Rio de Janeiro, 09 de julho de 2011


Quinta da Boa Vista

 

Fátima Silva



Em dias de sol a Quinta da Boa Vista, localizado na zona norte da cidade do Rio de Janeiro, é palco de uma grande confraternização de famílias em busca de espaço e qualidade de vida. E é em meio à algazarra inevitável de pessoas que disputam as sombras que se espalham pelos gramados do parque e crianças que correm entre as alamedas com seus brinquedos, que a alegria toma forma, cheiro e cor para enfeitar o que pode ser um dia inteiro de puro lazer.

Chego mesmo a apostar que essa tradição de reservar os domingos em família para visitar um parque, rodeado de árvores e lagos reluzentes, tenha nascido ali na Quinta, ainda nos tempos das sombrinhas de renda e das perucas cacheadas. Essa impressão de que o parque é um lugar que atravessou os tempos sem corromper a sua essência, fica mais evidente quando a visita se dá em um dia atípico, como numa segunda-feira.

O silêncio dos dias incomuns parece agigantar os gramados e atravessar os raios de sol que se filtram entre os galhos das árvores frondosas para lançar-se sobre os lagos espalhando ainda mais a luz e emprestando a tudo um fulgor mágico, que entorpece os sentidos e nos convida a olhar e ver, ouvir e sentir e ficar por ali cismando e ensimesmando com a vida e a beleza que nos cerca. É um lugar realmente bonito, feito para enfeitar a propriedade real como se fosse uma jóia incrustada ao seu redor.

A vizinhança com o prédio do Museu Nacional me faz imaginar o funcionamento da propriedade como moradia dos imperadores, quando um constante fluxo de cavalheiros, damas e escravos se movimentavam pela colina onde o prédio se encontra e através das alamedas do parque e por todo o lado, dando vida ao conjunto. Difícil imaginar a linda vista que deveria se descortinar das janelas do palácio nos tempos do império, motivando o nome que tem até hoje; Quinta da Boa Vista.

Até o século XVII, a Quinta (e arredores) fazia parte de uma fazenda de Jesuítas. Em 1759, no entanto, com a expulsão dos mesmos a propriedade foi dividida em partes menores de posse de particulares. Uma delas foi adquirida, com o passar do tempo, pelo traficante de escravos português Elias Antônio Lopes. Este, por sua vez, doou a propriedade ao príncipe regente D. João por ocasião da vinda da família real em 1808. Essa doação não foi somente por generosidade do proprietário, que possuía o que àquele tempo era considerada a melhor moradia da cidade, mas antes uma possibilidade de fazê-lo sem sair de mãos abanando, como muitos que foram desalojados para dar lugar à corte portuguesa sem receber qualquer indenização em troca.

Elias recebeu outra propriedade, mais modesta, a título de compensação, mas caiu nas graças da família real recebendo no mesmo ano a comenda da Ordem de Cristo, o ofício de Tabelião e Escrivão da Vila de Parati e, dois anos depois, foi sagrado cavaleiro da Casa Real, além de outros postos, como o de Deputado da Real Junta de Comércio.

O terreno que cercava o casarão à época da vinda da família real era alagadiço e formado por manguezais. A chegada até a propriedade era difícil e penosa quando feita por terra e com o tempo os caminhos foram sendo aterrados e melhorados. Apesar das dificuldades, muitas pessoas atravessavam esses caminhos pantanosos para beijar a mão do soberano.

Um dos maiores responsáveis pelo embelezamento dos jardins da Quinta foi D. Pedro II que, por volta de 1869, executou obras paisagisticas com projeto do francês Auguste François Marie Glaziou com características originais que ainda se podem observar hoje em dia, como a Alameda das Sapucaias e a gruta artificial.

Funcionam na Quinta da Boa Vista, que hoje é um parque destinado ao lazer do povo carioca, o Jardim Zoológico, o Museu da Fauna, e o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista que funciona no antigo Paço de São Cristóvão.

Como em muitos outros lugares bucólicos da cidade esse espaço é bem aproveitado para o que se destina, mas além disso ele mantém a dignidade dos patrimônios históricos, servindo ao povo e por ele sendo celebrado através dos anos, como nos tempos em que era um grande e majestoso jardim real.

 


 

 

 

Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco