São Paulo, 04 de março de 2008
Um castelo na via expressa
Quando falo dos contrastes e surpresas do Rio de Janeiro não me coloco na posição de quem tudo já descobriu ou sabe. Longe de me encontrar imunizada ante o encantamento de novas descobertas eu ainda me surpreendo com maravilhas muitas vezes ocultas em meio ao caos urbano.
Já muitas vezes havia passado em frente à Fundação Oswaldo Cruz, ali em Manguinhos, bairro da zona norte do Rio. Situada como uma ilha de beleza e bucolismo entre favelas e as principais vias expressas da cidade, num local onde poucos gostam de ir e nunca pensariam em fazê-lo num momento de lazer, pode-se ver da Avenida Brasil um lindo castelo rodeado de abundante natureza.
Neste lugar, aonde outrora somente se chegava de barco e onde o sanitarista Oswaldo Cruz e outros tantos cientistas desenvolveram vacinas e projetos fundamentais para a saúde pública, encontra-se um conjunto harmônico de bosques, prédios históricos e a cronologia da saúde brasileira disponível a apreciação pública.
Em meio à fauna e flora existentes ali, distribuídas em 800 mil metros quadrados, está o único castelo neo-mourisco do Rio de Janeiro.
Idealizado pelo próprio Oswaldo Cruz, um homem que visava elevar a saúde a um patamar de respeito e credibilidade, o chamado Pavilhão Mourisco, foi construído pelo arquiteto português Luiz de Moraes Junior. Sua edificação começou em 1904 e só foi concluída em 1917. Para se chegar até ele, há um trenzinho que sobe pelas alamedas arborizadas e amplas do terreno da FIOCRUZ.
Digno de um conto de fadas, o castelo arrebata os olhares e as exclamações de assombro e, do alto das escadas que dão acesso à entrada, tive a nítida impressão de que cavaleiros e carruagens chegariam a qualquer momento.
O Pavilhão possui revestimento externo de tijolos vermelhos, duas torres recobertas de cobre, varandas enfeitadas de azulejos portugueses e pisos de mosaicos franceses reproduzindo belíssimos tapetes orientais. Das sacadas descortina-se a cidade e o mar ao longe. As escadarias em mármore carrara levam ao interior dividido em “quatro andares”, onde luminárias antigas fazem o tempo voltar nos ponteiros. No final das escadas um enorme vitral de cores vivas, enfeita o teto do castelo. É ali que está um quinto andar, construído para ficar oculto do lado externo da construção, ele é o chamado “mistério do castelo”, o ponto alto da visitação.
No castelo também se encontra o mais antigo elevador ainda em funcionamento no Rio de Janeiro. Instalado em 1909 e projetado para fazer quatro paradas em 28,4m de altura, com mecanismo que trava as portas ele somente é usado em ocasiões específicas.
Inaugurado em 1900 com o objetivo de fabricar soros e vacinas contra a peste bubônica o então Instituto Soroterápico Federal teve suas atividades ampliadas quando Oswaldo Cruz assumiu, em 1903, a direção geral da Saúde Pública contribuindo em muito para a saúde e o saneamento do país.
Com o propósito de erradicar da cidade (que carecia de um sistema eficiente de saneamento básico) a varíola, a febre-amarela e a peste bubônica entre outras, o biólogo e sanitarista Oswaldo Cruz, com o apoio do prefeito Pereira Passos e o aval do então presidente Rodrigues Alves iniciou, em 1904, a reforma sanitária. No entanto, os métodos utilizados para tanto não foram bem aceitos pela população.
Casas simples e cortiços do centro da cidade foram derrubados, por serem considerados nocivos à saúde pública, deixando sem moradia pessoas humildes e muitas vezes sem emprego. A vacinação foi imposta com uso de força policial que invadia as residências e fazia valer a nova lei a revelia do povo. A falta de informação da população aliada à forma truculenta de impor a autoridade política, gerou conflitos e culminou com o movimento popular denominado Revolta da Vacina, em 1904, no Rio de Janeiro. Para restabelecer a ordem no caos que tomou conta das ruas da cidade (destruição de bondes, apedrejamento de prédios públicos e uma desordem geral) o presidente Rodrigues Alves revoga a lei da vacinação obrigatória e coloca nas ruas o exército a marinha e a polícia. A cidade voltaria ao normal em poucos dias.
À parte os métodos truculentos e polêmicas da época, Oswaldo Cruz conseguiu não só erradicar doenças graves que assolavam a população como também promoveu o desenvolvimento nacional a partir de pesquisas pioneiras sobre o interior do país, que provocavam discussões acirradas e atitudes transformadoras.Em 1907, Oswaldo Cruz representa o Brasil na Exposição de Demografia e Higiene de Berlim, trazendo de lá o prêmio máximo e voltando ao país como herói. Em 1908, durante novo surto de varíola a população reagiu de forma diferente,procurando a vacinação espontaneamente.
Oswaldo Cruz permaneceu à frente da Instituição até meados de 1916, quando assumiu a prefeitura de Petrópolis. Ele morreu em 17 de fevereiro de 1917, aos 44 anos.Em 1981 o Conjunto Arquitetônico de Manguinhos é tombado pela então Secretaria de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan). Fazem parte do conjunto os pavilhões Mourisco e da Peste; a Cavalariça; o Pombal; o Quinino e o Hospital Evandro Chagas.
Todo esse conjunto de beleza e riqueza patrimoniais indiscutíveis abriga diversos institutos especializados em promover a pesquisa e a saúde. Não poderia haver monumento melhor para a história da saúde nacional, nem biblioteca melhor para a educação de nossos filhos.
(as fotos que ilustram a crônica são da autora)