São Paulo, 01 de outubro de 2008

Valongo, a força de um monumento

 


Fátima Silva

 

 

Existem lugares na cidade do Rio de Janeiro que estão impregnados de História de uma tal forma que se torna impossível dissociá-la do próprio ambiente. Lugares como a Rua do Lavradio; a Quinta da Boa Vista em que se tem a nítida impressão das damas de sombrinha e dos senhores de chapéu e bengala; o Largo do Boticário; a Vila Operária da Fábrica de Tecidos Confiança, aonde se chega a ouvir as serenatas, cantadas embaixo das janelas ou como Santa Teresa e a Lapa, onde se pode sentir a aura inalterável da boêmia carioca.

Em alguns desses locais, é somente um lampejo, um detalhe. Em outros, porém, surpreende-me a sensação de estar viajando no tempo. Quando o bondinho de Santa Teresa atravessa os trilhos sobre os Arcos da Lapa, parece querer sobrepor seus ruídos característicos à modernidade que insiste em se infiltrar nos arredores. É como se a essência do que ali foi vivido de alguma forma não se tivesse perdido no tempo e perambulasse pelas ruas como uma dama altiva, sabedora de sua importância e determinada a não se deixar extinguir. A quem tem o olhar atento, ela não passa despercebida.

Saúde é mais um bairro que traz em si as cicatrizes profundas e marcantes do passado do Rio de Janeiro. O lugar já foi conhecido como Valongo (juntamente com Gamboa e Santo Cristo) e foi ali, em suas imediações, que havia o maior Mercado de Escravos das Américas. Esse é um dado que não traz glórias nem orgulho à cidade, mas que não pode ser encarado como fato sem importância. Quase todas as casas que existiam na atual Rua Camerino, antes Rua do Valongo, funcionavam como depósito da mercadoria humana e era para lá que se dirigiam aqueles que pretendiam efetuar compras, permutas e até aluguéis de africanos. De várias etnias e línguas, eles eram, em sua maioria, jovens e crianças. Debilitados pela viagem, doentes pelas precárias condições a que eram submetidos, esses homens, muitas vezes, morriam antes mesmo de desembarcar dos navios sendo enterrados em valas comuns no que passou a ser conhecido como Cemitério dos Pretos Novos, ali mesmo na região.

O Morro da Conceição, que faz parte do bairro, foi um dos marcos iniciais da cidade, juntamente com os Morros do Castelo, de Santo Antônio e São Bento. É lá que se encontra a Fortaleza da Conceição, desde 1718 e tem esse nome porque ali foi construída, em 1590, uma capela para a santa. O Observatório do Valongo, a Igreja de São Francisco da Prainha e o Palácio Episcopal, onde atualmente funciona o Serviço Geográfico do Exército também fazem parte do legado histórico do morro. De lá do alto a vista do centro da cidade e do Porto do Rio de Janeiro se apresentam de forma generosa.

A Pedra do Sal, aonde o mar da Baía de Guanabara vinha bater ainda no final do século XIX, é uma pedra lisa e íngreme, com uma escadaria esculpida por mãos escravas, ladeada de casas coloridas subindo em direção ao alto do morro. Era lá, naqueles idos, que desembarcavam os navios negreiros trazidos da África. Mas não é só uma pedra, há algo mais ali que parece prender o olhar e chamar a atenção, como se fosse um monumento natural. Reduto do samba e de encontros culturais históricos, ela parece se destacar do todo e ter identidade própria. Uma tremenda força emana de seus degraus, contrastando com a quase indecente lisura da pedra que lhes deu origem. Indescritível sensação de já ter andado por ali. A mesma impressão que já tive em diferentes lugares do Rio, como se a história que carrego em minhas lembranças tomasse forma nas coisas que vejo muito mais do que se estivesse a ler qualquer livro. Ou então, é a alma antiga da cidade que vagueia por ali, esperando quem a perceba.

Dizem alguns que o povo carioca é saudosista e que esses redutos da história só persistem por sua teimosia em não deixar morrer as rodas de samba, as reuniões em bares regadas a choro e bossa nova nem os recantos persistentes do Rio Antigo. Ouso dizer que se pudermos preservar a alma do Rio Antigo além das peças de museu ou livros embolorados, mesmo com teimosia, estaremos contribuindo para que nossa cidade seja mais que belas praias. Abrir os olhos para um passado histórico é estar atento ao que nos rodeia, mesmo que não existam placas explicativas ou monumentos erigidos, mesmo que ele esteja em ruínas ou embaçado pelos anos. Uma história sem alma pode se transformar em simples poeira de traças e cupins.

 


Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco