Desde os tempos mais antigos, palácios são símbolos de poder e riqueza. Construídos para serem residências reais, templos funerários ou até mesmo presentes de enamorados, eles têm em comum a grandiosidade dos edifícios, a singularidade de estilos empregados e a riqueza de detalhes que lhes empresta ainda mais suntuosidade. Sejam os palácios fulgurantes ou decadentes, sempre têm a aura de uma história que os transforma em alvo de curiosidade, fantasia e respeito. Alguns permanecem pelos tempos afora e se transformam em centros culturais, hotéis, museus. Outros, infelizmente, sucumbem ao progresso, à ganância, às guerras e até mesmo conflitos políticos ou pessoais.O Palácio Tiradentes, na antiga Rua Direita, hoje rua 1º de Março, foi construído para ser um símbolo do poder e da renovação política no Brasil. Sua construção aconteceu entre os anos de 1922 e 1926 e custou aos cofres públicos a fortuna de mais de 14.000 contos. Por essa época, o país comemorava o primeiro centenário da Independência e havia certa euforia em festejar a força da instituição brasileira. O então presidente Epitácio Pessoa, com o apoio de outros políticos da época, julgou necessária a construção de uma nova sede para a Câmara dos Deputados. Importante frisar que a construção do Palácio foi só uma das providências tomadas na época, havia outras em andamento como a demolição do Morro do Castelo, marco histórico da fundação da cidade.
Desde o Brasil colonial era costume que toda a forma de poder ficasse centralizada em uma única sede e na década de 20, a Câmara dos Deputados ainda funcionava no prédio da Cadeia Velha, lugar que abrigara os presos do período colonial e onde o mártir da independência, Tiradentes, ficou preso por três anos, aguardando sua execução. O novo palácio foi construído no mesmo terreno, na antiga Rua Direita (hoje 1º de Março) após a demolição do prédio do antigo Parlamento Imperial. A escolha do local se deu por ele já ser identificado historicamente como sede do poder legislativo na cidade e também para homenagear a memória de Tiradentes.
A Rua Direita era, nos idos do século XVII, apenas uma trilha precária, porém era também o lugar por onde circulavam os mercadores de escravos e, no século XVIII, já era uma das vias mais movimentadas da cidade, onde se instalaram os primeiros governadores da cidade, numa casa na esquina da Rua da Alfândega. Em torno dessa rua se desenvolveram as principais ruas da cidade. Consta que, em 1835 foi ali inaugurada uma sorveteria que causou sensação na cidade. A antiga Rua Direita foi a primeira rua da cidade a possuir numeração em seus imóveis. Em 1875 ela passou a chamar-se Rua 1º de Março numa homenagem a vitória na Batalha de Aquidabã, em 1870, importante para o fim da Guerra do Paraguai.
De estilo eclético, o Palácio, uma obra de Arquimedes Memória e Francisco Cuchet, tem a fachada revestida de concreto armado com esculturas representando a Independência e a República. Colunas corintianas encimam a escadaria ladeada por rampas laterais em curva. No interior, um vitral de autoria do brasileiro Rodolfo Chamberlland, está pintado o céu da noite de 15 de Novembro de 1889. Há ainda no prédio, decorações de artistas renomados e um painel decorativo do plenário, executado por Eliseu Visconti, que representa a assinatura da Primeira Constituição Republicana de 1891 onde estão retratados, em tamanho natural, sessenta e três constituintes. Em frente ao palácio uma estátua de Tiradentes de autoria de Francisco Andrade.
Em 1937, por ocasião da instituição do Estado Novo (Sistema de Governo que tinha caráter centralizador e autoritário, assim nomeado por Getúlio Vargas, quando este deu um golpe de Estado), o Palácio foi sede do Departamento de Imprensa e Propaganda, que centralizava a informação e tinha o controle e a função de censor de todas as manifestações culturais do Brasil, o que lhe conferia amplos poderes, inclusive para promover oficialmente o governo do então presidente Getúlio Vargas. Com o fim do Estado Novo, em 1945, o prédio passa novamente a ser sede da Câmara dos Deputados. Na década de 60, com a mudança da capital Federal para a cidade de Brasília, a cidade do Rio de Janeiro ficou com a nomenclatura de Estado da Guanabara e o Palácio acolheu a Assembléia Legislativa do Estado da Guanabara até 1975 quando se fundiu ao Estado do Rio de Janeiro e o Palácio passou a ser sede da Assembléia Legislativa do estado do Rio de Janeiro.O Palácio Tiradentes faz lindo conjunto com alguns outros prédios da rua 1º de março e arredores, como o Paço Imperial, a Igreja de São José e as Igrejas da Ordem do Carmo, as duas mais antigas e tradicionais da cidade. Não se pode andar por essa rua sem indagações do quanto de história se fez por ali. Apesar de ter perdido o posto de rua mais movimentada da cidade após a criação da antiga Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco, a rua 1º de Março mostra com seus prédios majestosos a importância que teve no crescimento do Rio de janeiro. Há que se ter olhos sedentos de história e a alma curiosa de um poeta, para olhar além da suntuosidade de suas construções.
Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco