São Paulo, 02 de junho de 2008
Presente de Rei
A quantidade de parques florestais e espaços verdes disponíveis na cidade do Rio de Janeiro é mais uma das incontáveis riquezas cariocas. Fugir do pandemônio que é o dia-a-dia urbano é tarefa fácil. Dia desses, um domingo, me vi a caminho do Jardim Botânico, zona sul da cidade, no bairro de mesmo nome e pouco antes de chegar lá, no caminho, passei pelos muros do Parque Lage, outro recanto de floresta no mesmo bairro. As inúmeras opções estão espalhadas por toda a cidade e, arrisco dizer, nenhuma outra cidade possui tantos parques assim.
São lugares como esses que fazem uma fila de carros se estender na rua nos finais de semana de sol. Famílias em busca de laser e tranqüilidade, namorados em busca de recantos bucólicos, pessoas em busca de beleza e ar puro. Em muitos desses locais se encontram obras de arte, prédios históricos e museus, além da fauna e flora diversificada.
O Jardim Botânico, por exemplo, perto de completar duzentos anos, não é uma reserva natural, ele foi totalmente planejado e sua história remonta aos tempos do império. A razão de sua construção foi a iniciativa de D. João VI em trazer e aclimatar espécies vegetais do oriente. Apesar das medíocres caricaturas já pintadas desse rei, ele já antecipava o grande potencial agrícola da colônia e trouxe mesmo estrangeiros para fazer o plantio das mudas “contrabandeadas”. O quadro “Plantação de Chá no Jardim Botânico” do artista Johan Moritz Rugendas retrata os chineses fazendo o cultivo do chá no parque, no século XVIII. Naquela época, o Jardim Botânico não era aberto à visitação pública, o que só ocorreu após a volta do rei para Portugal, em 1822.
Apesar de sua história nada convencional, o Parque parece que sempre existiu e que somente se fez um reparo aqui ou acolá. Cascatas, lagos, palmeiras centenárias, plantas medicinais, vitórias-régias, lótus, aguapés, bromélias, violetas, orquídeas, cactos, espécimes em extinção como o pau-brasil e animais silvestres fazem parte dessa herança deixada pelo rei português.
Não bastasse o inestimável valor ambiental que o parque representa, existem lá construções históricas como as ruínas do muro da antiga Fábrica de Pólvora. Construída por D. João VI, ela abastecia todo o território brasileiro. Há também, o imponente Solar da Imperatriz, que fazia parte do mais antigo engenho de cana-de-açúcar da colônia, juntamente com outras 58 chácaras existentes no entorno dos bairros que hoje cercam a Lagoa Rodrigo de Freitas. Era o Engenho de Nossa Senhora da Conceição da Lagoa cuja antiga sede, hoje restaurada, abriga o Centro de Visitantes do Parque.
Em meio ao verde planejado e às variedades de vegetais e animais silvestres espalhados harmonicamente por todo o parque, ainda há os monumentos para surpreender numa primeira visita. Logo na entrada, somos saudados pela belíssima escultura que retrata uma dança de índias em tamanho natural. A harmonia dos movimentos dá a nítida impressão de que elas sairão dançando e meio ao gramado. Em todo canto encontram-se bebedouros inspirados na deusa grega Tétis, divindade da água, mãe dos rios e das fontes. Junto a um lago, dos seis existentes, existe um recanto onde uma estátua de corpo inteiro da mesma deusa parece mesmo estar viva entre as folhagens.
No Cômoro Frei Leandro está a Casa dos Cedros e nela a Mesa do Imperador, lugar onde D. Pedro I e D. Pedro II gostavam de fazer suas refeições quando em visita ao parque. A Casa do Pescador é quase um convite ao deleite, cheguei mesmo a imaginá-la na beira da praia, num dia quente de mar azul. O Portal Real da Academia de Belas Artes foi trazido da Praça Tiradentes, centro do Rio de Janeiro e montado no final da Aléia das Palmeiras, à época de sua demolição, no século XIX. Essa Aléia, aliás, é um convite ao silêncio e a contemplação. Mas isso tudo ainda é pouco diante das inúmeras surpresas que o Parque proporciona.
Intrigante e reveladora a inspiração de D. João VI acabou legando à cidade um Museu Botânico, reconhecido internacionalmente. Fico pensando se, no século XVIII tal façanha foi possível, como seria hoje, com todo conhecimento tecnológico e científico que temos, se fossem criados mais jardins como esse, ou ainda maiores, em nosso país já tão devastado. Segundo a UNESCO, o Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, é definido como uma das reservas da biosfera. Sem dúvida, ele é um presente de rei.
Outro parque, bem maior, mas não menos bonito é o Parque Nacional da Tijuca, a maior floresta urbana replantada do planeta. Com seus 33 km2, ela tem em sua história a devastação provocada pelo cultivo de café. Com a falta de vegetação e também a ocorrência de secas na cidade houve uma grande diminuição dos mananciais de água o que levou D. Pedro II a desapropriar as áreas próximas das nascentes e ordenar o reflorestamento imediato da região. Apesar de ter sido feito de uma maneira nada técnica o replantio trouxe de volta a floresta, a água e até espécimes animais.
Hoje, a floresta de mata atlântica, funciona como um pulmão da cidade, estabilizando o clima e proporcionado belíssimas vistas da cidade a quem quiser se aventurar. Além disso, o Parque Nacional da Tijuca, que tem acessos em diversos bairros da cidade, possui também atrativos turísticos como grutas, cascatas, açudes. A Vista Chinesa, as Paineiras e também os picos que fazem parte do Parque, oferecem uma bela visão da cidade em vários ângulos diferentes àqueles que estiverem dispostos a algumas horas de caminhada por trilhas demarcadas.
De ponta a ponta da cidade temos tais refúgios, trazendo mais que beleza a cidade, pois que eles são o testemunho de que alguma coisa pode e deve ser mudada em relação à devastação florestal. Nesse momento em que o mundo todo busca uma consciência ambiental responsável, em que se discute a quem compete administrar a maior floresta do Brasil (e do mundo) saber de histórias como essas deveria simplificar a visão burocrática e política. Em pleno século XXI, a resposta a todas as questões ambientais se resume em sementes, respeito e boa vontade, uma receita que já foi testada e obteve resultados excelentes, dois séculos atrás. Desde a educação de nossas crianças até a fiscalização de nossos adultos existe um caminho árduo, mas ele precisa ser percorrido e não há mais o que esperar. Segundo um provérbio de autoria desconhecida; “antes de morrer, todo homem deve plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro”. Então, plantemos nossas árvores e somemos as nossas vontades que o resto será mera, e feliz, conseqüência.
Alguns parques da cidade do Rio de JaneiroZona Norte
Parque Nacional da Tijuca
Parque Recanto do Trovador
Quinta da Boa Vista
Parque Estadual do GrajaúCentro
Passeio Público
Campo de Santana
Parque Brigadeiro Eduardo Gomes (Aterro do Flamengo)Zona Sul
Parque Natural Municipal da Cidade
Parque Lage
Instituto de Pesquisa Jardim Botânico do Rio de Janeiro
Parque Garota de Ipanema
Parque Estadual da Chacrinha
Parque Tom Jobim (Margens da Lagoa Rodrigo de Freitas)
Parque Natural Municipal do Penhasco (Dois Irmãos)
Zona Oeste e Baixada
Bosque da Barra
Parque Fazenda Restinga
Parque Mello Barreto
Parque Natural Restinga de Marapendi
Parque Estadual Maciço da Pedra Branca
Parque Ecológico Municipal Chico Mendes
Parque Natural Municipal da Serra do Mendanha