São Paulo, 04 de junho de 2004
A Europa cede
Quem viaja guarda não poucas imagens na retina. As mais recorrentes, pelo menos no que a mim diz respeito, não são as de monumentos ou grandes arquiteturas, mas pequenas percepções de fatos aparentemente sem significado maior. De Veneza, por exemplo, não foram as imagens dos canais e pontes, nem mesmo do café Florian ou da basílica São Marco, as que cultivo com mais carinho. Mas sim algo que agência de turismo nenhuma vende, o chiado de meus sapatos nas ruelas desertas daquela cidade de sonho. Eu viajava com uma amiga macedônia e, embalados por não poucas doses de bom vinho, nos perdíamos com gosto pelos vicolos e canais de uma Veneza noturna e silente. Para sorte nossa, não havia viva alma na rua que nos desse uma informação. Não sei o que pensa o leitor, mas sentir-me perdido em cidade que desconheço é um dos prazeres que mais curto em uma viagem. Bem entendido, perder-se em cidades feias e hostis não tem graça alguma.
Conversando com outros viajores que por lá perderam suas almas, me surpreendi com a coincidência de nossas percepções. O que mais lhes marcara na cidade fora o ruído dos próprios passos. Mas uma viajante de longas milhagens e não menor prudência me alertou: na Europa de hoje, não é muito bom revisitar cidades que amamos em nossa juventude. Já faz um bom tempo que não volto a Veneza, mas, pelo que leio nos jornais, suponho que já não mais consiga ouvir meus passos. A cidade tornou-se uma espécie de museu, percorrida por centenas de milhares de turistas, que pouco espaço deixam ao viajante sem guia nem pressa.
O mesmo está acontecendo nas demais cidades italianas e nas metrópoles européias. Ver a Capela Sixtina ou subir na Torre Eiffel exigem paciência de monge e bom preparo físico, pois você, com sorte, terá de esperar duas ou mais horas na fila. Conseguir um hotel em Amsterdã, em final de semana, já é um parto. Ver os cavalos bailarinos de Viena, só reservando ingresso com três meses de antecedência. Uma ópera, idem. E as autoridades do setor de turismo da China nos acenam com a perspectiva de cem milhões de chineses turistando mundo afora, daqui a uns quinze anos.
Mais outros dez anos, e o planetinha terá mais dois bilhões de habitantes. Foi neste sentido que escrevi em meu blog, na semana passada, sobre as razões que tornam bem-vinda a morte. Houve leitores que viram em mim um enamorado precoce pela Indesejada das Gentes. Nada disso. Apenas acho que a vida será mais bem desconfortável daqui a vinte anos. Honestamente, não me concebo disputando espaço com cem milhões de chineses. Isso sem falar nos dois bilhões de novos condôminos. Há pessoas que não aceitam a morte. Certamente jamais tentaram imaginar o horror que seria este mundinho se desde Adão para cá não tivesse morrido ninguém.Não porque deixar de ouvir meus passos em Veneza seja motivo para desejar partir. O fato é que o mundo está se tornando cada dia mais desconfortável. Ao mesmo tempo em que as metrópoles do Ocidente criam grandes espaços para deslumbramento de seus visitantes, a densidade humana aos poucos os deteriora. A Paris que eu conheci há trinta anos era muito mais Paris do que a de hoje. E tenho certeza de que a de sessenta anos atrás era melhor ainda.
O mesmo diga-se de São Paulo ou Porto Alegre. Não por acaso, olhamos com um misto de ternura e desconsolo as fotos antigas e amareladas da avenida São João ou da Rua da Praia. Certa vez, decidi atravessar a pé o centro de São Paulo em um domingo. Conheço não poucas cidades do mundo, inclusive algumas socialistas, e confesso jamais ter visto algo tão deprimente. Nem mesmo no Cairo.
Nos últimos anos, uma nova ameaça inquieta quem gosta de viajar por cidades imponentes, o terror. Paris, desde há muitos anos - e não apenas depois do 11 de Setembro - vive sob este clima. Desde uma boa década os receptores de lixo nas ruas são de plástico transparente, para prevenir atentados. Uma mala esquecida em um metrô provoca pânico e aciona imediatamente as brigadas antiterrorismo. Estive em novembro passado em Roma.Certos dias, havia mais polícia nas ruas do que transeuntes.
E o terror é seletivo, escolhe sempre as capitais com mais charme e sofisticação. A Al Qaeda - ou quem quer que ande matando às cegas por aí - jamais vai atacar em Kinsasha ou Bucareste. Terroristas têm bom gosto. Só sentem atraídos pelas cidades lindas. Lindas e do Ocidente. O que for feio, pobre e oriental não está ameaçado.
Não é o terror, no entanto, o que torna o cronista sombrio. Para um brasileiro, as chances de morrer por uma bala perdida ou em um latrocínio são bem maiores que a de ser vitimado por atentados como os de Nova York ou Madri. Não, não é o terror que me torna amargo. O que entristece é ver uma Europa render-se ao obscurantismo, em nome do famigerado respeito à diversidade cultural, tolerância religiosa ou como quer que se chame o instrumento de chantagem empunhado pelos fanáticos do Islã.
Na Inglaterra, muçulmanos já fazem homenagens aos terroristas do 11 de setembro - os "Magníficos 19" - sob o olhar complacente da polícia. Na França, um clérigo argelino defende o direito de o marido espancar a mulher e a Justiça francesa não consegue deportá-lo. Que árabes homenageiem terroristas ou espanquem impunemente suas mulheres lá nas Árabias, entende-se. Que preguem - também impunemente e com proteção do Judiciário - tais atrocidades no Ocidente das liberdades individuais e dos direitos humanos, já não dá para entender. É como se o velho continente, cansado com o peso dos séculos, tivesse abdicado de seus valores e cedesse à barbárie e à entropia.
A última reivindicação dos muçulmanos na Europa - pasma, leitor! - é piscina separada para homens e mulheres nas escolas francesas. E os muçulmanos já são cinco milhões na França. (Mais um pouco e estes senhores pretenderão proibir o vinho). Confesso jamais ter freqüentado piscinas em meus dias de Paris, e tais discriminações não deveriam, a rigor, afetar-me. Mas me sentiria muito mal flanar por um país - do Ocidente, é claro - onde jovens fossem separados por sexo nas piscinas.
Por essas e por outras, falei sobre as razões que tornam a morte bem-vinda. Mas não se preocupem meus afetos, nem se alegrem meus desafetos. Não é pra já. Enquanto a voz esganiçada do muezim não sufocar o bimbalhar dos sinos, a Europa valerá ainda muitas missas. Mas que está ficando triste, isso está.
Janer Cristaldo é escritor, jornalista, tradutor e Dr. em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle.
e-mail: janercr@terra.com.br
blog: cristaldo.blogspot.com
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