor e nenhuma se apresentou. Diante das evidências, a moça acabou “quebrando” e admitiu a farsa.

Jornal algum, nem mesmo o sisudo Le Monde, teve a preocupação de checar a notícia, que tinha todos os componentes para ser um blefe. E blefe dos mais perigosos, pois joga com ressentimentos de duas comunidades que nutrem ódios milenares. A prefeitura de Lyon chegou a programar uma passeata contra o anti-semitismo, cancelada após a confissão de Marie L. Os muçulmanos, por sua vez, tiraram sua casquinha, denunciando uma "islamofobia reinante, acentuada pelos meios de comunicação e as autoridades, que se lançaram a denunciar os fatos sem esperar para verificá-los".

É fácil acusar uma multidão. Os fabricantes de racismo desde há muito intuíram isto. Como ninguém é acusado individualmente, ninguém reclama. Mais difícil é acusar uma ou duas pessoas. O acusado se vê forçado a defender-se e o acusador arrisca um processo. Como a luta de classes está fora de moda, o racismo tornou-se o novo motor da história. Multidões serão novamente denunciadas por crimes que não foram cometidos nem podem ser provados. Mesmo desmentidos, comunidades e países inteiros herdarão a pecha de racistas. O alvo é a Europa. Como o fantasma do comunismo não conseguiu dobrá-la, como previa Marx já no Manifesto, suas viúvas brandem um outro, o da luta racial.

 

 

 

Janer Cristaldo é escritor, jornalista, tradutor e Dr. em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle.
e-mail: janercr@terra.com.br
blog: cristaldo.blogspot.com
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