São Paulo, 19 de julho de 2004

 

 

A Corrupção dos Críticos

 

Janer Cristaldo

 

Você já viu o filme East Side Story, da cineasta romena Dana Ranga? É claro que não. Só conheço uma pessoa que o viu no Brasil, eu mesmo. Alguns gatos pingados mais devem tê-lo visto, mas não conheço nenhum deles. Trata-se de um documentário sobre as óperas e filmes musicais de propaganda soviética feitos na finada URSS. Paranóia total em torno às manhãs que cantam do socialismo. Passou aqui em São Paulo em um cineclube longínquo, pra lá do Borba Gato. Pra lá do Borba Gato é a expressão que os paulistanos usam para dizer que algo fica longe. É que o bandeirante tem uma estátua em Santo Amaro, bairro distante de quem quer que more no centro. Para vê-lo, peguei um táxi e atravessei a cidade. O cineclube ficava, literalmente pra lá do Borba Gato. Na sala, mais três outros espectadores. Rimos de doer o estômago. Soube também que passou em alguma sala no Rio. Duvido que alguma outra capital do país o tenha visto. O filme, de 1997, só passou cinco anos depois no Brasil, e quase clandestinamente.

Ou Palombella Rossa, do Nanni Moretti. O filme é de 1989, mesmo ano da queda do Muro de Berlim. O muro nem havia caído e Moretti já intuía a providencial amnésia que acometeu os comunistas no final de século. É uma das mais brilhantes comédias do cinema italiano contemporâneo e jamais entrou nas salas brasileiras. Esteve em um festival, creio que no Rio de Janeiro, mas não houve exibidor que o comprasse. Brasileiros, conhecemos quase toda a filmografia de Moretti, menos a Palombella.

Um filme que teve melhor fortuna foi Adeus, Lênin, do alemão Wolfgang Becker, certamente a mais divertida – e ao mesmo tempo amarga – reflexão até hoje feita no cinema sobre a queda do muro e os conflitos das duas Alemanhas. Melhor fortuna mas não muito. O filme esteve em uma só sala em São Paulo e mereceu escassas linhas na imprensa. Pelo esqueleto da história, o leitor pode ter uma idéia do filme. Uma cidadã da Alemanha oriental, devotada militante do Partido, entra em coma antes da queda do Muro. Só sai do coma quando o muro já ruiu e Berlim Oriental torna-se uma cidade viva e rica. O filho, para evitar um colapso cardíaco da mãe convalescente, procura reproduzir no apartamento já renovado o ambiente do antigo regime. Tem de buscar no porão até mesmo um pôster de Guevara, que já havia jogado na famosa cesta de lixo da História. Claro que os críticos torcem o nariz ante tais cenas: entre nós, o facínora argentino está na moda e tem brilhante futuro pela frente. Terceiro Mundo é isso mesmo.

Atualmente, também em uma só sala, os paulistanos podem ver Slogans, do romeno Gjergj Xhuvani, uma sinistra comédia situada nos dias da ditadura de Nicolae Ceaucescu. A história transcorre em uma escola rural. Os professores recebem, a cada ano, um slogan sobre o regime. Ai do professor que com o regime não estiver bem. Recebe um slogan imenso. É que o professor e seus alunos devem escrevê-lo com pedras nas montanhas. Em um regime fechado e opressivo, em que qualquer pingo de autoridade serve para oprimir um semelhante, é claro que o desfecho não mostrará esperança alguma.

Escolhi filmes emblemáticos para esta reflexão, que ilustram a esquizofrenia dos regimes comunistas. Mas poderia ter escolhido outros, fora desta temática, também brilhantes, com escassa divulgação e público rarefeito.

Está invadindo o Brasil mais uma dessas tantas superproduções americanas, o Homem-Aranha 2, besteirol oriundo de histórias em quadrinhos para adolescentes. Vem precedido de um importante critério estético, como sói acontecer com tais empulhações: em uma semana faturou sei lá quantos milhões de dólares nos Estados Unidos. Pois este parece ser o critério contemporâneo para a avaliação de um filme. Está em 80 salas em São Paulo e em quase 700 no país todo. Tem recebido páginas inteiras dos jornais. Você quer saber porque bons filmes merecem algumas linhas – quando merecem – e porque solenes abacaxis recebem páginas inteiras? É simples. Olhe o pé da matéria. Lá está: o jornalista Fulano de Tal viajou a Los Angeles a convite da Columbia Pictures. E só porque o jornalista viajou a cargo de uma produtora ianque, o público nacional acaba engolindo o pior cinema americano.

Não há nisto nenhuma novidade. A crítica cinematográfica da grande imprensa desde há muito se prostituiu. Não passa dia sem que vejamos em algum jornal editoriais ou artigos indignados defendendo a ética do jornalista. Claro que jamais passa pela cabeça do articulista que seus colegas de redação vendem a pena prazerosamente por algumas mordomias. Ora, dirá o jornalista, eu não recebi nenhum vintém para promover nenhum filme, estou apenas informando. Pode ser que não tenha recebido. Recebeu apenas passagens aéreas internacionais, hospedagem em hotéis de primeira linha, excelente gastronomia e mimos outros tais como festas regadas ao melhor champanhe ou scotch. Muito melhor que qualquer jabá em espécie.

Entende-se que um festival de cinema patrocine a viagem de repórteres ou críticos. O jornalista vai ao festival, tem chance de ver filmes que jamais veria se não viajasse, e escreve sobre o que bem entender. Diferente é ter tudo pago para a estréia de um único filme e sentir-se obrigado, na volta, a pagar suas mordomias com uma página inteira de jornal. Os coleguinhas que me desculpem, mas isto se chama corrupção, essa mesma corrupção que seus jornais denunciam com tanta ênfase quando ocorre no campo político ou administrativo. Corrupção que ocorre com a óbvia cumplicidade do editor e da própria chefia do jornal, pois o jornalista por si só não tem cacife para oferecer página inteira às grandes produtoras de abacaxis.

Ao destacar quem patrocina as mordomias do jornalista, os editores parecem estar dando um atestado de honestidade, quando em verdade escancaram sua venalidade. Aos leitores, repassam matéria paga – e muito bem paga – disfarçada de reportagem. Como pequenas produções, muitas vezes geniais, não têm recursos para financiar mordomias a críticos, o melhor cinema nos é sonegado. Esta prática corrupta travestida de transparência é o que lhe empurra goela abaixo, caro leitor, o lixo das produtoras ianques.

 

 

Janer Cristaldo é escritor, jornalista, tradutor e Dr. em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle.
e-mail: janercr@terra.com.br
blog: cristaldo.blogspot.com
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